Lobos bebés nunca vão compreender tão bem os seres humanos quanto os cães

O dom de compreender os gestos humanos pode parecer comum, mas é uma habilidade cognitiva complexa rara no reino animal.

De acordo com um novo estudo da Duke University, nos Estados Unidos, publicado a 12 de julho na revista Current Biology, nem os chimpanzés — que são o nosso parente mais próximo — nem os lobos — que são o parente mais próximo do cão — conseguem entender os gestos humanos.

Mais de 14 mil anos de convivência com o ser humano fizeram com que os cães sejam dotados daquilo a que se chamam capacidades da “teoria da mente”; ou seja habilidades mentais que lhes permitem inferir o que os humanos estão a pensar e a sentir em algumas situações.



O estudo, que fez uma comparação entre 44 cachorros e 37 lobos bebés que tinham entre 5 e 18 semanas, apoia a ideia de que a domesticação mudou não só o aspeto dos cães, mas também as suas mentes.

No Centro de Ciências da Vida Selvagem, em Minnesota, os lobos bebés começaram por ser testados geneticamente (para garantir que não eram híbridos de lobo/cão) para, depois serem criados com base na interação humana.

As crias de lobo eram alimentadas à mão, dormiam nas camas dos seus tratadores todas as noites e recebiam cuidados humanos quase 24 horas por dia. Em contraste, os cachorros viviam com a sua progenitora e irmãos, tendo menos contacto humano.

Outra etapa da investigação foi a realização de um teste, no qual a equipa de cientistas escondeu uma guloseima numa de duas tigelas, dando a cada cão ou lobo uma pista para os ajudar a encontrar a comida.

Algumas vezes, os investigadores apontaram e olharam na direção em que a comida estava escondida; outras colocaram um pequeno bloco de madeira ao lado do ponto certo — gesto que os cachorros nunca tinham visto antes.

E os resultados foram impressionantes, escreve a Phys. Mesmo sem treino específico, os cachorros com apenas oito semanas de idade entendiam para onde ir e tinham o dobro da probabilidade de acertar relativamente aos lobos bebés com a mesma idade (e que tinham passado muito mais tempo com pessoas).

Enquanto 17 em cada 31 cachorros foram consistentemente para a tigela certa, nenhum dos 26 lobos bebés fez melhor do que um palpite aleatório. Os ensaios de controlo mostraram que os cachorros não estavam simplesmente a farejar a comida.

Não se trata de que espécie é “mais inteligente”, explicou a autora principal do artigo, Hannah Salomons. Tanto uns como outros provaram ser igualmente competentes em testes de outras capacidades cognitivas, tais como memória ou controlo de impulso motor.

A diferença entre as mentes dos cães e dos lobos fez-se, no entanto, notar na capacidade de leitura das pessoas.

“Há muitas maneiras diferentes de ser inteligente”, disse Salomons.

O estudo também mostrou que os cachorros eram 30 vezes mais propensos a aproximarem-se de um estranho do que os lobos.

“Com os cachorros com quem trabalhamos, se entrarmos no seu recinto, eles juntam-se e querem subir para cima de nós e lamber-nos a cara, enquanto a maioria dos lobos bebés correm para o canto e escondem-se”, contou Salomons.

Além disso, quando a comida é dada aos animais dentro de um recipiente fechado, os lobos tentam, por norma, resolver o problema por si próprios, enquanto os cães passam mais tempo a pedir ajuda às pessoas.

Para Brian Hare, outro autor do artigo, este estudo oferece algumas das provas mais fortes daquilo a que se chama a “hipótese de domesticação”.

Algures entre 12 mil e 40 mil anos atrás, os cães partilharam um antepassado com os lobos e ainda continua a ser um mistério a forma como foram domesticados pelo homem.

Mas há uma teoria de que quando humanos e lobos se encontraram pela primeira vez, apenas os lobos mais amigáveis se teriam aproximado o suficiente para comerem os restos da comida dos humanos. Enquanto os lobos mais tímidos passariam fome, os mais amigáveis sobreviveriam e transmitiriam os genes que os tornavam menos temerosos.

Este comportamento continuaria geração após geração, até que os descendentes dos lobos se terão tornado mestres em compreender as intenções das pessoas com quem interagiam.

“Este estudo solidifica a evidência de que a habilidade social dos cães é um produto da domesticação“, disse Hare, professor de antropologia evolutiva na Duke.

É essa capacidade que faz com que os cães sejam animais de serviço, disse Hare. “É algo para o qual eles nascem preparados para fazer”, continuou.

Tal como os bebés humanos, os cachorros compreendem intuitivamente que quando uma pessoa aponta, está a tentar dizer-lhes algo. Mas o mesmo não acontece para os lobos bebés.

“Os cães nascem com esta capacidade inata de compreender que estamos a comunicar com eles e estamos a tentar cooperar com eles”, concluiu Salomons.

ZAP //

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