Mamíferos que se alimentam de outros mamíferos são mais suscetíveis ao cancro

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De acordo com um estudo, realizado em dezenas de milhares de animais de jardim zoológico, os mamíferos carnívoros têm mais probabilidades de morrer de cancro do que os que só comem plantas.

A bióloga Orsolya Vincze, do Centro de Investigação Ecológica da Hungria, e os seus colegas, analisaram registos de 110.148 animais de 191 espécies de mamíferos, que morreram em jardins zoológicos, para determinar o risco de morte associada ao cancro.

Segundo a New Scientist, a equipa verificou que os mamíferos que se alimentam de carne tinham maior probabilidade de morrer de cancro do que os mamíferos que raramente ou nunca comem animais.

De acordo com os resultados do estudo, a espécie mais propensa a contrair cancro é o Kowari, um pequeno marsupial australiano carnívoro. 16 dos 28 registos pós morte da espécie declaravam como causa de morte o cancro.

Pelo contrário, no caso dos Antílopes Negros, antílopes herbívoros nativos da Índia, e das Lebres da Patagónia,  grandes roedores herbívoro encontrados na Argentina, nenhum dos registos acusa morte por cancro.

A ordem dos artiodáctilos, que inclui antílopes, ovinos e bovinos, é a menos propensa a contrair cancro, concluiu a equipa de investigadores.

Os resultados do estudo, publicado em dezembro na revista Nature, desafiam a crença comum de que os animais de maior porte e com maior longevidade correm um risco maior de contrair cancro, uma vez que têm mais células e que podem sofrer mutações, e há mais tempo para que ocorram essas mesmas mutações.

Em vez disso, o cancro parece ser fortemente influenciado pela dieta, embora seja necessário efetuar mais estudos para confirmar se a relação observada nos mamíferos em cativeiro se encontra também em animais selvagens

Segundo Orsolya Vincze, uma das razões pela qual os carnívoros podem ser mais propensos ao cancro é a carne crua, que pode conter vírus que, quando ingeridos, causem cancro. Em alguns leões de cativeiro, o aparecimento de cancro está ligado ao papilomavírus existente em carcaças de vacas que comeram.

Outra das razões apontadas para a correlação pode ser a exposição a poluentes, que se concentram cada vez mais nos animais do topo na cadeia alimentar, explica a bióloga Beata Ujvari, da Universidade Deakin, na Austrália, que também esteve envolvida no estudo.

A alimentação carnívora tem alto teor de gordura, baixo teor de fibras e bactérias intestinais menos diversificadas do que a alimentação à base de plantas — fatores que têm sido associados ao risco de cancro nas pessoas.

“A descoberta de que os mamíferos que comem carne são mais suscetíveis ao cancro não significa necessariamente que o risco seja maior nos humanos, uma vez que o nosso estilo de vida é diferente dos outros mamíferos, e não temos tanta tendência a comer carne crua”, explica Ujvari.

No entanto, alguns estudos feitos em humanos relacionaram o consumo de carne com o aumento do risco de cancro.

Beata Ujvari explica ainda que nesta fase não é claro por que motivo os artiodáctilos parecem ser invulgarmente resistentes ao cancro, mas uma melhor compreensão sobre este assunto, podia ajudar a proteger-nos do cancro.

Segundo a investigadora, a dieta vegetal pobre em gordura e rica em fibras pode ser um dos fatores que dá à ordem dos artiodáctilos maior resistência à doença, mas estes animais poderão ter desenvolvido defesas naturais anti cancerígenas para compensar o potencial extra de risco de cancro causado pelo seu tamanho.

As espécies como o peixe-preto e a mara patagónica são de particular interesse, devido às suas taxas de mortalidade por cancro excecionalmente baixas.

“Compreender como estas espécies desafiam o cancro pode ajudar-nos a desenvolver tratamentos para o combater”, conclui Vincze.

  Inês Costa Macedo, ZAP //

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