Marcação cerrada contra sexo e cultura muçulmana. Na Índia, a política até influencia os anúncios publicitários

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Um estilista indiano foi obrigado a retirar os anúncios da sua última linha de jóias de casamento depois de ter sido ameaçado com uma ação legal por um político do partido do primeiro-ministro Narendra Modi.

Os anúncios publicitários da coleção de jóias Mangalsutra, lançada pela marca indiana Sabyasachi, apresentavam modelos, algumas em lingerie, adornadas com jóias de noiva enquanto posavam em casal, inclusive alguns do mesmo sexo.

De acordo com a Vice, os Mangalsutras são considerados ornamentos sagrados na tradição hindu, comummente usados pelas esposas como representações simbólicas do seu estado matrimonial.

Os quadrantes hindus de extrema-direita consideraram a campanha ofensiva devido ao vestuário das modelos, à natureza íntima das suas poses e à sugestão de relação amorosa entre pessoas do mesmo sexo.

Em declarações à imprensa local, no passado domingo, um ministro de Narenda Modi disse estar “a avisar pessoalmente o designer Sabyasachi Mukherjee” com “um ultimato de 24 horas“.

“Se este anúncio censurável e obsceno não for retirado, será registado um processo contra ele e serão tomadas medidas legais”, afirmou Narottam Mishra.

Na sequência da ameaça, Sabyasachi retirou os anúncios e divulgou uma declaração a pedir desculpa. “A campanha foi concebida como uma celebração e entristece-nos profundamente que, em vez disso, tenha ofendido uma parte da nossa sociedade”, escreveu.

A mais recente ameaça é a terceira de uma série de censuras informais contra a publicidade conduzidas pelo partido nacionalista hindu no poder, que tem vindo a apertar o seu controlo sobre as maiores empresas do país.

Em outubro, Mishra emitiu um aviso contra a empresa Dabur, depois de esta ter lançado um anúncio publicitário que retratava um casal de lésbicas a celebrar o festival hindu de Karva Chauth.

A empresa também cedeu às ameaças do ministro e retirou o anúncio para evitar repercussões legais.

No mesmo mês, a empresa de vestuário FabIndia foi bastante criticada pelos políticos do partido no poder por utilizar a frase parcialmente urdu “Jashn-e-Riwaaz”, que se traduz para “Celebração da Tradição”, para promover a sua coleção antes do festival hindu do Diwali.

A frase foi condenada por ter alegadamente ferido os sentimentos da comunidade hindu.

Embora o urdu tenha tido origem na Índia do século XII e seja atualmente uma das suas 22 línguas oficiais, usa uma escrita persa-arábica e é considerada uma “língua muçulmana” por muitos indianos.  Apesar de ser falada pelos muçulmanos indianos, que constituem 14% da população do país, é cada vez mais controversa. Aliás, desde que Modi chegou ao poder, várias vilas, cidades e ruas perderam os seus nomes urdu e adotaram novos nomes hindus.

Em declarações à Vice, Rohit Chopra, professor de comunicação na Universidade de Santa Clara, na Califórnia, disse que a crescente pressão sobre as empresas pode ter um efeito dominó, dominando comportamentos e atitudes de compra do consumidor.

“Conduz a uma forma peculiar de comportamento regressivo do consumidor onde ser um ‘bom hindu’ é agora codificado como apoio às empresas que cumprem com os Hindutva”, a forma predominante de nacionalismo hindu na Índia, explicou.

“Assim, podemos vir a assistir a uma lógica ‘ser hindu, comprar hindu’ mais proeminentemente expressa no comportamento de compra, onde o hindu é cada vez mais definido em termos como militante, nacionalista, alienado de qualquer associação com outras religiões, especialmente o islamismo e o cristianismo. Por sua vez, as marcas irão responder mais a esta expectativa e reforçá-la”, acrescentou.

  ZAP //

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