“Não se aprendeu nada” com Pedrógão. Época de incêndios acaba com 65 mil hectares ardidos e morte de cinco bombeiros

Peter da Silva / EPA

A época mais crítica de incêndios florestais termina esta quarta-feira com cerca de 65 mil hectares de área ardida e a morte de cinco bombeiros e de um piloto de um avião de combate aos fogos.

Nos últimos três meses, o dispositivo de combate aos fogos esteve na sua capacidade máxima ao estarem no terreno 11.825 operacionais, 2.746 equipas, 2.654 veículos e 60 meios aéreos, no denominado “reforçado – nível IV”.

A época mais critica de incêndios fica marcada pela morte de cinco bombeiros das corporações de Oliveira de Frades (distrito de Viseu), Miranda do Corvo (Coimbra), Leiria, Proença-a-Nova (Castelo Branco) e Cuba (Beja) durante as operações de combate. Durante o combate a um incêndio no Parque Nacional da Peneda-Gerês morreu um piloto após a queda de um avião Canadair.

O ministro da Administração Interna, Eduardo Cabrita, pediu à Autoridade Nacional de Emergência e Proteção Civil (ANPEC) a abertura de um inquérito sobre as circunstâncias das mortes, não existindo ainda conclusões.

O risco de incêndio foi este ano elevado o que levou o Governo a decretar por vários dias em julho, agosto e setembro a situação de alerta especial para o Dispositivo Especial de Combate aos Incêndios Rurais (DECIR).

Apesar de não estar disponível o relatório com os dados atuais, os números provisórios divulgados na página da internet do Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF) dão conta de que se registaram este ano 8.980 incêndios florestais que provocaram cerca de 65 mil hectares de área ardida.

Comparando com o relatório de 30 de setembro de 2019, verifica-se que se registaram este ano menos 1.379 ocorrências de fogos rurais, mas a área ardida aumentou cerca de 58%.

 

Depois da considerada época mais crítica terminar esta quara-feira, os meios de combate vão ser reduzidos na quinta-feira ao passar estar em vigor o nível de empenho operacional denominado “reforçado de nível III”, de acordo com a Diretiva Operacional Nacional (DON), que estabelece o DECIR.

Durante a primeira quinzena de outubro vão estar no terreno até 9.804 elementos de 2.277 equipas e até 2.154 veículos dos vários agentes presentes no terreno e até 60 meios aéreos. A Rede Nacional de Postos de Vigia para prevenir e detetar incêndios vai continuar com os 230 postos de vigia até 15 de outubro. Na segunda quinzena de outubro, a DON prevê uma nova redução dos meios de combate a incêndios.

“Não se aprendeu” nada com Pedrógão Grande

O ex-comandante distrital de Leiria, Sérgio Gomes, disse esta terça-feira na Comissão de Inquérito na Assembleia da República que “não se aprendeu nada” com o incêndio de Pedrógão Grande, a 17 de junho de 2017.

Hoje estamos pior do que estávamos em 2017. Portugal não está melhor preparado e isso pode-se aferir pelo incêndio de Proença-a-Nova ainda há relativamente pouco tempo, onde arderam 17 mil hectares”, disse Sérgio Gomes, na comissão Eventual de Inquérito Parlamentar à atuação do Estado na atribuição de apoios na sequência dos incêndios de 2017 na zona do Pinhal Interior.

Abordando o incêndio naquele concelho do distrito de Castelo Branco, Sérgio Gomes constatou que, “muitas vezes, os fogos não se combatem”. “Defendem-se populações e quando estamos a defender uma população, não estamos a combater, estamos a desviar o fogo da povoação. Depois somos confrontados com áreas ardidas enormíssimas e não temos meios para parar esses incêndios”, sublinhou.

Chamado à comissão pelo grupo parlamentar do PCP, o ex-comandante afirmou que nada sabe sobre os apoios concedidos pelo Estado, mas acabou por responder a perguntas sobre o incêndio de Pedrógão Grande.

“Há uma resolução da Assembleia da República, a 51/2014, que fala naquilo que era necessário na floresta e, daquilo que podemos observar, neste momento, pouco ou nada foi feito até 2017″, começou por referir em resposta ao deputado do PCP João Dias.

Sérgio Gomes salientou que, “se este documento tivesse sido considerado, possivelmente ter-se-iam evitado muitas das vítimas e a catástrofe teria tido outra dimensão”, pois já abordava aquilo que hoje se conhece pelo programa “Aldeias Seguras, Pessoas Seguras”.

“Por que é que houve as 64 mortes [Pedrógão Grande]? Porque muitas das pessoas saíram das suas casas. Esse tal programa foi das poucas coisas boas que se fizeram nestes três anos, pois explicou-se às pessoas o que podem fazer em situação de catástrofe. Ter-se-ia evitado as mortes de muitas pessoas se tivessem ficado em casa e isso já estava vertido no documento de 2014″, insistiu.

O ex-comandante considerou que, desde 2017, no que se refere ao combate de incêndios florestais, “o que se fez é muito redutor”.

Não aprendemos com os erros. Não evoluímos na questão do combate. Aqueles que são os maiores atores no combate aos incêndios florestais, que são os bombeiros voluntários, são uma não aposta. Cada vez mais se vai apoiando menos, o que faz com que abandonem os quartéis”, perdendo-se “gente com experiência”.

Sérgio Gomes defendeu ainda que se criem comissões, “não apenas quando há mortes”, mas que sejam usadas “para as evitar”. Por exemplo, “seria importante perceber o que se passou no incêndio de Proença”.

O ex-comandante defendeu uma aposta na gestão da floresta e na elaboração de cartografia de risco, assim como no cadastro florestal.

O incêndio, que deflagrou em 17 de junho de 2017, em Escalos Fundeiros, no concelho de Pedrógão Grande, distrito de Leiria, e que alastrou depois a concelhos vizinhos, provocou 66 mortos e 253 feridos, sete deles com gravidade, tendo destruído cerca de 500 casas, 261 das quais habitações permanentes, e 50 empresas.

  ZAP // Lusa

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5 COMENTÁRIOS

  1. Este Sérgio Gomes não é aquele que era comandante distrital de Leiria e que tinha ido com o filho para o Hospital precisamente quando Pedrógão ardia??
    Foi pena não terem referido isso na notícia!
    .
    Ele era o responsável máximo, estava fora no maior incêndio do país, foi acusado pelo MP e agora ainda manda “bitaites”??
    Está boa!…

  2. Não podemos responsabilizar um comandante dos bombeiros perante um fogo com as dimensões do de Pedrogão! A gestão das florestas não é da sua competência. É do governo central e das autarquias a maior responsabilidade. Não há uma gestão adequada dos recursos florestais. Deixa-se plantar eucaliptos onde as pessoas entenderem para alimentarem as celuloses, que outros países europeus rejeitaram. Criou-se a maior mancha verde de resinosas da Europa para este fim e, agora, não conseguimos dominar a fera. Se passearmos na zona de Pedrogão já poucos sinais do terrível incêndio se distinguem porque os eucaliptos estão todos rebentados e prontos para o próximo incêndio que, se tudo continuar assim, não levará muito tempo a a acontecer. Não é culpa dos bombeiros!!

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