O “Rei do sonho olímpico” brasileiro acabou preso com ouro para 2.388 medalhas

Fernando Frazão / Agência Brasil

Presidente do Comité Olímpico Brasileiro e do Comité Organizador dos Jogos Olímpicos Rio 2016, Carlos Arthur Nuzman.

O homem que comanda o desporto do Brasil há mais de duas décadas sempre teve orgulho de dizer que “não recebia um centavo” como presidente do Comité Olímpico Brasileiro. Mas o pedido de detenção emitido pelo Ministério Público do Brasil refere que, nos últimos 10 anos, enriqueceu em “457%”.

De fato, gravata e com a elegância que sempre lhe foi peculiar nos últimos 22 anos à frente do Comité Olímpico Brasileiro (COB), Carlos Arthur Nuzman deixou a sua casa, nesta quinta-feira, acompanhado por agentes da Polícia Federal e foi levado para a sede do órgão, no Rio de Janeiro, onde ficará preso durante os próximos cinco dias.

Nuzman foi detido pela alegada participação na compra de votos, com vista à eleição do Rio de Janeiro para sede dos Jogos Olímpicos de 2016, enfrentando acusações de corrupção, branqueamento de capitais e participação em organização criminosa.

No pedido de detenção, o Ministério Público brasileiro refere que, nos últimos 10 anos, Nuzman teve um “crescimento patrimonial de 457%”, conforme cita a BBC Brasil.

A investigação revelou, inclusive, que ele mantinha 16 quilos de barras de ouro depositadas na Suíça. Esses 16 quilos seriam suficientes para a produção de 2.388 medalhas de ouro como as que foram distribuídas nos Jogos do Rio – cada uma tinha, segundo o COB, cerca de 6,7 gramas de ouro.

O Ministério Público brasileiro aponta que Nuzman não reportou qualquer pagamento recebido do COB ou do Comité Organizador dos Jogos Olímpicos 2016, e que “não há explicações sobre quem efectivamente o remunerou”, ainda segundo citação da BBC.

Unfair Play

A prisão temporária de Nuzman foi decretada como parte da Operação “Unfair Play” que investiga a suposta compra de votos de dirigentes do Comité Olímpico Internacional (COI), na eleição que escolheu o Rio de Janeiro para se tornar sede das Olimpíadas de 2016.

Fernando Frazão / Agência Brasil

A investigação revelou que Carlos Arthur Nuzman mantinha 16 quilos de barras de ouro depositadas na Suíça

O COI já anunciou a suspensão de Nuzman de todas as suas actividades relacionadas com o movimento olímpico. E o COB também foi suspenso pela entidade internacional, com todas as verbas a que tinha direito congeladas.

‘Reinado’ de 42 anos

Nuzman começou a sua carreira no desporto dentro do jogo, como jogador de voleibol até aos 31 anos.

Em 1975, com apenas 33 anos, tornou-se presidente da Confederação Brasileira de Voleibol (CBV), transformando a forma como o país vivia o desporto e ganhando fama por uma gestão que foi considerada “modelo”.

Conhecido como figura autoritária, segundo fontes ouvidas pela BBC Brasil, o “estilo” Nuzman conseguiu manter um ambiente de silêncio entre os atletas, que temiam represálias.

Em 1995, Nuzman chegou à presidência do COB, cargo que manteve por mais de duas décadas, sendo reeleito seis vezes – em muitas ocasiões, foi candidato único. Um dado que tem menos a ver com a eficiência da sua gestão e está mais relacionado com o poder que acumulou e com estratégias que adoptou para se manter no cargo.

Logo nos seus primeiros anos na gestão do COB, Nuzman disse que queria que o Rio de Janeiro fosse sede dos Jogos Olímpicos. Em 1997, levou a candidatura da cidade ao COI (para os Jogos de 2004) pela primeira vez e acabou eliminado na primeira fase. Na segunda tentativa, para os Jogos de 2012, perdeu para Londres.

Mas segundo as fontes ouvidas pela BBC Brasil, esse período deu ao presidente do COB a possibilidade de perceber a política de “agrados” que o poderia ajudar a fortalecer uma candidatura. Assim, entraram em cena jantares e eventos com a presença de ícones brasileiros, como o escritor Paulo Coelho e o ex-jogador e “Rei do Futebol” Pelé, oferecidos a presidentes de Confederações vinculadas ao COI.

Na investigação da Operação “Unfair Play“, a polícia federal cita o pagamento de um suposto suborno a pelo menos um dos dirigentes – Papa Diack, filho de Lamine Diack, então presidente da Federação Internacional de Atletismo e com direito a voto na eleição para a sede das Olimpíadas.

Em 2009, Nuzman conseguiu finalmente confirmar o Rio de Janeiro como sede dos Jogos de 2016 e recebeu boa parte do crédito pela façanha. Acumulou então os cargos de presidente do COB com o de presidente do Comité Organizador do evento, apesar das críticas, dado o “conflito de interesses” evidente.

Mas, agora que está detido, após 42 anos na gestão do desporto no Brasil, poucos acreditam em mudanças. “Ele foi preso, mas o desporto do Brasil é a mesma coisa, o mesmo sistema, as mesmas federações”, lamenta Bebeto de Freitas, técnico da primeira medalha olímpica do voleibol brasileiro e uma das pessoas que se desentendeu com Nuzman, no passado, em declarações à BBC Brasil.

ZAP // BBC Brasil

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