Itália. Famílias das vítimas de covid-19 querem indemnização do governo

Mário Cruz / Lusa

Um caso apresentado por mais de 500 famílias de vítimas de covid-19, que buscam um total de 100 milhões de euros em compensação do governo italiano, chegou esta quinta-feira ao tribunal.

De acordo com o Guardian, os advogados que representam os familiares das vítimas entregaram em tribunal um dossier com mais de 2.000 páginas, incluindo centenas de depoimentos e evidências de “negligência sistémica” por parte das autoridades italianas, que supostamente permitiram a morte de milhares de pessoas.

“A Itália demorou a introduzir medidas para conter o surto de covid-19”, disse ao Guardian Consuelo Locati, representante legal das famílias, acrescentando: “Quando finalmente o fizeram, essas medidas não eram adequadas”.

Quando a pandemia atingiu Itália, o país tinha um plano de combate antigo e inadequado, que não foi atualizado quando a Organização Mundial de Saúde (OMS) e o Centro Europeu de Prevenção e Controle de Doenças estabeleceram novas diretrizes.

Um relatório de 65 páginas, compilado Pier Paolo Lunelli, um general reformado do exército, revelou que dezenas de milhares de mortes podem ser atribuídas à falta de protocolos antipandémicos eficientes.

“O plano pandémico e as estratégias postas em prática para impedir as infeções não levaram em consideração as deficiências estruturais dos hospitais e do sistema de saúde italiano”, indicou. “Este processo põe em causa as responsabilidades dos políticos e das instituições e pede que assumam as suas responsabilidades perante os cidadãos que foram chamados a proteger e cujos direitos violaram, tanto à saúde como à vida”, sublinhou.

O dossier também inclui as últimas descobertas, que estão a ser examinadas pelo Ministério Público italiano, nas quais é sugerido que, devido ao não cumprimento das diretrizes de vigilância epidemiológica, o coronavírus se estava a espalhar pelo país semanas antes de o primeiro caso de transmissão local ser oficialmente detetado.

Segundo os registos médicos, no final de janeiro de 2020, um homem na casa dos 50 anos foi internado no hospital de Bergamo, Lombardia, com pneumonia bilateral. Essa província foi severamente atingida durante a primeira vaga da pandemia. Para os especialistas, esta informação “podia ter mudado o cronograma da pandemia em Itália”.

Desde o início, os médicos afirmavam que o vírus estava a circular no país semanas antes de ser oficialmente detetado. Alguns profissionais de saúde da região da Lombardia relataram ter detetado casos de “uma estranha pneumonia” no final de dezembro de 2019. Apesar disso, as instituições ignoraram os seus apelos.

Os advogados defendem que muitas mortes poderiam ter sido evitadas. Na primeira audiência, que começou esta quinta-feira em Roma, dezenas de representantes das famílias das vítimas foram forçados a esperar fora do tribunal, devido às restrições ainda em vigor no país.

Em Bergamo, estão a ser investigadas suspeitas de negligência criminosa por parte das autoridades italianas no tratamento da pandemia. Um ex-diretor do Ministério da Saúde dessa região e cinco gestores, atualmente sob investigação, negaram qualquer delito.

A Itália foi o primeiro país ocidental a ser atingido pela pandemia e tem o segundo maior número de mortes relacionadas à covid-19 (127.718 na quarta-feira) na Europa, depois do Reino Unido.

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