O mercado imobiliário da China está em colapso (e pode levar a economia atrás)

Michel_r / Wikimedia

Shangai, China

O mercado imobiliário da China está a dar sinais de recessão, somando-se a uma lista crescente de alertas sobre a economia do país. Cresce o controlo de gastos por parte dos consumidores, à medida que as empresas absorvem o impacto da guerra comercial com os Estados Unidos (EUA). Somando-se ao clima pessimista, o crescimento económico em 2018 foi o mais lento desde 1990.

Segundo um artigo do Nikkei Asian Review, um ‘boom’ massivo de construções na China, inclusive em cidades consideradas de segundo escalão – como Jinan -, deixou 65 milhões de apartamentos vazios, de acordo com as estimativas de Gan Li, professor da Universidade de Finanças e Economia da Universidade de Southwestern, em Chengdu.

Os números indicam que o volume de vendas em 24 cidades monitorizadas pelo Sistema de Indexação Imobiliária da China caíram 44% na primeira semana de 2019, em comparação com o ano anterior, embora as quatro maiores cidades – Shangai, Shenzhen, Guangzhou e Pequim – ainda tenham visto um aumento de 12%.

Apesar da crise no setor imobiliário, os preços das casas continuam extremamente altos, mesmo em cidades consideradas “de segundo escalão”, como Jinan, onde um apartamento de 100 metros quadrados custa cerca de 297 mil dólares (263 mil euros). Um trabalhador ganha, em média, seis mil yuans por mês (aproximadamente 880 dólares, ou 780 euros).

A desaceleração do setor imobiliário é um “problema em potencial” para os políticos chineses visto que, durante anos, este desempenhou um papel fundamental na criação de empregos, aumentando o investimento e gerando dinheiro para os governos locais. Cerca de 25% do PIB chinês foi criado a partir de indústrias relacionadas com a construção.

A queda da propriedade também desencadeou inquietação social, que pode “alimentar protestos em larga escala contra o governo autoritário do país”. Essa situação é “particularmente preocupante este ano”, uma vez que o país marca o 70º aniversário da República Popular – vista como a fundação da China moderna, lê-se no artigo.

(dr) Xinhua

O presidente da China, Xi Jinping, ladeado por outros membros do governo.

O Nikkei Asian Review indica que também os investidores estão “nervosos” com o que pode ainda acontecer no setor imobiliário. Embora as perspectivas para os principais investidores – como Country Garden e China Vanke – permaneçam estáveis, o mercado de títulos está a dar sinais de alerta sobre a dívida mantida por muitos dos pequenos grupos chineses.

Quatro desses pequenos grupos estão classificados com “CCC”, que significa “profundamente em território de lixo”, pela S&P Global Ratings. Essa classificação indica que as empresas estão “vulneráveis” e podem não sobreviver a uma queda nos negócios.

O artigo esclarece ainda que os bancos de sombra costumavam ser uma das “principais fontes de financiamento”, mas os esforços recentes da China para reduzir a dívida arriscada “enfraqueceram a liquidez para os pequenos e médios investidores, que confiaram nesse tipo de financiamento”.

Igualmente preocupante, esclarece o Nikkei Asian Review, é o crescente número de empresas imobiliárias chinesas que estão a sofrer com pesadas dívidas, tendo a Moody’s avaliado 51 dessas 61 empresas como “lixo”.

A dívida imobiliária da China ascende aos 3,4 biliões de dólares, com 47% desse valor “preso” em propriedades desocupadas. Ou seja, quase metade dos empréstimos estão vinculados a ativos imobiliários que não geram rendas.

https://twitter.com/adammikulis/status/1097279574746980352

De acordo com Xiang Songzuo, professor da Universidade Renmin (Pequim), este pode ser denominado por “momento Minsky”, um fenómeno criado pelo economista norte-americano Hyman Minsky que descreve como uma classe de ativos pode aumentar constantemente em valor, antes de entrar em colapso de forma repentina.

Pelas suas estimativas, cerca de 80% da riqueza chinesa está na forma de imóveis, totalizando mais de 65 biliões de dólares (58 biliões de euros) – quase o dobro de todas as economias do G7 combinadas. Uma desaceleração significativa poderia, portanto, ter um “impacto substancial na saúde financeira dos cidadãos”.

Em resposta à desaceleração da propriedade, alguns governos locais removeram, silenciosamente, restrições à compra de residências, desmantelando os limites de preços para novas unidades e flexibilizando os requisitos para compradores não locais.

No início de janeiro, o banco central da China também reduziu a quantidade de dinheiro que os bancos devem manter como reservas, libertando 117 mil milhões de dólares (cerca de 104 mil milhões de euros) para novos empréstimos.

Contudo, alguns economistas e analistas estão céticos sobre o efeito dessas medidas de flexibilização. “A ampla tentativa de reduzir os riscos no setor financeiro tem sido a principal razão para a desaceleração”, afirmou Shaun Roache, economista-chefe da S&P Global Ratings na Ásia-Pacífico.

Para Alan Jin, diretor de pesquisa de propriedades externas da empresa Mizuho Securities, as medidas de flexibilização são “bastante triviais” e, provavelmente, “não estimularão muito a compra de novas casas”.

“O período mais draconiano para a dívida pode ter acabado, mas isso não indica, de forma alguma, que os investidores possam esperar por dias mais otimistas em 2019”, disse

Mas a desaceleração económica da China não está vinculada apenas ao setor imobiliário. O artigo mostra que a atual guerra comercial e a crescente pressão dos EUA sobre questões estruturais mais amplas estão a reduzir os padrões de gastos dos consumidores e a disposição dos fabricantes em investir.

Os que defendem que a China pode experimentar um ciclo de queda mais difícil apontam para uma série de fatores, incluindo o envelhecimento da população e o ambiente global desfavorável, sendo, porém, os altos níveis de endividamento a principal preocupação.

“O maior dilema para resolver o problema da dívida vem do conflito de interesses entre a sustentabilidade da dívida, o crescimento e a política monetária”, disse Haibin Zhu, chefe de estratégia de ações da China no JP Morgan.

Nesse nível de endividamento, cerca de 70% dos novos financiamentos serão usados ​​para pagar juros, o que significa que apenas 30% poderão ser usados ​​para apoiar novas atividades económicas. Haibin Zhu acredita que esta é uma das principais razões pelas quais a transmissão da política de crédito foi enfraquecida nos últimos anos.

Taísa Pagno, ZAP //

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7 COMENTÁRIOS

  1. Exacto, não é novidade nenhuma.
    Era questão de tempo…. como se vê, nem tanto tempo assim….
    A chatice è que levam o resto do mundo abaixo com eles.

  2. Haibin Zhu, será economista-chefe da China , mas onde?
    porque a notícia em apreço identifica-o como chefe de estratégia de acções chinesas, MAS no conhecido Banco JP Morgan.!!!!………………………
    Um pouco de cuidado na redacção das notícias permitiria que não resvalássemos automaticamente para a suspeita de manipulação intencional de dados
    Mesmo tendo em atenção que os mainstream são completamente impermeáveis á manipulação, e ao condicionamento, o que permite admitir que afinal se possa tratar apenas de imperícia do tradutor/a

  3. Devem ter aprendido com os portugueses, dar o passo mais comprido do que a perna e estariam a viver também um pouco à sombra dos negócios com os USA mas o Trump pelos vistos não está na disposição de servir de moleta para tudo e lá se vai a economia chinesa. Talvez ainda os salve os negócios sobretudo com a Europa à custa da globalização que beneficiou os países asiáticos em detrimento dos europeus.

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