Neurocirurgião passou a ver em três dimensões depois de assistir a um filme em 3D

foshydog / Flickr

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Os bons filmes muitas vezes mudam a visão que as pessoas têm do mundo, mas um deles alterou literalmente a capacidade de um espectador de ver a realidade.

O americano Bruce Bridgeman divide a sua vida em duas partes: antes e depois de ver o filme “A Invenção de Hugo”, de Martin Scorsese, em 3D.

No dia 16 de fevereiro de 2012, Bridgeman foi ao cinema com a sua mulher para ver a obra em três dimensões. O neurocirurgião da Universidade da Califórnia, de 67 anos, nascera com uma condição conhecida como “stereoblind” (ou cegueira estéreo), que faz com que ele não consiga enxergar profundidades.

“Quando saía com os meus amigos e eles apontavam para um pássaro na árvore, a conversa entretanto terminava e eu ainda estava a olhar para cima à procura do pássaro”, conta Bridgeman. “Para toda a gente, o pássaro destacava-se no primeiro plano. Para mim, ele nem sequer aparecia na paisagem”.

Tudo mudou quando as luzes do cinema se apagaram e o filme começou. De repente, os personagens começaram a “voar da tela”, numa experiência inédita para o neurocirurgião. “Era literalmente o surgimento de uma nova dimensão de visão”, lembra.

O curioso é que a sensação não durou apenas o tempo do filme. Ao sair, Bridgeman conseguia ver os candeeiros na rua a formar um caminho ao fundo. De repente, começou a perceber a profundidade em vários lugares – e essa sensação dura até hoje.

A ciência convencional diria que o que aconteceu com Bruce Bridgeman é impossível. A pergunta que intriga os investigadores é: o que mudou de forma permanente na visão do americano?

Imagens alteradas

Durante séculos, diferentes estudiosos, como Leonardo Da Vinci, tentaram perceber como funciona a percepção de profundidade.

Uma teoria mais definitiva surgiu apenas em 1830, quando Charles Wheatstone conseguiu explicar como duas imagens levemente diferentes – uma formada por cada olho – criam a sensação de profundidade no nosso cérebro. Wheatstone conseguiu reproduzir essa sensação com um aparelho chamado estereoscópio.

Só recentemente é que essas teorias foram melhor compreendidas, quando foram estudados os neurónios que estão por trás da visão estéreo. Os neurocientistas descobriram células no córtex visual – a parte do cérebro que processa a visão – cuja função é responder às diferenças de posição das imagens produzidas por cada olho. Essas células, chamadas de neurónios binoculares, são as que processam a nossa visão em três dimensões.

Um estudo de David Hubel e Torsten Wiesel dos anos 1960, que ganhou o prémio Nobel de Medicina, revelou que existe uma pequena “janela” durante a infância para se desenvolver neurónios binoculares. Depois de esta janela se fechar, a pessoa estará para sempre confinada a um mundo de duas dimensões – sem profundidade.

Problema profundo

A condição de Bridgeman é diferente, mas produz o mesmo resultado: a chamada de exotropia, um tipo de estrabismo em que ambos os olhos têm a tendência de vagar para o lado de fora. Por causa disso, ele nunca consegue focar ambos os olhos num ponto.

O neurocirurgião adaptou-se à vida usando uma série de truques que compensam a falta de visão estéreo. Um deles é observar as cores de sombras. Numa floresta, por exemplo, as folhas e os ramos que estão mais longe ficam encobertos pelos que estão em primeiro plano, cada vez que o observador move a cabeça.

O problema é que como muitas pessoas com cegueira estéreo nunca conheceram outro mundo, muitas delas só aperfeiçoam estas técnicas depois de adultas, quando descobrem que são diferentes dos demais.

“[A cegueira estéreo] não é incluída em nenhum teste-padrão de oftalmologia”, diz Laurie Wilcox, especialista em visão da Universidade de York, no Canadá. Nem mesmo os exames para a carta de condução levam isso em consideração.

Bridgeman passou a vida inteira a conduzir, apesar de saber que muitos dos seus familiares ainda têm medo de ir à boleia consigo.

Episódio de infância

Os cientistas acreditam que pessoas como Bruce Bridgeman tiveram alguma experiência breve durante a infância que levou os seus neurónios binoculares a desenvolver-se apenas minimamente. Depois dessa experiência, os neurónios nunca mais teriam sido ativados, e por isso esses indivíduos passaram a vida a ver apenas em duas dimensões.

De fato, Bridgeman diz que se lembra ter tido visão binocular em pelo menos um episódio da sua infância, quando construiu um brinquedo de papelão seguindo as instruções de uma caixa de cereais. Nessa brincadeira, ele lembra de ter visto algo diferente – a terceira dimensão, de profundidade.

Essa experiência – talvez única na sua vida – pode ter sido suficiente para “religar” a sua rede de sinapses após o filme e permitir o regresso da sua visão estéreo. É mais ou menos como instalar um programa no computador e demorar anos para usá-lo pela primeira vez.

Para especialistas como Wilcox, a boa notícia é que o cérebro humano pode ser muito mais maleável do que se imaginava.

Este ano, um estudo feito por Dennis Levi, professor da Universidade da Califórnia, analisou o caso de cinco adultos que cresceram com cegueira estéreo mas que aprenderam a ver em três dimensões depois de tratamentos.

Porém, nenhuma teve o “choque” que Bridgeman enfrentou no cinema. Levi diz que a tecnologia 3D simula – de forma não intencional – muitas das técnicas e truques que Bridgeman usou no seu tratamento para treinar o olho humano.

Passada a experiência, Bridgeman considera hoje que o dinheiro gasto nos óculos 3D do cinema não foi nenhum desperdício. Pelo contrário, saiu baratíssimo.

“Estou a adorar ver as mesmas coisas que os outros. Gosto de observar as florestas e as árvores. Uma árvore transforma-se numa escultura tridimensional, em vez de um simples padrão. Isso é um presente para mim.”

ZAP / BBC

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