Matar bebés na Guiné não é crime, é tradição

Luís Fonseca / Lusa

Binham Quimor durante um concerto em Bór, Guiné-Bissau, em maio de 2016.

Binham Quimor durante um concerto em Bór, Guiné-Bissau, em maio de 2016. Binham tinha um ano quando foi abandonado para ser levado pela maré porque, reza a tradição, algumas crianças são espíritos que têm que ser devolvidos à natureza.

Binham, 38 anos, tem uma canção sobre o pai que nunca gravou na sua discografia: aquela em que conta como ele o quis matar quando ainda era bebé.

“Acho que ele pensava que estava certo. Não tenho nada para odiar o meu pai”, conta o cantor Binham Quimor, um dos cantores mais famosos da Guiné-Bissau e que dá espetáculos em todo o mundo.

Binham tinha um ano quando foi abandonado para ser levado pela maré porque, reza a tradição, algumas crianças são espíritos que têm que ser devolvidos à natureza.

A lei da Guiné-Bissau protege este costume e atenua a pena de quem matar bebés, seguindo a crença.

Mas nem era preciso, porque as comunidades encobrem os casos logo à partida e nunca ninguém foi investigado ou julgado.

O pai de Binham encomendou a cerimónia porque o filho adoecia com frequência e estava a levar muito tempo para começar a andar, sinais de uma “criança irã“.

Deficiência, convulsões e gémeos são outros motivos para abandonar bebés que são também “bodes expiatórios” de “coisas negativas”, como “a morte da mãe no parto”, explica Filipa Gonçalves, 28 anos, psicóloga e coautora do estudo “Crianças irã: uma violação dos direitos das crianças na Guiné-Bissau“.

No decurso deste estudo, foram entrevistados 20 membros de famílias que disseram ter crianças possuídas por espíritos.

Por vezes, basta um bebé cair em subnutrição, o que é comum na Guiné-Bissau, para ter atrasos no desenvolvimento e ser sentenciado.

Um curandeiro chega a receber 150 euros para realizar a cerimónia em que a criança é abandonada, conta Laudolino Medina, presidente da associação Amigos da Criança, AMIC.

“Os detalhes do ritual dependem da etnia”, mas de uma forma geral envolvem experiências com comida que os ‘irãs‘ supostamente apreciam, consoante sejam espíritos de terra ou de água.

Aos 44 anos, uma residente em Bissau, neta de uma curandeira, aceitou recuar à infância e falar sobre as cerimónias que via a avó fazer.

Conta a história sob anonimato.

Eu via pais levarem filhos, alguns com quatros anos, e quando caía a noite realizava-se o ritual com farinha e ovos – em que a criança, sem autonomia para se deslocar ou orientar, era abandonada ao ar livre”, conta.

Depois, na casa da avó curandeira, havia festa patrocinada pelos pais, que “levavam porco, cozinhavam e davam vinho”.

Luís Fonseca / Lusa

Vilma na escola que fica debaixo de uma árvore no Bairro Militar em Bissau. Vilma escapou a quatro tentativas de homicídio por ser considerada uma criança irã, devido a uma deficiência na locomoção e convulsões não diagnosticadas.

Vilma na escola que fica debaixo de uma árvore no Bairro Militar em Bissau. Vilma escapou a quatro tentativas de homicídio por ser considerada uma criança irã, devido a uma deficiência na locomoção e convulsões não diagnosticadas.

Ao contrário do que possa parecer, “estes pais não defendem a morte das crianças“, explica Filipa Gonçalves, que encontra uma certa “legitimação” na vulnerabilidade económica e social das famílias.

Ter uma criança deficiente ou doente é sempre “uma preocupação”, mais ainda onde “não há respostas”, nem sociais, nem médicas, nem de nenhum outro tipo.

Esse filho esgota recursos que deviam ser divididos por outros cinco (número médio de filhos por mulher na Guiné) e em sítios onde ninguém tem conhecimentos “para avaliar uma paralisia, trissomia ou outro problema”.

Binham foi salvo às escondidas, pela mãe, antes que a maré subisse, na zona de Matandim, onde nasceu e foi abandonado, ao relento, nos arredores de Bissau.

“Vi uma vez o meu pai, quando tinha 13 anos. Não o tornei a ver até ele morrer”, pelo que nunca falaram sobre o assunto, mas Binham gostava que ele visse o artista em que se tornou.

“A prática continua e não há registo de um único caso julgado e condenado“, lamenta Augusto Mário da Silva, presidente da Liga Guineense dos Direitos Humanos, LGDH.

O artigo 110 sob o título “Infanticídio” do Código Penal da Guiné-Bissau indica que “a mãe, os pais ou os avós que durante o primeiro mês de vida do filho ou do neto lhe tirarem a vida” por deficiência, doença ou influenciados por usos e costumes do grupo étnico, “são punidos com pena de prisão de dois a oito anos”.

Desta forma, a pena é inferior à de homicídio, que na Guiné-Bissau vai de oito a 16 anos de prisão, o que no entender de Laudolino Medina é um “incentivo à prática”.

Por outro lado, Mário da Silva diz serem “inaceitáveis justificações de homicídio com base em razões tradicionais, sob pena de se construir uma sociedade de incertezas”.

Que o diga Vilma, oito anos, que sobreviveu depois de a família tentar matá-la quatro vezes quando era bebé por nascer com uma deficiência ligeira.

O que lhe valeu foi que houve sempre familiares que se arrependeram e, da última vez, a família não conseguiu juntar 150 euros para pagar ao curandeiro.

Hoje Vilma é apadrinhada por Laudolino, que conseguiu mudar a perceção do pai, mas “há muitas mais ‘Vilmas’ na Guiné-Bissau e nem todas se salvam”, alerta.

Luís Fonseca / Lusa

 Nida da Silva, guineense, 36 anos, teve que fugir de casa porque o marido e o resto da comunidade em Nhacra, arredores da capital, queriam sacrificar a filha Nimade uma criança que nasceu com deficiência nas pernas e mãos.

Nida da Silva, guineense, 36 anos, teve que fugir de casa porque o marido e o resto da comunidade em Nhacra, arredores da capital, queriam sacrificar a filha Nimade uma criança que nasceu com deficiência nas pernas e mãos.

Encontrar escapatória não é fácil: Nida da Silva, guineense, 36 anos, teve que fugir de casa porque o marido e o resto da comunidade em Nhacra, arredores da capital, queriam sacrificar a filha que nasceu com deficiência nas pernas e mãos.

“A história da mãe de Nimade mostra o heroísmo do amor”, retratou a freira Romana Sacchetti, da Missão Católica de Bula, que acompanhou este e outros casos durante 35 anos na Guiné-Bissau.

Quando as crianças ficavam saudáveis, “a população começava a questionar a tradição“, contou Sacchetti antes de falecer num acidente de viação, poucos dias depois de falar para esta reportagem – mas a missão em Bula continua a servir de porto de abrigo para “crianças irãs”.

A canção de Binham nunca gravada sobre os infanticídios encobertos da Guiné vai tentar trazê-los para a ordem do dia, espera o cantor, que quer incluí-la no próximo disco.

Até lá, para ouvir, só pedindo num concerto pelo título em crioulo, “Mames Mansia”, ou as mães não são todas iguais.

/Lusa

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4 COMENTÁRIOS

  1. Nós somos realmente uma sociedade muito mais evoluída que a Guiné: matamos os bebés mais cedo, antes de saírem cá para fora, não necessariamente por terem doenças ou deficiências mas simplesmente porque nos apetece, e nem sequer precisamos de nos escudar em tradições, pois a nossa lei permite e subsidia. Que maravilha! Maior prova ainda da nossa evoluidíssima sociedade é que ainda valorizamos esta prática, adornando-a com chavões indestronáveis e inquestionáveis, como “a mulher é dona do seu corpo” e nada mais precisa ser dito. E ai de quem abrir a boca depois desta! Eu nem me atrevo…

    • É melhor virem cá para fora para serem negligenciados ou abandonados pelos pais, viverem vidas de pobreza, miséria e infelicidade. Ou então pode você acolher todas essas crianças cujos pais não tem condições para lhes dar uma vida digna. Quantas já adoptou?

      Claro que não defendo a leviandade do aborto, é preferível prevenir, mas não sejamos hipócritas.

      • Concordo, senão são a favor do aborto podem sempre adotar/educar etc essas crianças em que os pais não têm condições.
        É verdade, quem fala assim nunca passou pela miséria, enfim!
        Ou então voltar aos abortos clandestinos e feitos sabe se lá por quem, só gente limitada na bolha que vivem!

  2. Criticar, criticar, criticar… Toda a gente só sabe fazer isso. Que pena… Toda a energia que gastam a criticar A, B ou C, se a gastassem em proveito próprio seriam pessoas bem melhores! Não podemos ver uma situação da Guiné à luz das nossas crenças e concepções! Cada situação tem de ser vista dentro do ambiente em que se insere. E mesmo assim não deve ser digna de crítica! Cada um sabe de si. O que é bom para uns pode ser mau para outros, e vice-versa. Ainda para mais em culturas tão diferentes! Tal como Jesus disse “Quem nunca pecou que atire a primeira pedra!”.

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