Os EUA não são todo-poderosos. Gaza é a prova viva

U.S. Government/Raw Pixel

Presidente dos EUA, Joe Biden, ao telefone com o primeiro-ministro israelita, Benjamin Netanyahu

EUA são o suposto “mandachuva” no namoro com Israel, mas não têm saído beneficiados da relação. Falta de “alavanca” cria ecos no Congresso e a ferida está cada vez mais aberta, com as eleições presidenciais à vista.

A longa aliança entre os EUA e Israel tem sido marcada, desde sempre, por um claro desequilíbrio de poder: os EUA são vistos como o parceiro dominante devido à sua superioridade económica e militar, bem como graças ao seu papel como maior fornecedor de ajuda militar a Israel — são enviados cerca de 3,5 mil milhões de euros todos os anos pelos EUA em apoio ao país liderado pelo primeiro-ministro Benjamin Netanyahu.

A duradoura parceria tem permitido aos EUA assumir o papel principal como defensor de Israel em plataformas internacionais, nomeadamente no Conselho de Segurança da ONU, onde frequentemente usa o seu poder de veto para proteger Israel de resoluções críticas.

No entanto, os norte-americanos não parecem estar a espremer sumo quase nenhum da relação.

A administração de Joe Biden tem expressado enorme frustração relativamente à abordagem do governo de Netanyahu à guerra em Gaza, vista por muitos como genocídio disfarçado de tentativa de erradicação do grupo islamita Hamas, cujo ataque surpresa desencadeou a agressão de Israel.

Nas últimas semanas, de acordo com a NBC, o presidente dos EUA ter-se-á mesmo referido ao primeiro-ministro israelita como um “idiotacuja administração da guerra tem sido “exagerada”. Apesar da influência, os EUA não conseguem moldar as ações de Israel como desejam.

E a falta de mão firme já se faz notar no Congresso dos EUA, onde os apelos ao condicionamento da ajuda norte-americana a Israel têm aumentado.

“Quando os EUA se levantam e dizem algo publicamente, isso importa”, disse, citado pela imprensa do governo dos EUA, o porta-voz do Departamento de Estado, Matthew Miller, quando questionado sobre o porquê de os EUA não usarem a sua alavanca em vez de simplesmente “abanarem o dedo”.

“Vimos o governo de Israel responder a isso — nem sempre da maneira que queremos ou no grau ou nível que queremos”, disse Miller, antes de sublinhar: “Mas acreditamos que as nossas intervenções tiveram um impacto.”

Às vezes as pessoas fingem que os EUA têm uma varinha mágica que podem acenar para fazer qualquer situação no mundo desenrolar-se exatamente da maneira que queríamos que acontecesse, e isso nunca é o caso”, disse o porta-voz do Departamento de Estado.

Mas se milhares de milhões de dólares em ajuda militar não são uma varinha mágica, então o que é?

A verdade é que, apesar dos vários alertas públicos de oficiais dos EUA sobre a crise humanitária em Gaza, nomeadamente sobre o aumento das mortes civis, Israel não mudou de estratégia e Biden, que usa o argumento do aumento da ajuda a seu favor, não “puxa a alavanca”.

Quem mais sofre com a incapacidade — ou indisposição — dos EUA é Gaza, mas a política externa dos EUA também fica ferida.

A abordagem de Biden, que promove a cordialidade pública e a discussão de desacordos em privado com Israel, tem levado a uma queda da influência dos EUA, admite a própria administração do presidente democrata.

“Seria horrível para a credibilidade e liderança dos EUA se falhássemos no apoio
à Ucrânia”, disse à revista TIME o vice-presidente Executivo do Centro de Política Internacional (CIP). Matt Duss, referindo-se ao bloqueio, por parte dos republicanos, dos pacotes de ajuda ao país invadido à dois anos pela Rússia.

“O mesmo aplica-se aqui [em Gaza]. A nossa incapacidade de exercer qualquer influência significativa sobre Israel — um estado que é extremamente dependente do apoio dos EUA — também é extremamente prejudicial“, acredita.

A ferida dos EUA, cada vez mais aberta, também deve ficar mais exposta à medida que se aproximam as eleições presidenciais.

Apesar dos recentes esforços da administração do atual presidente para “cicatrizar” — como uma recente ordem executiva destinada a punir o aumento da violência dos colonos israelitas contra palestinianos na Cisjordânia ocupada — os especialistas questionam-se: será que Gaza vai sentir esses esforços a curto prazo?

Tomás Guimarães, ZAP //

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