Japão descobriu um depósito “semi-infinito” de terras raras que pode abastecer o mundo durante séculos

Tor Paulin / Flick

Itrío, um mineral de terra rara

No início de 2018, uma equipa de investigadores descobriu um depósito de minerais de terras raras na costa do Japão que poderia abastecer o mundo durante séculos, de acordo com um estudo.

A publicação, publicado na revista Nature em abril de 2018, dá conta que o depósito mineral contém 16 milhões de toneladas de metais valiosos.

Os minerais de terras raras são amplamente utilizados nos dias de correm, sendo utilizados desde as baterias dos smartphones até aos automóveis elétricos. Por definição, estes minerais contêm um ou mais dos 17 elementos químicos metálicos de terras raras. Na tabela periódica, as terras raras posicionam-se na segunda linha a partir da parte inferior, indo do elemento com o lantânio (número atómico 57) ao lutécio (71), abrangendo ainda o escândio (21) e o ítrio (39).

Os elementos que constituem o grupo das terras raras foram inicialmente isolados sob a forma de óxidos, recebendo então a designação de “terras”, à época a denominação genérica dada aos óxidos da maioria dos elementos metálicos. Por apresentarem propriedades muito similares e por serem de difícil separação, foram considerados “raros” – tendo daí resultado a denominação terras raras, ainda hoje utilizada.

Apesar de serem bastante abundantes na crosta terrestre, estes elementos são, por norma, amplamente dispersos e, por esse motivo, é raro encontrar uma quantidade substancial dos elementos agrupados como minerais extraíveis, tal como explicam os Serviços Geológicos dos Estados Unidos (USGS).

Atualmente, existem apenas algumas áreas economicamente viáveis ​​onde estes minerais podem ser explorados e, por norma, a extração das terras raras é muito dispendiosa.

A China controla de forma firme e apertada grande parte do fornecimento mundial destes minerais há décadas. A supremacia da China nesta área obrigou o Japão – um gigante da fabricação de eletrónicos – a confiar nos preços ditados pelo seu vizinho.

Descoberta pode mudar a economia global

O depósito recentemente descoberto é suficiente para “fornecer estes metais numa base semi-infinita para o mundo”, escreveram os autores do estudo. Há ítrio suficiente para atender às necessidades globais durante 780 anos, disprósio para 730 anos, európio para 620 anos e térbio para cerca 420 anos.

O “tesouro” de terras raras está localizado na Ilha Minamitori, a cerca de 1.850 quilómetros a sudeste de Tóquio. A área está dentro da zona económica exclusiva do Japão, ou seja, a região insular tem direito exclusivo sob os recursos da zona.

“É uma mudança de paradigma para o Japão”, disse Jack Lifton, fundador da empresa de pesquisa de mercado Technology Metals Research, ao The Wall Street Journal. “A corrida para desenvolver estes recursos está bem encaminhada”, frisou.

O Japão começou a procurar os seus próprios depósitos minerais de terras raras depois de a China ter retido carregamentos destas substancias durante uma disputa por ilhas que ambos os países reivindicam como suas, noticiou a agência Reuters em 2014.

Em 2010, a China reduziu as cotas de exportação de minerais de terras raras, elevando os preços em até 10%, de acordo com o The Journal. Posteriormente, a China foi forçada a  exportar mais minerais depois de a disputa chegar à Organização Mundial do Comércio.

Extração é o grande desafio para o Japão

Os minerais de terras raras podem ser formados pela atividade vulcânica, mas muitos dos minerais existentes no nosso planeta foram formados inicialmente por explosões de supernovas ainda antes da existência da Terra.

Quando o planeta foi formado, os minerais foram incorporados nas partes mais profundas do manto da Terra, uma camada de rocha abaixo da crosta. Como a atividade tectónica moveu porções do manto à sua volta, os minerais de terras raras encontraram o seu caminho, aproximando-se da superfície. O intemperismo – conjunto de processos e fenómenos que levam à desintegração das rochas em sedimentos ao longo de milhões de anos – espalham depois estes minerais raros por todo o planeta.

De momento, a única entrave que impede o Japão de usar o depósito recém-descoberto para dominar o mercado global de minerais de terras raras é o grande desafio que a sua extração implica. Tal como mencionado acima, este processo é caro e, por isso, são necessárias mais pesquisas para encontrar métodos mais baratos, acrescentou Yutaro Takayau, cientista que liderou a investigação.

Os minerais de terras-raras continuarão, muito provavelmente, a representar a espinha dorsal de alguns dos setores que mais crescem na economia global da tecnologia. O Japão tem agora a oportunidade de controlar uma grande fatia da oferta global, forçando os gigantes que fabricam produtos eletrónicos, como a China e os Estados Unidos, a comprar os minerais nos termos impostos pelo Japão.

PARTILHAR

12 COMENTÁRIOS

    • Por isso a necessidade de investimento em pesquisa desses elementos. No Brasil, temos algumas boas toneladas a serem potencialmente exploradas, onde poderíamos chegar a ser também exportadores. Tais elementos químicos são essenciais em inúmeros materiais estratégicos da alta tecnologia: celulares, TVs, materiais bélicos, geradores de energia, lentes, telecomunicações e área médica. Uma nação desenvolvida deve desenvolver suas próprias tecnologias, ao invés de ficar pagando preços exorbitantes de quiser tê-las.

  1. (…)acrescentou Yutaro Takayau, cientista que liderou a instigação.(…)

    Onde se lê instigação presumo que se pretenda ler investigação.

    Obrigado pelo artigo.

  2. Feliz feliz!!!
    O Japão é um espaço pequeno mas de grandes méritos.
    Feliz pq terão uma nova área para manter sua economia. Terras extraíveis.
    Um dia chegamos na mentalidade deles tbm. Não temos necessariamente que fazer isso ou aquilo que outros países fazem. Temos nossas próprias potencialidades. A questão é como fazemos e o que queremos.

Responder a . Cancelar resposta

Afinal, Vénus pode não ser tão semelhante à Terra como pensávamos

Uma nova investigação questiona a habitabilidade de Vénus, planeta que os cientistas consideram há pouco tempo numa outra investigação poder ter um clima habitável semelhante ao da Terra. De acordo com a nova investigação, cujos …

Há gelo no polo sul da Lua e pode ter muitas fontes

Um novo estudo sugere que o gelo encontrado na superfície lunar pode ter milhares de milhões de anos, além de ter surgido de diferentes fontes. O estudo, publicado recentemente na Icarus, sugere que a maioria do …

A Evolução mostra que podemos ser a única forma de vida inteligente no Universo

As reduzidas probabilidades que acompanham a nossa evolução ao longo da história podem ser uma pista que talvez sejamos a única forma de vida inteligente no Universo. Será que estamos sozinhos no Universo? Tudo se resume …

A China está a usar a educação como arma para controlar o Tibete

A China quer obrigar crianças tibetanas a abandonarem as escolas da região e mudarem-se para escolas chinesas. O objetivo, segundo uma especialista, é "tirar o tibetano da criança". A batalha geopolítica entre a China e o …

Revelada explosão violenta no coração de um sistema que alberga um buraco negro

Uma equipa de astrónomos, liderada pela Universidade de Southampton, usou câmaras de última geração para criar um filme com alta taxa de quadros de um sistema com um buraco negro em crescimento e a um …

"É altura de dizer basta". Sporting corta com as claques

O Sporting rescindiu “com efeitos imediatos” os protocolos que celebrou em 31 de julho com a Associação Juventude Leonina e com o Diretivo Ultras XXI – Associação, anunciou hoje o clube, devido à “escalada de …

Poluição atmosférica associada a abortos espontâneos

Elevados níveis de poluição atmosférica foram associados a abortos espontâneos num estudo feito com mulheres grávidas a viver e trabalhar em Beijing, na China. A China é um dos países que mais sofre com a poluição …

Empresas espanholas dominam obras públicas na ferrovia

As empresas espanholas dominam as obras públicas na ferrovia em Portugal, ascendendo a sua quota a 70%, avança o Expresso na sua edição deste sábado. Para presidente da Associação de Empresas de Construção e Obras …

Cada vez mais mulheres denunciam abusos médicos durante o parto

Um número crescente de mulheres tem vindo a denunciar casos de abuso durante o trabalho de parto. No entanto, pouco está a ser feito para mudar isto. Durante o parto, as mulheres ficam numa posição vulnerável …

Já podemos explorar "Melckmeyd", naufrágio holandês do século XVII

Nas profundezas do Oceano Atlântico, perto da costa da Islândia, encontram-se os destroços de um navio holandês que afundou há 360 anos, no qual agora podemos "mergulhar" graças a uma experiência de realidade virtual. Quando a …