O legado “fantasma” de Hiroshima foi finalmente encontrado

Depois da detonação da bomba de Hiroshima, 90% dos edifícios da cidade japonesa desapareceram numa questão de segundos. A questão é: para onde foi todo o alumínio, mármore, borracha e aço inoxidável que formavam as construções?

Um estudo recente parece ter encontrado partes destes retos num lugar surpreendente: na areia da praia, em forma de partículas esféricas vítreas milimétricas raras.

Mario Wannie, geólogo e um dos principais autores do estudo publicado na revista Anthropocene, foi quem descobriu estes materiais em 2015. Wannier viajou por todo o mundo para examinar a areia de diferentes lugares, catalogando cuidadosamente a sua composição, separando cada grão e analisando-o em detalhe.

No entanto, na areia da praia da península de Motoujima, a cerca de dez quilómetros da catástrofe, encontrou partículas vítreas muito estranhas. “Vi centenas de amostras de praias no sudeste da Ásia e posso distinguir imediatamente grãos minerais de partículas criadas por animais ou plantas”, disse, citado pela ABC. “Mas havia outra coisa. Partículas aerodinâmicas, vítreas e arredondadas que me lembraram as esferas que vi nas amostras pertencentes ao Cretáceo-Terciário”.

O investigador referia-se às partículas encontradas na área da Península de Yucatán, onde há 66 milhões de anos caiu o meteorito que terá causado a extinção dos dinossauros. De acordo com vários estudos, o impacto fez com que a superfície sólida ficasse “liquificada”. Desta forma, chegou à atmosfera, onde se formaram gotas de material vítreo, que finalmente caíram no chão.

Mario Wannier / Anthropocene

Contudo, as partículas de Hiroshima não eram totalmente iguais: as esferas de entre 5,5 e 1 milímetros de largura pareciam estar fundidas umas com as outras, algumas tinham uma espécie de “cauda”, o material era parecido com borracha e, além disso, pareciam ter um ou várias camadas de vidro ou sílica.

Assim, as partículas foram levadas para analisar no laboratório da Universidade da Califórnia em Berkeley (EUA) e Wannier voltou ao Japão para recolher mais amostras de areia. Descobriu que cada quilo continha entre 12 e 23 gramas de partículas raras, o que representa uma percentagem entre 0,6 e 2,5% de toda a areia recolhida – cerca de 36 mil toneladas.

Foi aqui que o geólogo começou a pensar que poderia estar relacionado com a explosão da bomba atómica que devastou Hiroshima na manhã de 6 de agosto de 1945. Naquele dia, 70 mil pessoas morreram – embora a contagem tenha subido para 145 mil nas semanas seguintes – e 90% dos edifícios foram demolidos ou seriamente danificados.

“De longe, é o pior evento causado pelo homem. Depois da surpresa de encontrar as partículas, a minha grande pergunta foi: existe uma cidade e, no momento, não há nada. Onde está a cidade? Onde está todo o material? É um tesouro ter descoberto isto”, referiu Wannier.

O laboratório de Berckeley observou uma ampla variedade na composição química das amostras, incluindo concentrações de alumínio, silício e cálcio; partículas microscópicas de estruturas cristalinas. Outros eram compostos principalmente carbono e oxigénio.

“Alguns deles parecem-se com o que temos de impactos de meteoritos, mas a composição é bem diferente”, explica Rudy Wenk, professor de mineralogia da Universidade da Califórnia. “Havia formas bastante incomuns: ferro e aço puro. Alguns tinham a composição de materiais de construção “, disse.

Foi determinado que as partículas se formaram sob condições extremas, com temperaturas superiores a 1.800ºC, como demonstrado pela montagem de cristais de anortita e mulita que os investigadores identificaram. Observaram que a microestrutura única das partículas estudadas e o grande volume de resíduos de fusão presentes também fornecem fortes evidências de como foram formados. “A hipótese da explosão atómica é a única explicação lógica para a sua origem”.

Public Domain

Hiroshima antes e depois da explosão da bomba atómica

De acordo com a investigação, as partículas ter-se-ão formado acima e em redor da bola de fogo ascendente da explosão. Os materiais borbulharam líquido a alta temperatura e misturado neste ambiente turbulento imediatamente antes de arrefecer e condensar e, em seguida, precipitou-se em forma de chuva.

A teoria é reforçada pelo facto de a composição de partículas de detritos corresponder estreitamente com os materiais que eram comuns em Hiroshima, no momento do bombardeamento, tal como o mármore, aço inoxidável e borracha.

Agora, Wannier vai analisar as amostras de solo e procurar mais restos de detritos nas águas subterrâneas profundas. Este estudo pode ser uma oportunidade para entender o que acontece aos materiais sob condições extremas e ver se combinam com outras amostras recolhidas na área de Nagasaki, onde a segunda bomba caiu.

ZAP //

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