O jantar diário em família é uma tradição antiga – mas pode ter os dias contados

Seja por falta de tempo, stress ou para evitar birras dos filhos, há cada vez mais famílias que estão a abandonar a tradição de jantar juntos todos os dias.

É uma imagem típica das famílias tradicionais – ter pais e filhos reunidos à volta da mesa para jantarem juntos e falarem sobre o seu dia. No entanto, para muitos pais apenas a ideia de chegar a casa depois do trabalho e ainda ter de preparar todo um ritual de jantar com a família já é cansativa.

“Pessoalmente acho que há algo de mágico quando as pessoas se sentam a comer a partilham os seus dias uns com os outros”, revela Dianne Neumark-Sztainer, investigadora do Project EAT e autora do livro “I’m, Like, SO Fat!”: Helping Your Teen Make Healthy Choices about Eating and Exercise in a Weight-Obsessed World, ao Huffington Post.

Apesar de se confessar uma apoiante do “efeito protector” que jantar em conjunto traz às famílias, a investigadora também reconhece que a busca de um ideal familiar pode não ser realista e causar stress ou a sensação nos pais de que estão a falhar. “A atmosfera à mesa é importante. Se houver discussões, ou de houver comentários sobre a quantidade de comida que está ou não a ser consumida – isso não faz bem a ninguém”, explica.

A médica Katja Rowell realça a mensagem mediática que censura as mães que não cumprem à risca este ideal.

“A mensagem tem-se tornado “Tens de cozinhar e comer o jantar com a família, todos os dias”. A nossa sociedade coloca demasiada pressão nos ombros das mães, enquanto oferece pouco apoio. A pressão de fazer o jantar de família perfeito pode acabar por nos fazer sentir derrotados dar-nos menos vontade de comermos juntos”, afirma ao Huff Post.

Algumas famílias estão a abandonar o ritual

Seja por causa da falta de tempo ou por ser algo que não se enquadra na rotina familiar, há já algumas famílias que estão a abandonar a tradição. No artigo “5 óptimas razões para não ter um jantar de família todas as noites”, a autora Sara Ohlin explica porque decidiu optar por esta alternativa com o marido algumas vezes por semana.

A primeira razão é a diminuição do stress, já que ao fazer algo para os filhos primeiro de que eles gostem, acaba-se a “batalha nocturna de os fazer comer a refeição que fiz para todos”, o que é um “enorme suspiro de alívio”.

Deixa também de haver queixas sobre o jantar e as crianças comem tudo – até os vegetais – sem se queixarem, o que descreve como “o sonho dos pais tornado realidade“. É também mais divertido para as crianças, que podem brincar enquanto jantam sem terem de recear ser repreendidas pelos pais. “Eles riem-se e aproveitam o jantar juntos. Às vezes sentamo-nos com eles, outras vezes deixamos que eles tenham o seu tempo”, aponta.

Para além de ser mais divertido para as crianças, os pais podem também aproveitar um jantar a sós. “É o tempo para falarmos um com o outro, de adulto para adulto. Não estamos a pedir a alguém que coma a salada, outra vez, ou que pare de catar os macacos do nariz, outra vez”, escreve Sara Ohlin.

Os pais ganham também uma oportunidade de voltar aos tempos em que ainda não tinham filhos e aproveitar uma noite romântica sem a presença deles. “Cozinhar para a família e tentar agradar a todos pode tornar-se uma tarefa, até para aqueles que gostam de cozinhar. Então fazer uma pausa e saber que vou ter esse tempo especial só com o meu marido até a meio da semana é mais do que uma pausa, é um prazer”, remata.

A jornalista Lousie Glesson concorda com Sara Ohlin, e detalhou na crónica “Desistimos do Jantar de Família – e eu Sinto Zero Culpa” as razões para a sua escolha, e os entraves que as deslocações de regresso do emprego, ter uma família grande e ter um marido que faz viagens regulares de trabalho colocaram a que pudesse manter a tradição

“Tinha lido todos aqueles artigos sobre “recomendações dos especialistas” e senti que tinha de ter três braços para conseguir gerir tudo. Senti pressão para criar o jantar familiar ideal, mas ficava miserável e stressada na hora em que nos sentávamos todos. A sensação positiva que eu queria que os meus filhos sentissem não existia. Ninguém se estava a divertir”, revela ao Huff Post.

A jornalista diz que tinha “caído na armadilha” de achar que a única opção é que toda a gente coma junta a mesma comida. “Na nossa casa, a mesa é o lugar de reunião, não é uma prisão. Não temos de seguir alguma fórmula que um especialista tenha criado, criamos as nossas próprias tradições“, explica.

“É o tempo de ligação que importa”

A psicóloga Leah B. Samler aponta que o jantar em família é muitas vezes pouco realista e que optar por refeições mais relaxadas é uma alternativa: “As famílias podem comer pizza às sextas à noite ou ter uma refeição ao fim-de-semana em que outros familiares são convidados. Isso pode ajudar a melhorar a capacidade de prestar atenção, partilhar tarefas, preparar a comida e reservar tempo para as relações”.

Katja Rowell concorda, notando que às vezes “uma refeição especial a ver um filme ou piquenique num parque é a única coisa de que a família precisa”. “Talvez dois irmãos possam comer depois do futebol com um dos pais, enquanto o terceiro come mais tarde quando o outro pai chegar a casa. Deve haver flexibilidade“, recomenda, rejeitando a ideia de que os pais devem ser “polícias da comida” dos filhos e sublinhando que as horas de refeição devem ser sobre a ligação da família.

Esta opinião vai ao encontro da conclusão de Bruce Feiler, autor de um livro sobre a felicidade das famílias, que afirma que apenas 10 ou 15 minutos de conversa a qualquer hora do dia trazem o mesmo benefício que jantar em família. “A ideia é que o tempo em família é que é importante. É o tempo de ligação que importa, não é ter essa ligação à mesa de jantar”, conclui.

  Adriana Peixoto, ZAP //

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4 COMENTÁRIOS

  1. Que a sociedade está cada vez mais irresponsável e mais individualista, lá isso é verdade, resta saber até que ponto o dinheiro suportará todos estes vícios e como a vida familiar terá sentido como tal!

    • Concordo plenamente. Qualquer dia irão morar na mesma casa evitando encontrar-se uns com os outros e se tornarão estranhos dentro da própria família.

      • Eu penso que já acontece com alguns, caminha-se para o suicídio humano a passos largos, o egoísmo só terminará num lar de idosos vencidos pela velhice ou doença e quando já nada haverá a remediar!

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