Perdeu a família e foi violada. Quase duas décadas depois, recebeu a maior indemnização de sempre na Índia

Na primavera de 2002, uma jovem de 19 anos, grávida de cinco meses, foi violada por 11 homens que lhe mataram a família. Teve que fingir-se de morta para escapar. Agora, 17 anos depois, o caso foi resolvido na justiça e Bilkis Bano é a vítima de violação que recebeu a indemnização mais alta de sempre na Índia.

“Mataram a minha família, mataram a minha filha. Nem tivemos oportunidade de cuidar dos mortos e de lhes dar um enterro em condições. Como é que eu posso esquecer isto?”. A pergunta da mulher, que hoje tem com 36 anos, continua sem resposta, noticiou a Sábado na quarta-feira.

Bilkis Bano sabe agora que os 11 homens que a destruíram foram condenados pelos crimes de violação e homicídio. De acordo com a Al-Jazeera, o Supremo Tribunal do estado indiano de Gujarat, no oeste do país, ordenou esta semana o pagamento de uma indemnização de 71 mil dólares (cerca de 65 mil euros) a Bilkis Bano. Foram-lhe ainda oferecidos um emprego e uma casa à sua escolha.

“Estou muito contente com o julgamento. Muitos amigos, ativistas e outros ajudaram-me a conseguir fazer justiça”, disse a mulher, depois de conhecer o desfecho do caso que durou quase duas décadas.

Grávida de cinco messes e com uma filha de três anos pela mão, Bilkis Bano tinha ido visitar os pais a Randhikpur, a vila rural onde crescera no estado de Gujarat. Nessa mesma vila, tinham explodido os confrontos entre as comunidades muçulmanas e hindus.

Em casa dos seus pais, ouviu um aviso aflito. “Tínhamos de fugir imediatamente”, explicou numa entrevista dada em 2017 à BBC. “Fugimos apenas com as roupas que trazíamos vestidas e nem tivemos tempo para nos calçar”.

A andar durante dois dias, 13 pessoas procuravam fazer o caminho em segurança. Até ao momento em que dois carros brancos se aproximaram. “Aqueles são muçulmanos, matem-nos, magoem-nos”, ouviu-se.

Dos carros saíram homens com espadas em punho. Mataram quase toda a família da jovem, à exceção de dois rapazes com sete e quatro anos. Depois de lhe matar a família, o homem deu mais uma ordem: “violem-na”. E todos aqueles que o acompanhavam cumpriram. Bilkis Bano apenas sobreviveu por ter-se fingido de morta.

“No dia seguinte estava cheia de sede. Caminhei até à vila mais próxima onde encontrei a polícia. Os populares, ao início, desconfiaram de mim. Saíram de casa armados com paus, mas depois ajudaram-me. Deram-me roupas e lenços para me cobrir”, lembrou.

Na altura, foi levada para um campo de desalojados na sequência dos confrontos e, desde então, sempre lutou por justiça. Em 2017, os 11 homens foram condenados a prisão perpétua, condenação confirmada agora pelo Supremo. A esta condenação, acresce a indemnização a Bilkis Bano.

TP, ZAP //

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3 COMENTÁRIOS

  1. Teve sorte, apesar de tudo.
    Se fosse em Portugal o juiz Moura tinha-a repreendido por ter-se feito de morta… e os 11 violadores tinham ficado com pena suspensa.

  2. Convido vivamente quem escreve estas peças a rever o seu português e a formal verbal correta.

    “Dos carros “sairão” homens com espadas em punho”

    Sairão é o futuro do verbo sair. A frase está no passado, por isso a forma correta é “saíram”
    Erro muito comum, mas que não o deve ser entre jornalistas ou quem escreve para o público em geral~.

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