Jovens universitários são cobaias de fármacos por 400 euros

Em Portugal, a participação de voluntários não doentes em ensaios clínicos tem uma remuneração média entre 300 a 400 euros e atrai mil participantes por ano, todos jovens.

A compensação financeira é intencionalmente moderada e faz parte do conjunto de regras impostas para evitar a profissionalização das cobaias. Além do pagamento pouco atrativo, a participação é limitada a dois ensaios por ano, que no total não podem exceder dois salários mínimos – 1200 euros. Pode parecer que se trata de dinheiro rápido, mas não é dinheiro fácil, de acordo com o Expresso.

Integrar a experimentação de uma substância farmacológica na fase clínica inicial e não raras vezes com os primeiros testes em humanos, como nos ensaios de fase I, requer estar hospitalizado vários dias por diversas vezes, ser submetido a exames invasivos e fazer múltiplas deslocações à unidade onde decorre a experiência. Na prática, condicionalismos que implicam ter tempo livre e capacidade de entendimento sobre o que vai ser feito e pode correr mal. Por isso, atrai sobretudo jovens.

“A maior parte dos voluntários são estudantes universitários, porque têm disponibilidade e entendem melhor a informação do ensaio”, explica Luís Almeida, fundador do único centro, privado e no Norte, que realiza testes com participantes saudáveis.

Há também recém-formados ainda sem emprego que aproveitam para ganhar algum dinheiro. “Não é eticamente aceitável pagar um montante excessivo para não promover a participação, mas sendo uma pessoa saudável que se submete a um ensaio com objetivos para o promotor e para a sociedade é igualmente ético que seja compensada.”

O investigador explica que “o valor é calculado conforme o tipo de participação e aprovado pela Comissão de Ética para a Investigação Clínica (CEIC) por ser justo, por não exercer coerção”. Em casos de ensaios prolongados, por muitos meses, poder-se-ia ultrapassar o limite, mas teria de ter aprovação da CEIC. “O ensaio normal tem mais ou menos dois períodos de internamento por um a dois dias, várias deslocações e uma compensação de 300 a 400 euros.” Não é muito, mas são muitos a aderir.

A funcionar há sete anos, a Blueclinical faz 25 ensaios por ano, com mil participantes saudáveis. “Queremos passar para o dobro. A nossa unidade de ensaio funciona no Hospital da Prelada, no Porto. Já ocupamos um piso e planeamos ocupar outro”, adianta Luís Almeida. Para a maioria da população, a atividade é de alto risco, mas o médico desvaloriza.

Temos um seguro para cada ensaio e as seguradoras atribuem o mesmo risco do que a uma viagem de avião, portanto baixo. Há uma razoável segurança porque possuímos informação dos testes em animais, in vitro e nos modelos em computador e todo o processo é feito para mitigar o risco, com as equipas preparadas para prevenir tudo o que possa acontecer e atuar.”

O centro é uma referência. Além da experimentação por conta própria, garante apoio em 80% dos ensaios com doentes em Portugal, pelo universo académico ou pelos hospitais do Serviço Nacional de Saúde (SNS).

Entre os casos emblemáticos está o primeiro ensaio em humanos do primeiro fármaco oncológico português. A molécula, Redaporfin, foi descoberta pela Universidade de Coimbra para tumores da cabeça e pescoço e testada no IPO-Porto em doentes de todo o país. No caso do cancro, os ensaios são obrigatoriamente com doentes devido à toxicidade das substâncias, eticamente inaceitável para pessoas saudáveis.

“O ensaio teve início em 2015, com 13 doentes, e está a avançar para a fase II. Há dias fomos autorizados a incluir mais sete doentes e vamos começar a recrutar mais seis. Do grupo inicial há um doente vivo, graças ao estudo”, explica Júlio Oliveira, investigador responsável pelas fases iniciais dos ensaios clínicos no IPO-Porto.

“Cada vez mais, os medicamentos são para alvos específicos e têm potencial para beneficiar os doentes, pelo que todos os centros fazem um esforço para desenvolver esta área. Estes fármacos são testados em doentes que já esgotaram as opções terapêuticas convencionais e há grande recetividade.”

Júlio Oliveira não tem dúvidas de que “os ganhos são a multiplicar”, pois “o doente tem acesso, e o SNS financiamento para o estudo e para o medicamento”.

ZAP //

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