Medicina destronada, Engenharias ganham terreno

Marcos Santos / USP Imagens

Com 49 mil e 363 inscrições, quase 90% dos alunos que se candidataram à 1ª fase encontraram curso. Medicina foi destronada pelas engenharias e o curso com a média mais alta tem apenas um aluno e é venezuelano.

Apostar num diploma ainda faz diferença. Que o digam os 43 mil e 992 estudantes que, de acordo com a lista de colocações disponível no site da Direção-Geral do Ensino Superior, entraram na 1ª fase do concurso nacional de acesso ao ensino superior público.

Apesar da diminuição no número de candidaturas, este ano a quebra foi mais ligeira e interrompeu a tendência verificada nos quatro anos anteriores onde cada vez menos eram aqueles que se inscreviam na 1ª fase do concurso nacional.

Pedro Dominguinhos, presidente do Conselho Coordenador dos Institutos Superiores Politécnincos, destaca o crescimento do emprego jovem, que tem colocado o sistema de ensino superior “a concorrer com o mercado de trabalho” como um dos fatores a ter contribuído para a quebra da procura.

Segundo aponta o Diário de Notícias, o aumento das ofertas de emprego é uma das razões para a dispensa ou o adiamento na entrada no ensino superior. Mas na realidade, ainda compensa investir no diploma.

De acordo com o último relatório Education at a Glance da OCDE, de 2017, os portugueses licenciados ganham, em média, 69% acima de quem apenas tem o secundário. E mesmo com curso de especialização tecnológico, a diferença mantém-se nos 65%. E mesmo na Europa, a médio salarial entre diplomado e não diplomado anda na ordem dos 53%.

Segundo o mesmo relatório, quem estuda mais tem também mais momentos de progressão salarial ao longo da carreira e Portugal é registado como um dos países onde o ensino superior mais funciona como elevador social da população.

Talvez por estas razões se tenha verificado uma alteração na tendência registada nos últimos quatro anos.

Há menos 2% de colocados

Numa redução de colocados (menos 2%) bastante inferior ao que era esperado, o concurso deste ano teve a maior taxa de sucesso desde 2013/2014. Dos 49 mil e 363 alunos que se candidataram, 89,1% foram colocados, um crescimento de 3,4 pontos percentuais face ao ano anterior.

Dos 43 mil e 992 colocados, 54,7% entraram na sua primeira escolha, 22% na 2ª e 11,8% na 3ª opção. A quarta, quinta e sexta opção tiveram respetivamente percentagens de 6,1%, 3,7% e 2%.

O concurso nacional deste ano também revelou outra tendência: medicina perde cada vez mais terreno como um dos cursos mais competitivos no acesso ao ensino superior. A ultrapassar medicina estão a surgir os cursos de engenharia, focados em setores de ponta.

Pela primeira vez, não existe nenhum curso de medicina entre os cinco cursos com notas de ingresso mais altas. Para encontrar medicina no ranking dos cursos com média mais alta, é preciso descer até ao sétimo posto onde aparece o curso de medicina do Instituto de Ciências Biomédicas Abel Salazar da Universidade do Porto (18,22).

Acima de medicina o top cinco de cursos com médias mais elevada é quase exclusivo das engenharias. Matemática Aplicada e Computação (18,35), Engenharia e Gestão Industrial (18,63), Engenharia Aeroespacial (18,85), Engenharia Física Tecnológica (18,90) e em primeiro lugar na lista, Engenharia Civil com ensino em inglês da Universidade da Madeira com a nota do último classificado a atingir 18,94.

Melhor aluno é luso-venezuelano

Esta nota do último classificado em Engenharia Civil é também a nota do primeiro classificado. Isto porque o primeiro e último classificado são…a mesma pessoa. Juan Emanuel Baptista, luso-venezuelano é o único aluno neste curso.

“Sinto-me muito bem por ter sido o único”, disse à Lusa o novo estudante que colocou Engenharia Civil no topo da lista de cursos com a média mais alta e que tem, à partida, 20 vagas.

Emanuel Baptista nasceu na Venezuela mas tem pais e avós madeirenses. A situação política e económica no país fez esta família trocar Caracas pela Madeira.

“Vim com a minha avó em 2015, viemos os dois primeiros, e só depois chegu a minha mãe com o meu avô”, conta Emanuel Baptista ao Diário de Notícias que revela ainda que o pai está na Venezuela com os dois meios-irmãos.

Sempre bom aluno, como revela a sua nota de candidatura, Emanuel tinha tudo para ingressar na universidade mais conceituada na área das engenharias do país: o Instituto Superior Técnico, em Lisboa. E chegou a fazê-lo. Mas o custo da cidade de Lisboa, mais as propinas, atingiram um limite que a família de Emanuel não conseguia suportar.

Sem dinheiro para pagar um quarto, Emanuel candidatou-se à bolsa e estava esperançoso que chegasse a tempo. “Pedi a bolsa assim que entrei, mas só comecei a receber informações sobre o processo depois de ter passado todo o primeiro semestre. Falei com professores, falei com o Técnico, mas eles não podiam fazer muito mais”, revelou.

Impossibilitado de alugar um quarto por 400 euros, Emanuel teve de tomar uma decisão. Revoltado, fez as malas e regressou à Camacha, na Madeira onde acabou por se inscrever em Engenharia Civil na ilha, colocando o curso no topo da lista dos cursos com média de acesso mais elevada.

Após a 1ª fase do concurso nacional, sobram ainda 7290 vagas das 50852 vagas iniciais. Estas 7 mil vagas estarão disponíveis na 2ª fase do concurso nacional de acesso ao ensino superior que começa na próxima segunda-feira e se prolonga até 21 de setembro.

ZAP ZAP //

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4 COMENTÁRIOS

  1. Uma vergonha que um bom aluno seja privado de estudar na universidade que escolheu por não ter dinheiro para arrendar um quarto em lisboa… Mais vergonha ainda ter-se candidatado a uma bolsa que não lhe deu resposta em tempo útil…

  2. Pode-se pedir adiantamento. Mas é um processo complexo. Aliás, hoje em dia conseguir ter bolsa de acção social é, por si só, um mérito, devido a tantas barreiras que colocam, e é preciso estar numa situação familiar má para poder ter direito.
    O maior problema dele era ter quarto onde ficar no primeiro ano. Teria de ficar numa residência universitária. Só que a prioridade é para os bolseiros. E como a resposta demora meses, ele não teria resposta em tempo útil. Ou seja, é excluído por ser pobre, por mais inteligente que seja.

  3. “Não podiam fazer nada”… Talvez não, no país que isto é. Nos EUA, as Universidades pagariam para terem esta rapaz. É por isso que continuam a ser o país que são, mesmo com Trump’s e quejandos.
    Boa sorte a esta português que veio.

  4. Caro AM,

    Acho que deu um mau exemplo.
    O ensino na América é praticamente todo liberalizado, com propinas anuais de 10000$USD para cima. Os estudantes têm acesso a empréstimos “bonificados” dos bancos que só começam a pagar depois de acabarem o curso (ou atingindo um certo limite de anos). E depois de conseguirem acabar o curso deparam-se com uma dívida enorme às costas sem quaisquer garantias de serem absorvidos pelo mercado de trabalho na sua área de especialização. Acontece a muitos terem mais do que um emprego em várias áreas diferentes da do próprio curso..

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