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País “esqueceu-se de que existe engenharia”. Especialistas criticam recomendação da DGS para ventilação nas escolas

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Recomendações da Direção-Geral da Saúde (DGS) sobre a ventilação nas escolas ficam aquém do que seria necessário, dizem especialistas.

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Tendo em conta que a covid-19 se transmite por aerossóis, é importante que exista uma boa ventilação nos locais fechados — e as escolas não são exceção.

“As recomendações [da DGS] apontam para ventilar os espaços, ter portas e janelas abertas, mas sem medições que comprovem se a ventilação está a ser eficaz ou não”, diz Célia Alves, cientista da Universidade de Aveiro que faz investigação sobre aerossóis atmosféricos.

Esta falta de medição da eficácia da ventilação será problemática sobretudo nos meses de Inverno, continua a investigadora, em declarações ao jornal Público.

“Quando está frio e a ventilação acarreta bastante desconforto para os ocupantes, não sei se esta medida será posta em prática”, deixa a dúvida.

Garantir a monitorização do CO2 e a boa ventilação e climatização adequada nos locais interiores” é uma das recomendações da DGS para o controlo da transmissão da covid-19 em meio escolar, medidas que foram discutidas esta quinta-feira na reunião no Infarmed.

Mesmo sem mecanismos de ventilação adequados e eficazes, existem “soluções alternativas, por exemplo, a abertura de portas e janelas ou, no limite, a interrupção transitória da atividade humana no local”, lê-se no documento.

Mas há especialistas que discordam desta recomendação da Direção-Geral da Saúde.

“Aquilo de que senti falta nas recomendações do referencial para as escolas da DGS é de algo expresso numa frase conhecida por todas as pessoas que trabalham em qualidade do ar interior – ‘o que importa é a dose’. A dose é o que define o perigo que se corre”, considera Manuel Gameiro da Silva, professor da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra e vice-presidente da Federação das Associações Europeias de Aquecimento, Ventilação e Ar Condicionado.

“Para a dose contribuem duas coisas: a concentração do contaminante e o tempo de exposição”, continua.

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“Há uma frase que diz que se deve assegurar uma boa ventilação dos espaços ‘preferencialmente com ventilação natural’. Isto não faz sentido”, critica.

“Temos uma diversidade muito grande de edifícios escolares, e alguns não têm sistemas de ventilação mecânica, mas se tiverem, essa deve ser a preferência, porque tem capacidade para assegurar caudais de ventilação mais elevados e de forma constante”, diz o investigador.

A taxa de renovação do ar calcula-se dividindo o caudal de ar novo pelo volume, explica, e a mediana da taxa de renovação para a ventilação natural é entre dois e três por hora.

“Mas a própria DGS recomenda que se tente obter taxas de renovação da ordem de seis. Dificilmente isso é conseguido com ventilação natural”, afirma Gameiro da Silva.

“Quando temos edifícios com condições para ter mais ventilação, devemos utilizá-la. Portanto, dizer que preferencialmente vamos utilizar ventilação natural não é correto”, diz.

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“Esta frase espelha que o país, em relação à gestão destas coisas, esqueceu-se de que existe engenharia”, afirma.

  ZAP //

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