“Intrigante e preocupante”. Portugal abusa de terapias agressivas em doentes com cancro

O nosso país tem “uma elevada prevalência de agressividade terapêutica em fim de vida para doentes oncológicos”. A conclusão é de uma investigação levada ao cabo durante 6 anos e envolvendo um total de 92 mil pessoas.

Esta investigação foi liderada pelo King’s College London, com a participação de investigadores e médicos dos Institutos Portugueses de Oncologia de Lisboa, Coimbra e Porto, da Escola Nacional de Saúde Pública, do Instituto de Saúde Pública da Universidade do Porto e da Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra, e é divulgada pelo Expresso.

De acordo com a pesquisa, 1 em cada 7 doentes oncológicos foram alvo de terapêuticas invasivas nos últimos 30 dias de vida.

E 7 em cada 10 doentes com cancro que morreram em hospitais do Serviço Nacional de Saúde (SNS), entre 2010 e 2015, estiveram sujeitos a terapias agressivas. É um valor superior à média de vários países da União Europeia, mas também de Reino Unido, Canadá e EUA.

Estão em causa terapias como quimioterapia, diálise, ventilação mecânica ou implantação de cateteres que podem piorar a qualidade de vida dos pacientes.

A investigação aponta que os cuidados mais usuais foram o internamento hospitalar por mais de 14 dias (43%) e a realização de cirurgias (28%).

“Aumento desnecessário dos custos”

É intrigante e não deixa de ser preocupante constatar que quase um terço dos doentes oncológicos em fim de vida passam por uma intervenção cirúrgica”, constata, em declarações ao Expresso, o oncologista Diogo Martins Branco do Instituto Português de Oncologia de Lisboa e um dos autores principais do estudo.

Além da forma como estes procedimentos afectam a qualidade de vida de pacientes em fim de vida, é preciso considerar ainda “o aumento desnecessário dos custos, que poderiam ser redireccionados para outras áreas, como o apoio ao cuidado domiciliário dos doentes”, analisa no Expresso outra das investigadoras principais do estudo, Bárbara Gomes, professora na Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra.

“Segundo o portal da mortalidade da Direção-Geral da Saúde, em 2018, cerca de 60% das mortes ocorreram em ambiente hospitalar, com um nível ainda mais alto entre os doentes oncológicos (70%)”, repara Bárbara Gomes.

Esta investigadora, que é especialista em cuidados paliativos, considera que com a pandemia de covid-19 “tornou-se mais urgente discutir esta questão, sobretudo quando se tem de avaliar as consequências terapêuticas para doentes que podem não beneficiar, por exemplo, do ingresso em cuidados intensivos”, salienta em declarações ao Expresso.

Quase mil cancros da mama, do colo do útero e colorretal por diagnosticar (aeiou.pt)

Por outro lado, Diogo Martins Branco afirma ao semanário que “muitas vezes são os familiares que apelam aos médicos para que não desistam dos doentes”.

“É difícil explicar aos familiares e mesmo aos doentes que nem todos beneficiam destes tratamentos ou de internamentos, sobretudo em cuidados intensivos, mas é preciso bom senso no momento da decisão. É claro que os médicos têm dificuldade em parar, mas a interrupção dos tratamentos não deve ser vista como uma desistência, mas como um investimento na qualidade do fim de vida“, destaca o oncologista.

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