
Salão Morgenstern do Museu Universitário de Tartu, na Estónia
Entre 2022 e 2024, uma rede internacional de ladrões georgianos visou bibliotecas de toda a Europa, trocando originais por falsificações e vendendo raridades em leilões em Moscovo.
Em abril de 2022, dois homens entraram na biblioteca da Universidade de Tartu, na Estónia, e pediram acesso a obras raras do poeta e dramaturgo russo Alexander Pushkin e do escritor russo de origem ucraniana Nikolai Gogol.
Três meses mais tarde, os bibliotecários descobriram que os originais tinham sido substituídos por cópias. O caso parecia isolado, mas rapidamente se percebeu tratar-se de um esquema muito mais vasto.
No espaço de 18 meses, dezenas de edições raras foram roubadas em mais de uma dúzia de bibliotecas europeias, dos países bálticos e Finlândia até à Suíça e França. As vítimas incluíram instituições de renome, como as universidades de Tartu, Tallinn, Vilnius e Varsóvia.
Em alguns casos, os criminosos substituíam os exemplares por réplicas de alta qualidade; noutros, simplesmente levavam os livros, e nunca mais os devolveram, conta a BBC.
A Europol lançou então a Operação Pushkin, que envolveu mais de uma centena de agentes em buscas internacionais. Até agora, nove cidadãos georgianos já foram detidos no âmbito da operação.
O primeiro a ser preso foi Beqa Tsirekidze, de 48 anos. Condenado na Estónia e na Letónia, cumpre pena de três anos e três meses. Em entrevista à BBC, afirmou ter entrado no negócio dos livros antigos em 2008 para sustentar a família, tendo aprendido a restaurar volumes por conta própria.
“Sou como um feiticeiro dos livros. Basta-me pegar num exemplar para saber quanto vale e quanto poderá render em leilão”, diz Tsirekidze, que já tinha antecedentes: em 2016 foi condenado na Geórgia por furtar livros do Museu de História de Tbilisi, mas escapou com pena suspensa.
O golpe mais mediático ocorreu em outubro de 2023, na biblioteca da Universidade de Varsóvia.
Um jovem casal — Mate, filho de Tsirekidze, e a esposa, Ana Gogoladze — foi apanhado pelas câmaras de vigilância a consultar obras raras. Pouco tempo mais tarde, foram condenados pelo roubo de livros avaliados em quase 85 mil euros.
No total, desapareceram 73 exemplares, avaliados em mais de meio milhão de euros. “É o maior roubo de livros desde a Segunda Guerra Mundial”, disse à BBC o professor Hieronim Grala, da Universidade de Varsóvia. “É como arrancar as joias de uma coroa.”
Segundo o académico, reformas recentes na biblioteca, que tinham flexibilizado o acesso a coleções raras, acabaram por facilitar a ação dos ladrões.
Carimbos, falsificações, mercado em alta
Identificar a origem dos livros nem sempre é simples. Muitos exemplares antigos trazem carimbos de bibliotecas já extintas ou vendidos legalmente como duplicados, sobretudo no período soviético. Outros foram adulterados com páginas impressas em papel envelhecido ou tiveram carimbos removidos quimicamente.
A fragilidade da segurança nos museus e bibliotecas em que estes livros se encontram habitualmente guardados contrasta com o valor em jogo.
“Meio quilo de ouro, avaliado em cerca de 50 mil euros, é normalmente guardado por 22 homens armados. Dois livros, pelo mesmo valor, ficam numa biblioteca vigiados apenas por uma senhora idosa, muitas vezes sem câmaras”, ironizou Tsirekidze.
A procura de livros raros disparou nos últimos anos. Entre 2022 e 2024, o mercado de raridades russas valorizou-se significativamente, coincidindo com os roubos. Para alguns colecionadores na Rússia, adquirir estas obras é visto quase como um ato de patriotismo.
Um exemplo notório é o de Mikhail Zamtaradze, outro georgiano condenado em junho na Lituânia. Com documentos falsos, requisitou 17 edições raras. Ainda trocou 12 delas por cópias, e desapareceu com todos os originais.
O prejuízo foi estimado em cerca de 600 mil euros. Em tribunal, admitiu ter agido por encomenda de um comprador em Moscovo, do qual recebeu 25 mil euros em criptomoedas.
Parte dos livros roubados foi parar a leilões. A LitFund, casa de leilões de Moscovo, foi acusada de vender volumes com carimbos da Universidade de Varsóvia. Apesar de garantir que só comercializa obras de origem legal, fotografias de lotes publicados no seu site mostravam exemplares marcados.
Apesar das detenções, a Operação Pushkin está longe de terminar. Pelo menos um suspeito aguarda julgamento em França e vários membros da rede permanecem em fuga — assim como alguns dos livros mais valiosos que desapareceram das bibliotecas europeias.