Já não merecemos o nome Homo sapiens. Deveria ser “Homo absurdus”

Homo sapiens significa humano sábio, mas já não merecemos esse nome. De acordo com Lonnie Aarssen, biólogo evolucionista, deveríamos chamar-nos Homo absurdus, um humano que passa a sua vida a tentar convencer-se de que a sua existência não é absurda.

O investigador cita o filósofo francês Albert Camus: “O homem é a única criatura que se recusa a ser o que é.” A conjuntura crítica na linhagem em direção ao Homo absurdus foi descrita pelo evolucionista Theodosius Dobzhansky: “Um ser que sabe que morrerá surgiu de ancestrais que não conheciam.”

Mas a evolução em algum momento também incorporou a essa mente humana um sentimento profundamente arraigado— que não se tem apenas uma vida material (o corpo físico), mas também uma vida mental distinta e separada (o eu interior).

A autoconsciência humana levou à evolução das habilidades cognitivas, transformadoras para o sucesso da transmissão genética. Os nossos ancestrais tinham a vantagem sobre todos os outros hominídeos. Mas a desvantagem era a ansiedade de auto-impermanência – um medo recorrente de que, com a eventual morte material, o tempo aniquila tudo o que se fez.

No entanto, a seleção natural também deu aos nossos ancestrais impulsos primitivos que serviram para amortecer a preocupação da auto-impermanência. Estes envolvem dois impulsos fundamentais novos e exclusivamente humanos: a fuga do eu e a extensão do eu. Ambos se refletem numa passagem do autor russo Leon Tolstoi: “Para o homem poder viver, não deve ver o infinito ou ter uma explicação do sentido da vida que conecte o finito ao infinito”.

A extensão do eu envolve o legado – o desejo de deixar algo apreciável que irá perdurar além da existência mortal.

Para os menos motivados em produzir um legado, há uma fuga de si mesmo, conseguida através de distrações e lazer. Tipicamente, envolvem motivações que invadem os módulos de prazer do cérebro e têm profundas raízes evolutivas associadas ao atendimento de necessidades básicas que recompensam o sucesso da transmissão de genes ancestrais.

A consequência essencial das distrações está em prender a mente firmemente no presente imediato, temporariamente protegendo-a do pavor do “infinito”. Para alguns, colocar a mente no presente pode ser conseguido mantendo-se ocupado com trabalho intencional ou rotina mundana.

As ilusões do legado e as distrações de lazer ajudam a mitigar a preocupação da auto-impermanência. A forte seleção das unidades impulsionou cópias dos genes dos nossos ancestrais para as futuras gerações. Mas a ansiedade sempre se escondeu sob a superfície, repetidamente exigindo mais e melhores ilusões e distrações.

Esses impulsos alimentaram a marcha frenética e implacável do progresso que chamamos de civilização. Isso deu-nos um mundo de catástrofes ambientais que estão a aniquilar outras espécies e os seus habitats a um ritmo sem precedentes.

A seleção genética sustentada para campanhas de legado e de lazer gerou duas consequências terríveis para a humanidade: uma civilização que se move cada vez mais rápido em direção ao colapso em escala global e uma psicologia evoluída que está a criar uma escalada do desespero humano – ansiedade, depressão e suicídio.

As demandas crescentes dos impulsos estão a começar a exceder a taxa de oferta dos domínios disponíveis para satisfazê-los. Torna-se cada vez mais difícil atender a uma necessidade cada vez maior de distrações, incluindo os necessários para impedir que a crescente “eco-ansiedade” viva numa civilização em colapso.

“Como podemos administrar a nossa situação humana, agora que somos o Homo absurdus?”, interroga o biólogo. O investigador sugere que um novo modelo para a evolução cultural poderia vir em nosso socorro envolvendo uma espécie de gestão biossocial, baseada na facilitação e implementação de uma compreensão mais profunda e mais ampla do público e empatia pelas raízes evolutivas das motivações humanas.

 

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5 COMENTÁRIOS

    • Primeiro, se não trabalhássemos de onde vinha a comida? Caía do céu?

      Segundo, se não trabalhasses, como é que tencionavas ocupar o teu tempo?

  1. E pronto. Mais um profeta da desgraça.

    Qualquer palerma que apareça a dizer que o mundo está todo errado, tem tempo de antena garantido e uma legião de seguidores na sua senda do auto-flagelamento. É dinheiro em caixa.

    Se estão assim tão infelizes com a vossa vida, mudem-se para a Papua Nova Guiné e vejam como é bom viver em comunhão com a Natureza. Ninguém vos obriga a viver na civilização!

    Dos Velhos do Restelo não reza a História.

  2. Mais um teoria da evolução que há muito já morreu, e, foi enterrada!…
    Cientistas que papagueiam apenas e somente o que o patrão disser para dizer!!..

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