Os carros a hidrogénio já eram — antes de o serem

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Os carros movidos a hidrogénio têm os seus dias contados e estão muito longe do sucesso dos veículos movidos a eletricidade.

Os carros com célula de combustível de hidrogénio surgiram como uma alternativa aos veículos elétricos e com motor de combustão no início dos anos 2000. Foram amplamente considerados um caminho para o automobilismo verde universal. Alimentados por uma reação química entre hidrogénio e oxigénio, a única emissão que produzem é água.

A tecnologia também prometia uma experiência de condução tradicional. Os condutores podem reabastecer nas estações de serviço e a autonomia de um carro a hidrogénio é comparável à de um veículo com motor de combustão.

A tecnologia de veículos a hidrogénio também ofereceu às empresas petrolíferas a oportunidade de mudar as suas operações para a produção e transporte de hidrogénio e reabastecimento de hidrogénio nas estações existentes.

Atualmente, em Portugal, existe apenas uma estação de serviço de hidrogénio aberta ao público, em Cascais. O governo português quer que entre 50 e 100 estações de reabastecimento de hidrogénio estejam operacionais até 2030, de acordo com a Estratégia Nacional de Hidrogénio (EN-H2), aprovada em julho de 2020.

Mas os carros movidos a hidrogénio praticamente desapareceram.

Por exemplo, a Toyota e a Hyundai, as únicas fabricantes de veículos a produzir carros a hidrogénio para o mercado do Reino Unido venderam apenas 12 carros movidos a hidrogénio no país em 2021. No início deste ano, a Shell fechou todos os seus postos de abastecimento de hidrogénio no Reino Unido.

Em Portugal, os únicos carros a hidrogénio disponíveis são precisamente o Toyota Mirai e o Hyundai Nexo. No verão do ano passado, quando o Mirai chegou ao mercado português, não tinha sequer onde abastecer, escreveu o Jornal de Notícias.

Segundo os dados da JATO Dynamics, as vendas globais deste tipo de veículos fixaram-se nas 15.500 unidades em 2021. Este valor representa um crescimento de 84% face aos números registados em 2020, mas continua a ser muito baixo.

O Hyundai Nexo vendeu 9.208 unidades em 2021. Curiosamente, 92% dessas unidades foram registadas na Coreia do Sul, escreve a Razão Automóvel.

Enquanto isso, os veículos elétricos, apesar de não oferecerem o alcance ou o reabastecimento rápido de um carro a hidrogénio, aumentaram em popularidade.

Hidrogénio vs. eletricidade

Os tipos de veículos não estão a competir uns com os outros. Em vez disso, trata-se de uma competição entre sistemas tecnológicos nacionais. E onde este é o caso, o produto tecnicamente superior raramente triunfa.

O gravador Betamax não conseguiu assumir o controlo do mercado de cassetes de vídeo na década de 1980, apesar de ser tecnicamente superior aos seus concorrentes.

O sistema doméstico de vídeo de qualidade inferior (VHS) foi capaz de obter uma participação dominante no mercado devido à sua melhor infraestrutura de cadeia de fornecimento.

Os veículos movidos a hidrogénio e elétricos também dependem de sistemas tecnológicos mais amplos. Uma é baseada na geração de eletricidade e a outra no fornecimento de hidrogénio.

Os veículos elétricos têm a vantagem de poder depender de um sistema existente de geração e distribuição de energia – a rede elétrica. Um veículo elétrico pode ser recarregado onde quer que haja acesso a uma tomada.

O fabricante de veículos elétricos Tesla capitalizou isso. Já com uma base de clientes, a Tesla conseguiu construir os seus veículos e recarregar a infraestrutura simultaneamente. Produziram mais de 900.000 novos veículos em 2021 e instalaram uma rede global de carregamento rápido de 35.000 postos de carregamento para apoiá-los.

A infraestrutura existente para suportar veículos movidos a hidrogénio é limitada em comparação e exigirá um grande investimento para ser introduzida. Estima-se que a infraestrutura de gasodutos necessária apenas para um sistema europeu de distribuição de hidrogénio custe entre 80 e 143 mil milhões de euros.

Como o hidrogénio precisa de ser pressurizado e transportado como gás ou líquido, as cadeias de fornecimento também devem ser redesenhadas. O custo de desenvolver estações de reabastecimento de hidrogénio e aumentar a produção também será alto. Atualmente, a produção de hidrogénio representa apenas 3% da procura global de energia.

Mas, de momento, governos e empresas não estão dispostos a fazer os investimentos necessários. Há pouco sentido económico em construir a infraestrutura se a rede de carros for pequena demais para usá-la. No entanto, ao mesmo tempo, a demanda por carros movidos a hidrogénio permanecerá baixa até que sejam apoiados por uma infraestrutura compatível.

  ZAP // The Conversation

26 Comments

  1. Não será a primeira vez na historia em que as soluções melhores sejam impossibilitadas, por motivo de ‘negócio’.
    Sem pontos de abastecimento a gasolina também não teria sido um sucesso.
    Talvez quem investiu em minas e terrenos de lítio tem uma mãozinha nisso e a Shell não deve ter alcance ao fabríco de hidrogénio. É outra league.
    Vamos ver se a razão vence. Duvido

  2. O hidrogénio vai ser o futuro, ponto! Talvez o futuro não passe por células de combustível mas sim hidrogénio para uso direto, ou água… Oxigénio para a atmosfera e o hidrogénio para o funcionamento do motor, basicamente o contrário da célula de combustível, mas abastecido na torneira lá de casa!!!

  3. Basta saber o elemento químico mais abundante no universo (mais barato de extrair e existente em todo lado, ao contrário dos componentes que são usados nas baterias….) para saber o que vai dominar e substituir os tradicionais hidrocarbonetos.

  4. A única razão porque não se vendem veículos a hidrogénio, nada tem a ver com as tecnologias em si mesmo, mas apenas e exclusivamente com a falta duma rede de abastecimento adequada. A tecnologia “hidrogénio” é claramente superior à “eléctrica”, mas este aspecto pouco pesa na decisão de compra dum veículo quando não existe oferta de marcas e modelos, nem rede de abastecimento.
    A decisão do governo de “obrigar” a uma rede de abastecimento de hidrogénio e sentar-se à espera que a rede apareça magicamente pelas “forças do mercado” só revela ingenuidade e incompetência.

  5. O futuro é o hidrogénio. E a questão não é hidrogénio vs elétrico. São todos elétricos. A questão é hidrogénio vs bateria (lítio ou outra qq). Se não existirem fortes avanços nas baterias o futuro estará no hidrogénio. Nos grandes equipamentos é mesmo incontornável. Nos automóveis penso que será igual.

  6. Ponham as centrais elétricas que trabalham a gás a trabalhar com hidrogênio….o resto vem depois dos magnatas verificarem que também podem lucrar
    com o sistema.

  7. O falhanço do Hidrogénio para os veículos ligeiros não está apenas relacionado com a infraestrutura (não) existente. As leis da física também são muito claras: para produzir Hidrogénio é necessária electricidade (a outra alternativa é usar gás, mas aí estamos a voltar aos combustíveis fósseis). De toda a electricidade gasta na produção de hidrogénio e na reconversão para electricidade, apenas cerca de 30% dessa energia chega às rodas. Carregando directamente uma bateria de iões de lítio, chega pelo menos 80% dessa mesma energia às rodas.
    Em suma, é necessária mais do dobro da electricidade para mover um veículo a hidrogénio do que com uma bateria convencional (que os carros a hidrogénio também têm, mas de menor dimensão).

    Depois temos também toda a questão dos metais raros necessários para a construção da célula de hidrogénio (muitos mais do que os necessários numa bateria convencional), toda a cadeia de distribuição (aí voltamos a ter o loby das petrolíferas), a segurança…

    Em suma, o hidrogénio não faz (e provavelmente nunca fará) sentido para veículos ligeiros. Poderá sim fazer sentido para soluções mais exigentes como o transporte de mercadorias de longo curso, navios e eventualmente aviões, dada a capacidade de armazenamento de uma maior quantidade de energia num espaço mais reduzido.

    Pessoalmente há muitos anos que oiço falar no hidrogénio. Desde 2015 que todos os carros que comprei têm sido eléctricos (na empresa já vou no 5º) e só posso dizer que as baterias têm sofrido uma evolução extraordinária. Ainda recentemente fui e voltei de Lisboa ao Porto no mesmo dia de VW ID.4, quase 800Kms seguidos, no mesmo tempo que teria demorado no meu diesel anterior. As paragens habituais para uma refeição rápida e idas ao WC foram suficientes para fazer os dois carregamentos ultrarápidos necessários. No dia-a-dia em cidade é ligar à tomada uma ou duas vezes por semana e já está, com a vantagem de no Verão o excedente dos painéis solares em casa ser suficiente para carregar o carro e andar “de borla”. Não me imagino com uma central de produção de hidrogénio em casa…

    • O potencial “buffet” é o que torna apetecível e marca a diferença no hidrogenio. Podermos armazenar toda a electricidade produzida que é desperdiçada é uma ideia que agrada bastante. Acho que é algo que ainda está a crescer, muito por conta da necessidade cada vez mais crescente de electricidade.

    • Está a ver curto. Olhe mais para o futuro e vai perceber que a sua última frase pode não fazer sentido. Acredito verdadeiramente que no futuro todos poderemos produzir hidrogénio verde em casa. Quem tem painéis solares sabe que injeta entre 40% e 60% do que produz na rede. Essa produção não consumida será no futuro materializada em hidrogénio.

      • Talvez num futuro longínquo. Mas para já, com os custos e meios que temos para produção de hidrogénio verde, não é viável. E teremos sempre a questão da segurança de manter hidrogénio armazenado a uma pressão enorme. Eu nem gás canalizado quero em casa, quanto mais botijas com hidrogénio pressurizado!
        Conforme o João Pinho também refere, o hidrogénio pode ser interessante para armazenar o excedente de produção de electricidade de fontes renováveis, mas será sempre a uma escala bem superior à doméstica.
        Eu não desperdiço energia solar porque tento aproveitar sempre para os carros e ainda tenho uma bateria em casa. E, nas raras vezes em que as baterias já estão cheias e tenho mesmo excedente, injecto na rede (de borla) em hora de ponta, pelo que dificilmente será desperdiçada.

    • “no Verão o excedente dos painéis solares em casa ser suficiente para carregar o carro e andar “de borla”.”
      Vai amortizar o gasto nos painéis e equipamento.

  8. O futuro da energia é o hidrogênio!
    É a matéria mais abundante no universo, e portanto inesgotável.
    Os investimentos no hidrogênio verde são cada vez maiores.
    A tecnologia só está a maturar.
    Ainda não existe hidrogênio suficiente para abastecer milhares de viaturas, e portanto poucos vendidos e poucas bombas, como é óbvio.
    Portanto, esta publicação não corresponde à verdade.
    Parece-me que cada vez mais à “clubismo” quanto ao elétrico vs hidrogênio, e não percebo bem o que se ganha com isto!
    Não querem um carro que se abastece em 3 minutos e percorre 2000km ou mais, e barato?

  9. Não há cá eléctricos vs hidrogênio! São ambos eléctricos, com a grande diferença que a bateria nos carros a hidrogênio é substancialmente menor e por conseguinte fica mais barato e torna-se muito menos poluente na concepção e reciclagem. Se as pessoas tivessem uma pequena noção da poluição originada por uma só bateria, deixariam de comprar 100% eléctricos! Mas ninguém sabe, ninguém vê! A mineração do lítio é tudo feito as escondidas, é altamente poluente! Não sei como ainda não vimos nenhuma reportagem na TV sobre este assunto! O futuro é e sempre será o hidrogênio a gerar electricidade para uma pequena bateria que por conseguinte alimentará o motor eléctrico.

    • O hidrogênio servirá para produção de energia e para servir como bateria de reserva, Já a electricidade tem a vantagem de a infraestrutura chegar a todo lado, esse é o motivo para o sucesso do veículo elétrico.

  10. A solução melhor? Deixa-me rir. É um desperdício de energia do início ao fim.
    O hidrogênio vai ser o futuro pois governos e as empresas querem. Passar o lobby do petróleo para o hidrogenio. E as empresas nem mudam são as mesmas, no petróleo e no hidrogenio.
    Mas na realidade benefícios, poucos ou nenhuns.
    https://youtu.be/U3wlEcZHVzc

    Quanto a bateria serem altamente poluentes, é para rir também. Baterias de lítio usadas são negócio e valem sempre dinheiro. Quase 90% dos componentes são reutilizáveis. É pesquisar sobre Redwood Materials que já vende cobre e outros componentes retirados de baterias.

  11. Os carros movidos eletricamente com recurso a baterias de lítio foram colocados no mercado pelos mesmos magantasydos combustíveis fósseis. Tudo por causa dos grandes lobbies dinheiristas. O hidrogénio não dá tanto lucro, porque é altamente abundante e portanto não se consegue justificar a enchente de “impostos” e valor, além de toda a receita que geram.. tudo como sempre pelo dinheiro.
    Estamos á mercê destes globalistas.

  12. Tal como a história do Betamax, também a razão da inferioridade do hidrogénio relativamente às baterias é aqui mal explicada. Em perspectiva, o Betamax não era superior ao VHS, pelo contrário. Esta confusão é derivada da Sony ter dois sistemas. Beta para TV e profissionais, e Betamax, para casa. O Beta era superior, mas muito mais caro. Muiiiito mais caro. Daí terem feito o Betamax. Mas o Betamax nunca teve hipoetes assim que saiu o VHS. Este tinha uma qualidade igual ao Betamax mas com cassetes muito maiores. O Betamax na qualidade BI, o equivalente ao SP do VHS, tinha no máximo 90m enquanto o VHS tinha 3 horas! Para caber um filme inteiro, tinha de ser colocar em BII ou BIII que era muito inferior ao VHS SP.

    Quanto baterias vs hidrogénio (ambos são a electricidade, começa logo mal o artigo), a razão pelo qual o hidrogénio ainda não vingou não é aqui explicada. São duas. As células de combustível de hidrogénio necessitam de mais metais raros que as baterias. Além disso, todo o processo de produção e uso do hidrogénio é muito menos eficiente que o das baterias. 45% vs 90%. Logo mais caro. O futuro dirá se existe poderá mudar.

    • Se não houver investigação à volta do hidrogénio é que nunca vai evoluir para mais eficiente e mais barato. Nos últimos anos há cada vez mais artigos com novos métodos mais eficientes de hidrólise e até de transporte químico do hidrogénio, pode ser que se torne mais viável.

  13. Então não falam dos novos métodos de transporte do Hidrogênio com ligação química a outros compostos? LOHC por exemplo, Powerpaste, e devem existir outros que não precisam de baixas temperaturas nem alta pressão.

  14. Mais de 83 mil milhões de euros para construir “gasodutos” para criar rede de distribuição? Quais gasodutos? O hidrogénio será fornecido na forma líquida tal como o hélio o é aos hpspitais. Aqui não há “jazidas” de hidrogénio al ser exploradas no norte de África como acontece com o gás natural. Se os Portugueses e outros países do sul se impusessem e “mandassem” fazer prospecção de lítio nos países produtores de veículos eléctricos com os inerentes problemas de poluição pela utilização de metais pesados na separação do lítio, rápidamente os eléctricos a hidrogénio seriam dominantes no mercado. Todos os actuais postos poderão abastecer a hidrogénio. Da mesma forma que há muito o fazem com os GPL.

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