José Coelho / Lusa

EUA vivem atualmente um planalto no seu processo de vacinação, com pouco mais de meio milhão de cidadãos a serem vacinados diariamente. Desaceleração no ritmo de inoculações é atribuída a motivações pessoais da população e que, em alguns casos, são uma repetição de fenómenos já vistos durante a campanha de vacinação contra a poliomielite.

Portugal suplantou os Estados Unidos no número de vacinas administradas ao atingir, este fim-de-semana a marca 50.5% da sua população com vacinação completa. Apesar de terem iniciado o processo de inoculação com poucas semanas de diferença, os dois países dispunham de quantidades de doses muito díspares face aos diferentes processos de aquisição de vacinas — no caso dos países europeus, a compra foi centralizada pela Comissão Europeia e o envio das doses decorreu de forma progressiva.

Portugal tem agora 50.5% da sua população totalmente inoculada contra a covid-19 e 15.8% com uma dose da vacina. A 25 de junho, Portugal administrou 112.56 doses por 100 habitantes. Os Estados Unidos da América, têm 48.75% da sua população vacinada com as duas doses e 7.60% apenas com uma.



No que concerne ao ritmo de vacinação, este tem vindo a desacelerar depois das marcas atingidas nos primeiros meses da presidência de Joe Biden.

Os motivos para esta tendência não são claros, pelo que as autoridades os atribuem frequentemente a decisões pessoais. O The Guardian cita o caso de Yolette Bonnet, com 60 anos, que se vacinou na semana passada. Um caso como outros, não fosse Yolette profissional de saúde, a quem foi dada a hipótese de receber a vacina em dezembro.

Yolette, afro-americana, escolheu não o fazer por, primeiro, ter esperanças que a pandemia desaparecesse milagrosamente e, segundo, por ceticismo em relação ao aparelho médico norte-americano, conhecido pelo racismo sistémico. Agora, e depois de se ver confrontada com inúmeros casos de crianças às portas da morte por terem contraído a doença, à semelhança da própria Yolette, decidiu finalmente vacinar-se.

Para a decisão terão contribuído os incentivos das duas filhas, do marido e da equipa médica onde está integrada. Tal como escreve o título britânico, são estas “decisões complexas e altamente pessoais” que estão a colocar em causa o sucesso do processo de vacinação nos Estados Unidos, numa altura em que a variante Delta é já dominante.

Há duas semanas que os EUA vivem um planalto no seu processo de vacinação, com pouco mais de meio milhão de americanos a receber as suas doses diariamente.

Para já, estas reticências ainda não se manifestam de forma grave no número de internamentos ou de mortes — com os especialistas a colocarem de parte um cenário como o vivido no inverno anterior. Ainda assim, um pico, com 60 mil casos diários, é tido como certo no outono.

Para além das motivações pessoais, os EUA vivem atualmente um período marcado pelo atraso no processo de distribuição de vacinas, comparando com meses como abril, quando mais de três milhões de pessoas eram vacinadas por dia. Este atraso deverá também agravar as desigualdades nos territórios com mais elevados níveis de vacinação, o norte e este do país.

De facto, nos Estados Unidos, as comunidades com níveis mais baixos de vacinação são tendencialmente mais pobres, rurais e habitadas por minorias. No caso do sul do país, há ainda um desinvestimento histórico na saúde pública. Simultaneamente, a política também é um fator — talvez o mais polémico — a considerar, já que também os eleitores do partido Democrata são mais prováveis de se vacinar em comparação com os republicanos.

Em última instância, alguns dos fatores que estão a impedir os norte-americanos de se vacinarem contra a covid-19 já tinham sido vistos no passado, quando estavam a ser implementadas campanhas de vacinação contra a poliomielite, nos últimos anos da década de 90.

A este ritmo — considerando a tendência de abrandamento registada ao longo das últimas duas semanas —, estados como o Idaho, Montana ou a Dakota do Norte só terão 70% da sua população vacinada no outono de 2022.

ARM, ZAP //