Marcelo explica ao Brasil o Governo português: “É uma coabitação especial”

Estela Silva / Lusa

Uma “coabitação especial” que “obriga a um equilíbrio constante” entre o Governo e respetiva base parlamentar e também com o Presidente.

Foi assim que Marcelo Rebelo de Sousa explicou a fórmula governativa numa do entrevista ao programa da rede de televisão brasileira Globo “Conversa com Bial”, gravada há cerca de dois meses no Palácio de Belém e que foi transmitida esta segunda-feira à noite.

Numa conversa com o jornalista e apresentador Pedro Bial, foi questionado se é graças a si que a social-democracia subsiste em Portugal, responde: “Bom, eu não direi graças a mim. Direi que houve uma combinação única em Portugal de um Governo socialista apoiado por forças mais à esquerda – comunistas e Bloco de Esquerda – e, portanto, um Governo minoritário, tendo de negociar permanentemente o orçamento para ir durando a legislatura, e um Presidente que vem do centro-direita”.

Esta solução “verdadeiramente obriga a um equilíbrio constante entre o Governo e a base de apoio parlamentar, e um equilíbrio entre o Governo e o Presidente da República”.

Interrogado se a austeridade terminou ou continua de outra forma em Portugal, Marcelo Rebelo de Sousa sustenta que o atual executivo do PS tem cumprido as exigências europeias de controlo orçamental “fazendo subir rendimento, mas cortando nalgum investimento público”, contendo gastos “em infraestruturas”, em “despesas de soberania” ou em “reforma no sistema social”.

“Este ano, penso que podemos ter défice zero ou superavit. Para fazer isso, onde vai cortar [o Governo]? Vai cortar nalgum investimento público”, refere.

Passando em revista o seu mandato, o chefe de Estado aponta a morte de mais de cem pessoas nos incêndios de 2017 como “certamente o pior momento” da sua vida, não só política, como pessoal: “Nem o desgosto da morte do pai e da mãe, três meses depois, nem outro tipo de desgosto é comparável a esse choque”.

“Há um evento, há um drama, há uma tragédia, eu estou lá”

Sobre o modo como tem exercido funções, admite que “fisicamente é um desgaste brutal” a escolha de “todo o dia estar em toda a parte”, mas alega que “houve presidentes mais ativos”, como Mário Soares, que classifica como “um Presidente superativo”.

E enquadra assim a sua intervenção: “O meu estilo é estar próximo das pessoas e, nesse sentido, eu interfiro, porque há um evento, há um drama, há uma tragédia, eu estou lá. E isso às vezes é um pouco incómodo para outros protagonistas políticos, é verdade”.

Marcelo Rebelo de Sousa defende, porém, que tem atuado “respeitando sempre os limites dos poderes presidenciais” e diz que tem vetado “muito pouco” do total de diplomas que lhe chegam às mãos, sem pedir ao Tribunal Constitucional “o controlo preventivo, nunca”, um dado que realça.

Nesta entrevista, reitera a sua posição a favor de um afastamento entre o cargo unipessoal de Presidente da República e a sua família. “Tenho irmãos que nunca almoçaram nem jantaram em Belém, três anos depois, porque Presidente é Presidente, família é família. E o mesmo com os netos”, assinala.

Contudo, ressalva que os seus antecessores “tiveram primeiras-damas excecionais, todos”, mas defende que no seu estilo isso não faz sentido. “Eu tento, além da função de Presidente, em muitos momentos, suprir a falta de primeira-dama”, adianta.

“A esquerda portuguesa me ia comendo vivo”

Nesta conversa gravada há cerca de dois meses e meio, o Presidente da República fala pausadamente, com um leve sotaque brasileiro, e recorda o seu breve encontro com o Presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, em janeiro, em Brasília, à saída do qual “até disse que tinha sido um encontro entre irmãos”. “Não imagina, a esquerda portuguesa me ia comendo vivo”, relata, explicando que utilizou essa expressão não por os dois pensarem o mesmo, mas porque brasileiros e portugueses são “povos irmãos”.

Marcelo escusa-se a falar sobre a política brasileira, mas perante uma comparação entre o seu estilo e o de líderes como Bolsonaro ou o Presidente norte-americano, Donald Trump, traça diferenças face aos “chamados populistas” que “querem mais rutura do que reforma”, definindo-se como “um reformista” que não quer destruir o sistema.

“Uma coisa é estar próximo do povo, mas estar mesmo – não é a falar que se ama o povo, é ir passar a noite com sem-abrigo, é estar com o idoso, é estar com o pobre, não é falar no pobre”, acrescentou o Presidente da República.

ZAP // Lusa

PARTILHAR

RESPONDER

Governo russo exige 1,8 mil milhões de euros a empresa mineira por poluição no Ártico

A agência russa de defesa do ambiente exigiu uma indemnização de 147,8 mil milhões de rublos (1,8 mil milhões de euros) ao conglomerado mineiro Norilsk Nickel, pela grave poluição do Ártico com hidrocarbonetos. Em comunicado, a …

Perda de habitat pode aumentar doenças que passam de animais para humanos, prevê ONU

Um novo relatório da Organização das Nações Unidas (ONU) alertou que podem surgir mais doenças que passam de animais para humanos, como a covid-19, à medida que os habitats são devastados pela exploração da vida …

Rússia ameaça retaliar face às sanções "hostis" do Reino Unido

A Rússia ameaçou responder às sanções "hostis" anunciadas por Londres contra 59 pessoas e entidades, 25 delas russas. A Rússia vai responder às sanções "hostis" anunciadas pelo Governo britânico contra 49 pessoas e organizações, 25 das …

Ministério dispensa quase todos os alunos da renovação de matrículas (após ataques informáticos e o desespero dos pais)

As matrículas online são agora obrigatórias apenas para os alunos que no próximo ano lectivo vão iniciar os 5.º, 7.º e 10.º anos de escolaridade. O anúncio é feito pelo Ministério da Educação depois das …

"Estavam prontos para bater". Atleta Ricardo dos Santos vai processar polícia londrina

O atleta português Ricardo dos Santos disse na segunda-feira que não demorou mais de 20 segundos a parar o carro, quando lhe foi pedido pelas autoridades em Londres, e garantiu que vai processar a polícia …

Motorista de autocarro em morte cerebral depois de agressões de passageiros em França

Um motorista de autocarro foi declarado em morte cerebral esta segunda-feira, em França, depois de ter sido agredido no domingo por passageiros a quem recusou a entrada no transporte público. No domingo à noite, um motorista …

Erro de laboratório origina 20 casos em dois clubes da Liga búlgara

Vinte pessoas estão infetadas com o novo coronavírus, após um futebolista com covid-19 ter participado no duelo entre o Cherno More e o Tsarko Selo, da Liga búlgara, devido ao erro de um laboratório, foi …

Soleimani foi assassinado de forma "ilegal e arbitrária", considera perita da ONU

A relatora especial da ONU, Agnes Callamard, considera que os Estados Unidos não apresentaram provas suficientes para justificar o ataque. Uma especialista da ONU concluiu que o general iraniano Qasem Soleimani, morto num raide norte-americano …

Bolsonaro infetado com covid-19

A imprensa brasileira confirmou, esta terça-feira, que o Presidente Jair Bolsonaro está infetado com covid-19. O Presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, testou positivo à covid-19. De acordo com a Globo, a informação foi avançada pelo próprio, …

Costa avisa que vem aí a "fase mais crítica" dos incêndios e pede prevenção

O primeiro-ministro participou numa reunião de acompanhamento e monitorização sobre prevenção e combate a fogos florestais e advertiu, esta terça-feira, que Portugal entra agora na fase mais crítica. Esta terça-feira, o primeiro-ministro advertiu que Portugal entra …