Há um país europeu que está a “importar” padres da Índia

O clero irlandês está a ficar cada vez mais envelhecido e as novas gerações parecem menosprezar a profissão. Por isso, a Igreja procura soluções no exterior.

Há dois anos, o padre Francis Xavier Kochuveettil aterrou no aeroporto de Dublin, na Irlanda, e foi subitamente confrontado com o ar irlandês. A temperatura naquele dia não ultrapassou os 2ºC.

O choque foi especialmente intenso porque Kochuveettil havia acabado de chegar de Kerala, um Estado no sul da Índia onde as temperaturas oscilam entre os 20ºC e os 30ºC ao longo do ano.

Agora, o padre de 41 anos já se adaptou ao clima frio do país, ao conviver com católicos na paróquia de Shannon, no sudoeste da Irlanda. Kochuveettil é um dos quatro padres da diocese de Cochin, na Índia, que atualmente estão na diocese irlandesa de Killaloe.

Estes padres, assim como outros vindos do exterior, estão a ajudar a preencher os espaços neste país europeu, uma vez que o clero irlandês está envelhecido e as novas gerações parecem menosprezar a profissão.

O número de padres na Irlanda está a cair vertiginosamente desde 1959, de acordo com um estudo conduzido pelo sociólogo Brian Conway, da Universidade Nacional da Irlanda.

Conway diz que esta tendência teve breves reviravoltas, nomeadamente depois da visita oficial do Papa João Paulo II ao país, em 1979, e logo antes da eclosão de escândalos na Igreja no fim dos anos 80 e no início dos anos 90.

No ano passado, apenas cinco homens se matricularam no principal seminário de formação de padres da Irlanda, o colégio Saint Patrick, em Maynooth.

O número indica que o futuro da profissão está em risco, especialmente se se considerar que a idade média dos padres irlandeses está entre os 70 anos. Por isso, os líderes da Igreja Católica no país começaram a “recrutar” sacerdotes no exterior.

O grande declínio

No ano passado, o jornal Irish Examiner publicou um estudo sobre o estado das dioceses irlandesas, evidenciando as dificuldades que a Igreja Católica enfrenta. Na diocese de Kerry, por exemplo, havia apenas 54 padres para 53 paróquias. Dos 54 padres, só seis tinham menos de 50 anos.

Em 2017, o arcebispo de Dublin, Diarmuid Martin, disse num discurso que 57% dos padres da cidade tinham mais de 60 anos. O número deve subir para 75% até 2030. Estima-se que apenas um padre com menos de 40 anos entrará no clero irlandês a cada ano até 2030.

Esses índices fizeram com que o padre Finton Monahan, bispo da diocese de Killaloe, procurasse parcerias com bispos em Kerala, onde tem havido mais adesões ao clero. Desde então, o bispo passou a espalhar padres do Estado indiano por paróquias na sua diocese.

Quatro padres são de Kerala — Kochuveettil e os padres Rexon Chullickal, Joy Micle Njarakattuvely e Antony Puthiyaveettil — e um, Dariusz Plasek, é da Polónia. A Irlanda também tem importado padres da Roménia, Nigéria, Uganda e Filipinas.

O declínio do clero irlandês é um reflexo natural das mudanças demográficas no país. Tal como muitos outros países europeus, a Irlanda está a envelhecer, enquanto a sua taxa de natalidade cai.

Segundo o censo de 2016, o número de pessoas com mais de 65 anos cresceu 19,1% desde 2011, ritmo duas vezes maior do que entre pessoas dos 15 aos 64 anos. Dados divulgados em abril indicaram ainda que houve um saldo negativo de 2.100 pessoas, considerando-se as pessoas que entraram e saíram da Irlanda em 2018.

Conway aponta mudanças sociais estruturais como um fator ainda mais relevante. Homens jovens na Irlanda têm muito mais oportunidades no campo secular do que costumavam ter no passado, e o sacerdócio não exerce o mesmo apelo que já exerceu.

E, embora mais grupos hoje defendam a inclusão de mulheres no clero, a Igreja continua a barrar esta mudança, o que automaticamente reduz pela metade o potencial de recrutamento.

Da Índia à Irlanda

A experiência conduzida pelo bispo Monahan teve bons resultados em Killaloe. Kochuveettil diz que se deu bem com as pessoas e afirma que chegou à Irlanda com habilidades limitadas de Inglês, mas que os fiéis e os restantes colegas lhe deram a confiança de que precisava para melhorar.

Desde a sua chegada, o padre já recebeu inúmeros convites para jantar e, recentemente, acompanhou Monahan e outros 450 fiéis numa peregrinação a Lourdes, em França.

“Os padres mais velhos adotaram-nos como se fossem netos“, brinca Monahan, referindo-se aos jovens Kochuveettil e Puthiyaveettil (este, na casa dos 20 anos).

O padre Chullickal, que fica na paróquia de Nenagh, em Tipperary, descreve os fiéis como muito generosos. Aliás, admite que ficou emocionado quando o grupo arrecadou 2100 euros para a sua diocese, depois de chuvas torrenciais terem atingido a região em junho. “Eu não lhes pedi que fizessem isso”, recorda.

Chullickal está em Tipperary desde novembro de 2017 e diz que adoraria postergar a sua jornada na Irlanda assim que o seu contrato de três anos termine, no próximo ano.

Embora todos pareçam felizes, Monahan diz que recrutar padres no exterior não é a única solução de longo prazo para as aflições do clero. A Igreja Católica irlandesa está também a encorajar leigos a assumir cargos mais altos em operações rotineiras, além de insistir nos recrutamentos de padres locais.

Porém, fazer com que os irlandeses — especialmente os jovens — assistam à missa tem sido cada vez mais difícil, diz Kochuveettil.

Conway afirma que a Irlanda, numa reviravolta histórica, tornou-se um país importador de missionários. Embora uma renascença católica seja possível, o padre acredita que a Igreja continuará a encolher até ao ponto em que se tornará minoritária no país.

Mas há quem esteja mais otimista. Margaret Cartwright, diretora da Vocations Ireland, diz que tem notado um aumento do interesse dos jovens nos seus esforços para recrutá-los para a vida religiosa. A responsável diz que tem havido respostas positivas às suas tentativas de modernizar as estratégias de recrutamento, para que as ordens religiosas possam comunicar melhor com as novas gerações.

Há, de facto, estatísticas que mostram que o catolicismo ainda pode cativar a Irlanda. Católicos irlandeses entre os 16 e os 29 anos têm o terceiro maior índice de frequência de missas na Europa, depois dos polacos e dos portugueses. O número está a baixar, mas ainda está acima da maioria do continente.

Por agora, enquanto os líderes da igreja vão envelhecendo, Kochuveettil diz ter esperança de que ele e outros jovens padres formados no exterior possam manter a chama acesa — e o clero vivo. “Está no sangue dessas pessoas. Mas está num estado dormente. Se houver uma faísca, virará um grande fogo”, declara.

ZAP // BBC

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