Morreu o filósofo e ensaísta Eduardo Lourenço

António Pedro Santos / Lusa

O ensaísta Eduardo Lourenço, de 97 anos, morreu esta terça-feira em Lisboa, confirmou à agência Lusa fonte da Presidência da República.

Professor, filósofo, escritor, crítico literário, ensaísta, interventor cívico, várias vezes galardoado e distinguido, Eduardo Lourenço foi um dos pensadores mais proeminentes da cultura portuguesa e era um dos 19 conselheiros de Estado do presidente Marcelo Rebelo de Sousa.

Eduardo Lourenço de Faria nasceu a 23 de maio de 1923, em S. Pedro do Rio Seco, no concelho de Almeida, na Beira Baixa. Licenciado em Ciências Histórico-Filosóficas em 1946 pela Universidade de Coimbra, foi professor na Faculdade de Letras entre 1947 e 1953.

Seguir-se-iam as funções de Leitor de Cultura Portuguesa, nas universidades de Hamburgo e Heidelberg, na Alemanha, em Montpellier, na França, e no Brasil, até se fixar na cidade francesa de Vence, em 1965, com atividade pedagógica nas principais universidades francesas. Autor de mais de 40 títulos, possuiu desde sempre “um olhar inquietante sobre a realidade”, como destacaram os seus pares.

O ensaísta, com doutoramento Honoris Causa pela universidades do Rio de Janeiro, de Coimbra, Nova de Lisboa e de e Bolonha, é desde 1999 administrador não executivo da Fundação Calouste Gulbenkian.

Eduardo Lourenço faz desde 2016 parte do Conselho de Estado, designado pelo presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, que em declarações à imprensa diz tratar-se de uma “coincidência simbólica” que o “maior pensador sobre Portugal vivo nos tenha deixado no dia da Restauração da Independência“.

Quase que parecia que teria que ser assim“, acrescentou.

Portugal está-lhe muito, muito grato. Foi praticamente um século de serviço à nossa pátria”, afirmou Marcelo Rebelo de Sousa, que falava aos jornalistas no final das comemorações do 1.º de Dezembro, em Lisboa.

“Escreveu sempre sobre Portugal, sobre o que é Portugal, sobre a história de Portugal, o que é ser português, qual é a nossa identidade, o que significamos hoje e no futuro e toda a vida foi verdadeiramente dedicada a pensar sobre Portugal”, realçou o presidente.

Também a ministra da Cultura reagiu, no Twitter, à morte do ensaísta. “Não posso deixar de lamentar profundamente a morte de Eduardo Lourenço, uma das mentes mais brilhantes deste país. Foi um pensador, arguto e sensível como poucos e incansável combatente do caos dos dias”, disse Graça Fonseca.

Crítico e ensaísta literário, Eduardo Lourenço assinou ensaios polémicos, como “Presença ou a Contra-Revolução do Modernismo Português?”, publicado no jornal O Comércio do Porto em 1960, ou um estudo sobre o neorrealismo intitulado “Sentido e Forma da Poesia Neo-Realista“, em 1968.

Influenciado por Husserl, Kierkegaard, Nietzsche, Heidegger, Sartre ou pelo conhecimento das obras de Dostoievski, Franz Kafka ou Albert Camus, foi associado ao existencialismo, sobretudo por volta dos anos cinquenta, altura em que colaborou na Árvore e se tornou amigo de Vergílio Ferreira. “O Labirinto da Saudade”, “Fernando, Rei da Nossa Baviera”, “Os Militares e o Poder” são algumas das suas principas obras.

Indiferente à sucessão de correntes teóricas, e fugindo tanto ao historicismo como a pretensas análises objectivas, a perspectiva de Lourenço influenciou outros autores, como, por exemplo, Eduardo Prado Coelho.

O ensaísta era Grande Oficial da Ordem Militar de Sant’Iago da Espada, de que também possuía a Grã-Cruz, assim como da Ordem do Infante D. Henrique e da Ordem da Liberdade, Oficial da Ordem Nacional do Mérito, Cavaleiro da Ordem das Artes e das Letras e da Legião de Honra de França.

Prémio Camões em 1996 e Prémio Pessoa em 2011, Eduardo Lourenço foi um dos principais signatários do Manifesto em Defesa da Língua Portuguesa Contra o Acordo Ortográfico de 1990, petição on-line que entre Maio de 2008 e Maio de 2009 recolheu mais de 115 mil assinaturas válidas.

Luto nacional na quarta-feira

O primeiro-ministro, António Costa, anunciou hoje que quarta-feira será dia de luto nacional, pela morte do ensaísta Eduardo Lourenço, aos 97 anos.

“Amanhã será dia de luto nacional, no dia em que dos despediremos do professor Eduardo Lourenço”, disse António Costa, que falava aos jornalistas à margem das comemorações do 1.º de Dezembro, em Lisboa.

ZAP // Lusa

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