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Podia ser ficção científica, mas não é. Injetar algas no sangue dos sapos pode ajudá-los a respirar

(dr) S. Özugur, H. Straka

Algas vivas sensíveis à luz (um tipo de cianobactérias chamado Synechocystis) injetadas num girino

Algas vivas sensíveis à luz (um tipo de cianobactérias chamado Synechocystis) injetadas num girino

Os sapos adotam várias técnicas de respiração ao longo da sua vida. Agora, uma equipa de cientistas alemães desenvolveu um novo método que permite que os girinos “respirem” graças à introdução de algas na sua corrente sanguínea.

Um dos vários intuitos da circulação sanguínea é a oxigenação das células do corpo, mas quando a circulação é interrompida, é muito difícil voltar a atingir os níveis saudáveis para as células – especialmente as do sistema nervoso.

Recentemente, uma equipa de cientistas injetou algas no sangue de girinos para oxigenar os cérebros dos animais. Surpreendentemente, alguns neurónios “ressuscitaram”.

“Para muitas pessoas, parece ficção científica, mas é apenas a combinação certa de esquemas biológicos e princípios biológicos”, reagiu Hans Straka, da Ludwig-Maximilians-University Munich, citado pelo SciTechDaily.

O investigador estava a estudar o consumo de oxigénio em cérebros de girinos de rãs africanas (Xenopus laevis) quando uma banal conversa de almoço com um botânico lhe deu a brilhante ideia de combinar fisiologia vegetal com neurociência: aproveitar o poder da fotossíntese para fornecer oxigénio às células nervosas.

Se na natureza as algas vivem harmoniosamente em esponjas, corais e anémonas, fornecendo-lhes oxigénio e até nutrientes, porque não em vertebrados como os sapos?

Para explorar a ideia, a equipa injetou algas verdes (Chlamydomonas renhardtii) e cianobactérias (Synechocystis) no coração de girinos. A cada batimento cardíaco, as algas viajaram através dos vasos sanguíneos até ao cérebro, tornando o girino translúcido verde brilhante.

Segundo o portal, ambas as espécies de algas bombearam oxigénio para as células próximas.

Após a distribuição das algas no cérebro, os investigadores isolaram a cabeça do girino e colocaram-no num banho de bolhas de oxigénio com nutrientes essenciais que preservariam o funcionamento das células, permitindo à equipa monitorizar a atividade neural e os níveis de oxigénio.

À medida que os investigadores esgotavam o oxigénio do banho, os nervos deixavam de disparar e ficavam em silêncio. Mas não durou muito tempo: a iluminação do girino reiniciou a atividade neural em apenas 15 a 20 minutos.

Depois de “ressuscitados”, os neurónios funcionaram tão bem ou até melhor do que antes do esgotamento do oxigénio, o que prova que este método é, além de rápido, eficiente.

Quanto à extrapolação dos resultados, a equipa aconselha alguma cautela. Ainda assim, não há dúvidas de que a experiência revela o enorme potencial desta técnica.

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Os cientistas acreditam que a descoberta pode vir a ajudar em investigações com animais, aumentando o tempo de vida útil dos tecidos nervosos. Pesquisas com organóides e tecidos isolados também podem vir a ser beneficiadas, uma vez que estes materiais são desprovidos de oxigenação vinda de um sistema circulatório, o que dificulta o cultivo de células.

Num futuro mais longínquo, as algas podem vir a fornecer novos tratamentos para doenças relacionadas com a falta de oxigénio nos tecidos, como o enfarte do miocárdio.

O artigo científico foi publicado este mês na iScience.

  Liliana Malainho, ZAP //

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