Prepare-se para cada vez mais ondas de calor

Tiago Petinga / Lusa

Nas últimas décadas, as ondas de calor causaram muito mais mortes na Europa do que qualquer outro evento climático extremo. E a comunidade científica prevê que sejam cada vez mais comuns os verões mais quentes que o habitual. 

A Europa enfrenta uma onda de calor, e essa onda não está a dissipar-se – pelo contrário. Uma massa de ar quente com origem em África, traz poeira do deserto, afectando em particular os países do sudoeste europeu.

Em Portugal, no sábado, a temperatura foi a mais alta de que há registo nos últimos 26 anos. Em Lisboa, as temperaturas chegaram aos 44 graus. Em Alvega, no distrito de Santarém, os termómetros chegaram a marcar 46,8 graus. Alertas meteorológicos foram também emitidos este fim de semana para 40 das 50 províncias da Espanha.

Se os habitantes da Península Ibérica sentem que já nem conseguem pensar com clareza com tanto calor, não estão errados. Segundo mostrou um estudo realizado pela Escola de Saúde Pública de Harvard, publicado em julho deste ano na revista PLOS, o as temperaturas elevadas podem tornar o cérebro 13% mais lento.

Mas esse não é o único problema relacionado com o calor extremo. Temperaturas elevadas aumentam o nível de poluentes no ar, e aceleram a taxa de reacções químicas – o que eleva o risco de doenças cardiovasculares e respiratórias. Além disso, temperaturas altas incomuns durante a noite perturbam o sono reparador, impedindo que o corpo se recupere do calor diurno.

“As ondas de calor causaram muito mais mortes do que qualquer outro evento climático extremo nas últimas décadas na Europa”, diz Vladimir Kendrovski, director técnico de saúde e mudança climática do Gabinete Regional da Organização Mundial de Saúde para a Europa.

Kimimasa Mayama / EPA

Em Tóquio, pela primeira vez na história, as temperaturas passaram dos 40°C

Grupos vulneráveis, como crianças pequenas e idosos, sofrem mais. Muitas vítimas de calor extremo vivem em áreas urbanas densamente povoadas, onde é escassa a ventilação. Segundo sustentam a maior parte dos estudos científicos publicados recentemente, as atuais ondas de calor estão ligadas às alterações climáticas.

Recordes no Japão

Mas a Europa não é a únca região do planeta a atravessar uma onda de calor. No Japão, por exemplo, 119 pessoas morreram de stress devido ao calor que se fez sentir em julho, e 49 mil foram hospitalizadas.

O país está a registar este verão um pico de temperaturas sem precedentes. A cidade de Kumagaya estabeleceu um novo recorde nacional de calor, atingindo 41,1°C no final de julho. Em Tóquio, pela primeira vez na história, as temperaturas passaram dos 40°C.

Um novo estudo aponta também que a China deverá enfrentar problemas significativos com o calor extremo num futuro não muito distante.

Investigadores do Instituto de Tecnologia de Massachusetts mostraram que, a menos que medidas drásticas sejam tomadas para limitar as emissões de gases estufa, a região mais populosa e agrícola da China poderá viver, repetidamente, condições climáticas nas quais os humanos não podem sobreviver desprotegidos por longos períodos.

A questão não é apenas as altas temperaturas, mas o calor associado à humidade elevada. O clima quente associado à humidade também é um cenário perfeito para a proliferação de insectos.

Isso é particularmente preocupante para países vulneráveis a doenças como a malária ou a dengue – doenças disseminadas por agentes vectores, ou seja, transmitidas por picada de espécies como mosquitos, pulgas ou carraças.

“As doenças transmitidas por vectores estão associadas às alterações climáticas, devido à sua ocorrência generalizada e à sensibilidade dos agentes vectores aos habitats“, diz Kendrovski.

Mosquitos como o Aedes aegypti, que pode transmitir a dengue e a febre amarela, estão a espalhar-se para novas regiões, devido parcialmente às temperaturas crescentes.

Não se exponha

O que as pessoas podem fazer para sobreviver ao calor? Não se exponha ao Sol, use roupas leves e soltas, e beba água suficiente. Náuseas e dores de cabeça são reações comuns ao calor, mas alterações no comportamento, vômitos, respiração e batimento cardíaco acelerado podem ser sinais de insolação.

Nesse caso, uma ambulância deve ser chamada imediatamente. A insolação não tratada pode danificar rapidamente o cérebro, o coração, os rins e os músculos. Quanto mais tardar o tratamento, maior o risco de complicações sérias ou morte.

Tiago Petinga / Lusa

O que fazer para sobreviver ao calor? Antes de mais, não se exponha ao Sol

No futuro, o número de mortes em ondas de calor provavelmente aumentará, se as pessoas não conseguirem adaptar-se ao aumento das temperaturas. Investigadores da Universidade Monash, na Austrália, desenvolveram um modelo matemático para estimar o número de mortes relacionadas com calor em 20 países, para o período entre 2031 e 2080.

O estudo, publicado recentemente na revista online PLOS Medicine, constatou que o aumento da mortalidade provavelmente será maior perto do Equador.

A Colômbia, previsivelmente o país mais afectado, poderá enfrentar um aumento de 2.000% de mortes prematuras por calor extremo durante o período de 2031 a 2080, em comparação com 1971 a 2010. Segundo o estudo australiano, Filipinas e Brasil também deverão sofrer os maiores aumentos de mortes prematuras devido ao calor.

Segundo o estudo, os Estados Unidos e a Europa registarão um menor aumento da mortalidade associada ao excesso de calor – com a Moldávia a registar o valor mais elevado, de 150%. Mas talvez esteja na hora de comprar uma sombrinha.

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1 COMENTÁRIO

  1. Não sou professor de português, mas sou anti-acordo ortográfico. Lamento que a nossa língua esteja a ser colonizada pelo brasuquês e colocada na nossa comunicação social sem qualquer pudor. Será que a palavra “vômitos” do brasuquês, acima escrita significa “vómitos” em português ibérico? Será que “vômitos” também faz parte do acordo ortográfico (que desprezo solenemente?). No parágrafo: Não se exponha – … … alterações no comportamento, vômitos, … … Por favor!

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