Nem no pior cenário arde tanto este ano como em 2017

Paulo Cunha / Lusa

Devido à muita destruição causada pelos incêndios de 2017, mesmo que todos os fatores se conjugassem no pior cenário possível, o impacto das chamas este ano será sempre menor.

É no meio florestal que o risco persiste, já que este ano o esforço de limpeza à volta de casa e em zonas urbanas foi acrescido. No entanto, dado o tamanho da destruição do ano passado, o perigo de destruição nunca será tão grande.

Mesmo que nesta época de fogos, as condições meteorológicas mais adversas se voltassem a conjugar, a área ardida não ultrapassaria os 300 mil hectares, contra os 514 mil que arderam em 2017, de acordo com as previsões de Paulo Fernandes, técnico que integrou a Comissão Científica Independente que analisou os fogos do ano passado, ao Público.

O técnico utilizou um modelo matemático, no qual introduziu as condições meteorológicas e a área ardida dos últimos seis anos para conseguir traçar diferentes cenários, sendo o mais gravoso o dos 300 mil hectares.

Depois de uma política de prevenção de pessoas e bens no inverno, o verão é altura de virar as preocupações para as ignições. “De qualquer forma, as ignições baixaram muito desde 2000. Das que ultrapassam um hectare, passámos de 8000 para 3000”, aponta Paulo Fernandes, já que há uma maior consciencialização e menos pessoas nas zonas rurais.

O especialista refere ainda que a acumulação de combustíveis é o problema maior.

No âmbito do Programa Nacional de Redução de Ignições de Incêndios Rurais, apresentado esta segunda-feira, o coordenador do Sistema Nacional de Defesa da Floresta contra Incêndios, Rui Almeida, explicou que o Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF) irá apresentar uma análise diária onde se identificam os locais de perigo e onde são mais prováveis os reacendimentos, partilhando-a com as autarquias e as outras entidades que estão no terreno.

Para este programa, foi criado um regulamento que, entre outras medidas, como a declaração da intenção de proceder a queimadas, prevê o acompanhamento destas práticas de forma a tentar melhorá-las.

Irá, além disso, ser criado um sistema informático e uma linha telefónica para se pedir autorização para as queimadas. Esta só será dada se houver condições favoráveis mas no período crítico continuarão proibidas.

A fiscalização será reforçada nas áreas mais críticas e ainda esta segunda-feira foi assinado um protocolo com as forças armadas – o plano Faunus – para que estas participem também na vigilância e sensibilização das populações em 44 zonas do país e que incluem as áreas protegidas, os perímetros florestais e as matas nacionais, aponta o Público.

Só 13 dos 32 meios aéreos previstos poderão voar imediatamente

Treze dos 32 meios aéreos previstos para a fase reforçado (nível II), que começa hoje, estão disponíveis a partir desta data, anunciou esta terça-feira o Governo. Em comunicado, o Ministério da Administração Interna anuncia que estão disponíveis 13 helicópteros e que 12 aviões foram já contratados.

O MAI indica também que o Governo assegurou já a contratação de mais de 28 meios aéreos (helicópteros ligeiros e médios), através de quatro empresas, encontrando-se assim garantido o aluguer dos 50 meios aéreos previstos para o Dispositivo Especial de Combate aos Incêndios Rurais (DECIR) 2018.

“Os meios serão disponibilizados à medida que forem sendo concluídos os procedimentos”, é referido na nota. O DECIR entra a partir de hoje em vigor no nível de empenhamento reforçado (nível II), mantendo-se até 31 de maio.

O MAI adianta que o “empenhamento reforçado implica, de imediato, o incremento dos meios disponibilizados por parte das forças e serviços que integram o Dispositivo, sendo compostos por 6.290 operacionais, organizados em 1.473 equipas, e 1.441 viaturas”.

O dispositivo integra também 72 postos de vigia, que asseguram a capacidade de vigilância e detecção de fogos florestais.

Estes recursos são provenientes dos Corpos de Bombeiros, da Força Especial de Bombeiros da Autoridade Nacional da Proteção Civil, do Serviço de Proteção da Natureza e do Ambiente da GNR, do Grupo de Intervenção de Proteção e Socorro da GNR, da PSP, dos Sapadores Florestais e do Corpo Nacional de Agentes Florestais do Instituto da Conservação da Natureza e Florestas.

Este ano, as fases de combate a incêndios foram substituídas por níveis de prontidão, passando o dispositivo a estar permanente ao longo do ano e reforçado entre 15 de maio e 31 de outubro.

De acordo com a Directiva Operacional Nacional (DON), o maior reforço de meios está previsto para os meses de junho e outubro, mas continua a ser entre julho e setembro, conhecida pela fase mais crítica de incêndios, o período que mobiliza o maior número de dispositivos.

Só Leiria apresentou plano de operações distrital dentro do prazo

A diretiva que define o Dispositivo Especial de Combate aos Incêndios Rurais indica que os planos operacionais distritais deveriam ser publicamente apresentados até esta segunda-feira, o que aconteceu apenas em Leiria, não havendo uma data anunciada na maioria dos distritos.

Contudo, em Beja, o plano de operações distrital foi apresentado na terça-feira, no edifício do antigo Governo Civil, e na Guarda prevê-se a apresentação ainda esta semana.

Já o de Évora vai ser conhecido no dia 23, sendo “muito idêntico ao do ano passado, sem grandes variações de meios”, disse o Comandante Distrital de Operações de Socorro, José Ribeiro.

Segundo a Diretiva Operacional Nacional, que estabelece o dispositivo de combate deste ano, “até 14 de maio deve realizar-se em cada distrito uma sessão pública de apresentação do plano operacional distrital”, da responsabilidade do respetivo comandante, e “nestas sessões serão convidadas todas as entidades que concorrem para a defesa da floresta contra incêndios e os órgãos de comunicação social”.

Em Leiria, a apresentação oficial do dispositivo previsto para este ano decorreu no passado dia 11, tendo o comandante distrital, Carlos Guerra, anunciado que haverá videovigilância, mais elementos e mais um meio aéreo.

De acordo com as fontes da Proteção Civil contactadas pela Lusa nos diferentes comandos, para a semana deve ser conhecido o dispositivo do distrito de Castelo Branco e o de Viseu será apresentado em breve.

O Plano Operacional de Portalegre vai ser divulgado no final deste mês, numa data ainda por definir, referiu o comandante Rui Conchinha, acrescentando que este ano haverá menos recursos humanos, devido à “instabilidade de alguns corpos de bombeiros” que estão “mais enfraquecidos”.

Rui Conchinha escusou-se a avançar dados sobre os restantes meios, alegando que o plano aguarda “homologação” de entidades superiores. Já em Aveiro, segundo o comando distrital, quando o dispositivo for apresentado não será público.

No caso de Viana do Castelo, não ocorreu uma apresentação pública, mas a 10 de maio, após a primeira reunião de trabalho da nova Comissão Distrital de Proteção Civil, o presidente desta estrutura, Miguel Alves (autarca de Caminha), anunciou aos jornalistas “um reforço de operacionais vindos de Lisboa” para dar resposta ao reduzido número de efetivos e adiantou que “a região vai passar de cinco para 12 equipas de intervenção permanente”.

Também em Bragança, Vila Real, Faro, Santarém, Lisboa, Coimbra, Porto, Setúbal e Braga não foram divulgadas datas para apresentação dos planos distritais.

ZAP // Lusa

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5 COMENTÁRIOS

  1. Em relação aos incêndios, com tanta coisa ainda por fazer, esperemos que não arda muito mais do que diz o artigo. O ano de 2017 foi uma garnde desgraça por falta de preparação de combarte a incêndios e agora, dos 32 equipamentos que existem em Portugal, apenas 12 estão preparados. É no mínimo, muito preocupante. Estamos em meados de Maio, o calor começa a apertar e o ano passado os grandes incêndios começaram em Junho… Que Deus nos proteja, porque dos nossos governantes pouco podemos esperar.

  2. Infelizmente continua a apostar-se no “cavalo errado”! Ou seja, deixar de lado o aspecto que poderia ser o mais importante na diminuição radical das áreas ardidas: a detecção precoce de incêndios, com uma forte componente de meios tecnológicos. Assim os incêndios seriam detectados muito no início e a sua extinção seria feita com um mínimo de meios. Se a isto pudéssemos juntar um corpo de bombeiros devidamente formado e treinado… os incêndios não seriam nenhum problema!! Não temos nem uma coisa, nem outra, e não sei se os modelos matemáticos serão capazes de prever o potencial de incêndios para temperaturas altas, detecção tardia, lentidão de resposta, falta de meios aéreos, falta de formação e treino dos bombeiros. O nosso país é relativamente pequeno e como uma geografia e orografia particularmente adequada a um conjunto de câmaras e outros sistemas avançados de detecção, com custos que seriam uma fracção dos actuais.

  3. Sim. Já ardeu quase tudo. Quando estiver tudo ardido já nem vai haver incêndios. Mas na minha terra ainda há muito pinhal e eucaliptos. Em 2017 não ardeu nada. E também lá há pessoas e, certamente, descuidadas. Os incendiários devem estar a guardar para este ano.

  4. Claro que no fim de meio país queimado e sobretudo nas áreas mais flor-estadas não parece haver tal possibilidade no entanto a prevenção e vigilância não me parece que uma vez mais serão levadas muito em conta como habitualmente.

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