LEGO no centro da batalha contra estereótipos de género

LEGO

A coleção LEGO Research Institute

A coleção LEGO Research Institute

A fabricante Lego acaba de lançar três novos personagens: um paleontólogo, um astrónomo e um químico. Nada de muito surpreendente – exceto pelo fato de serem todos mulheres.

Numa época em que se critica o marketing infantil sexista e a produção sem fim de produtos cor-de-rosa para meninas, a nova safra de Lego – o Research Institute (Centro de Investigação, em tradução livre) – pode ser significativa.

Heather Williams, médica e co-diretora do grupo ativista Science Grrl, descreve à BBC que muitas lojas de brinquedos têm uma secção totalmente dedicada às meninas, com bonecas, produtos de artesanato e limpeza. Em contraste, aos rapazes são oferecidos acessórios relacionados com ciência, construção e batalhas. Os estereótipos estão enraizados desde cedo, argumenta.

“As meninas são relegadas a funções de cuidado e os meninos ficam com os personagens protagonistas. Isso não é saudável”, diz.

A empresa dinamarquesa encontra-se, portanto, numa posição estratégica no campo de batalha que se tornou o debate sobre brinquedos e estereótipos de género.

Para além de ser a segunda maior fabricante de brinquedos do mundo – atrás apenas da Mattel -, a Lego é uma empresa associada a uma campanha de infância mais saudável.

Salão de beleza

A Lego foi fortemente criticada pela série Lego Friends, lançada há dois anos, destinada a raparigas.

As personagens eram cinco mulheres que vivem na região fictícia de Heartlake e incluía um salão de beleza, um veterinário, piscina e carro descapotável.

Os críticos atacaram as cores pastel e a vida de lazer das personagens, e ainda o facto de a série não ter elementos de “construção” de ensino equivalentes aos produtos destinados aos rapazes.

Em fevereiro deste ano, uma menina de sete anos de idade, Charlotte Benjamin, escreveu uma carta furiosa à Lego – que foi amplamente divulgada – sobre a falta de personagens femininos fortes.

A nova série de cientistas foi lançada na semana passada e já esgotou. Outro lote deve ser disponibilizado no final deste mês.

A empresa nega que os novos personagens tenham sido projetados para apaziguar críticas feministas e ressalta que a nova série foi uma ideia votada pelo público.

A coleção Research Institute foi proposta pela geocientista Ellen Kooijman e apoiada numa votação pública no site Lego Ideas, que reúne apoio dos fãs para projetos que queiram ver concretizados.

Kooijman – ou Alatariel, como é conhecida na comunidade Lego – escreveu que queria combater “uma visão masculina/feminina distorcida e uma representação bastante estereotipada das figuras femininas”. E está satisfeita com o resultado, já que a Lego não alterou em quase nada os projetos iniciais – embora tenha acrescentado maquilhagem, algo que “ela desencoraja fortemente” no laboratório. No entanto, no geral, não tem quaisquer objeções aos ajustes feitos para as crianças.

Calças em vez de glamour

Mas o que as feministas pensam destas mulheres cientistas em miniatura?

Becky Francis, professora de educação e justiça social do King’s London College, que estava “muito, muito desapontada” com a coleção Lego Friends, é fã.

A nova coleção mostra mulheres a fazer trabalhos intelectualmente exigentes, e Francis acredita que a Lego teve que “pensar muito” para criar os personagens com a aparência correta. Os bonecos vestem calças e têm um ar prático, em vez de glamour.

À primeira vista, a professora torceu o nariz ao batom utilizado e pelo fato de uma delas usar um lenço cor-de-rosa. No entanto, acaba por ser uma maneira útil de banir a imagem “sabichona” de mulheres que fazem trabalhos sérios, argumenta.

Outros dizem que a Lego deve retornar à abordagem das décadas de 1970 e 1980 e não segmentar seus personagens por género. Um artigo publicado no início deste ano no Huffington Post gerou bastante interesse ao comparar os cartazes de marketing das décadas anteriores com o marketing desenvolvido para a coleção Lego Friends.

No passado, os cartazes mostravam raparigas em roupas largas a segurar montagens complicadas com chamadas como “Vê o que eu construí com Lego!” As feministas argumentam que a ênfase passou da construção e montagem das peças para o cabelo e a beleza.

Eram brinquedos de construção puros, bastante inclusivos“, explica Becky  Francis. “Mas ao longo dos anos, à medida que começou a produzir personagens de filmes e produtos licenciados, eles fizeram mais marketing com os rapazes e deixaram as raparigas de lado.”

Foi nesse contexto que a coleção Lego Friends foi lançada – e por isso o brinquedo causou mais polémica, argumentam as feministas.

Raparigas e rapazes a brincar juntos… ou não?

Megan Perryman, uma militante da Let Toys Be Toys (Deixe que os brinquedos sejam brinquedos, em tradução livre), diz que as coleções Lego tinham personagens femininos positivos, com os da brigada da polícia e do corpo de bombeiros. Mas trata-se de proporções.

“Ainda há muito mais figuras masculinas em papéis de ação. E a nossa principal preocupação com os brinquedos Lego tem que ver com o marketing desenvolvido por eles e o facto de que raramente colocam raparigas e rapazes a brincar com o mesmo brinquedo, como acontece na vida real.”

David Robertson, um ex-professor de inovação da Lego do Instituto da Suíça para o Desenvolvimento de Planejamento, diz que as críticas são injustas.

“Se a Lego ainda estivesse comercializando os produtos como eles costumavam fazer, eles teriam falido.”

Em seu livro Brick by Brick (Tijolo por Tijolo, em tradução livre), Robertson descreve o medo da empresa no final dos anos 1990 de que os Lego se tornassem um brinquedo obsoleto.

As patentes estavam a expirar e era necessária uma nova abordagem. Diante disso, a empresa focou em histórias, o que na prática significava criar produtos licenciados, como o Star Wars e Harry Potter.

Hoje, a Lego é a empresa de brinquedos que mais cresce no mundo, diz Robertson, para quem a coleção Lego Friends era justificável. O especialista explica que a empresa tornou-se demasiadamente focada em rapazes e era necessário entender que tipos de personagens atrairiam as raparigas.

“Se você acredita que o Lego é um brinquedo saudável para as crianças brincarem, por que não fazer histórias diferentes que atraem pessoas diferentes?”

No velho debate sobre a forma como as crianças são criadas, o humilde tijo Lego tornou-se um símbolo poderoso.

ZAP / BBC

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