Inglaterra desconfinou totalmente. Então, porque estão os novos casos a descer?

Tolga Akmen / AFP

Fim das restrições em Londres, pôr do sol no Thames Embankment, junto ao rio Tamisa

O fim das restrições a 19 de Julho fez soar alarmes por toda a Europa sobre o possível aumento exponencial de casos. Na verdade, o número de novos casos tem vindo a descer e a baralhar os especialistas.

O mundo tem os olhos postos na evolução da pandemia em Inglaterra depois do país ter desconfinado totalmente e abandonado o uso obrigatório de máscaras. Voltou-se à vida pré-covid, com a abertura de discotecas e pubs a 19 de Julho, naquele que foi apelidado como o “Dia da Liberdade” por Boris Johnson.

Apesar de 70% dos adultos já estarem totalmente vacinados, quase metade da população ainda não terminou o processo de vacinação. Os especialistas e o próprio governo esperavam um aumento exponencial de novos casos, com algumas estimativas a apontar para a possibilidade de haver 100 mil novos casos diários, e havia preocupações no resto da Europa sobre um possível impacto além fronteiras.



Johnson assumiu a jogada arriscada e afirmou mesmo que o aumento de casos era “previsível” e que “tristemente” haveria mais mortes causadas por covid, mas “a eficácia continuada da vacinação” dava confiança ao primeiro-ministro britânico.

“Se não podermos reabrir a nossa sociedade nas próximas semanas, quando seremos ajudados pela chegada do Verão e pelas férias escolares, então temos de nos perguntar quando é que vamos voltar ao normal?”, argumentou Boris Johnson.

Mas nada disto está a acontecer, pelo menos por enquanto. O número diário de novos casos em Inglaterra desceu durante sete dias seguidos, tendo só subido ligeiramente ontem, quando o país registou cerca de 27.700 novos casos, mais 4 mil do que anteontem. Mesmo com este aumento, os valores são quase metade do que eram há uma semana.

A grande maioria dos novos casos são da variante Delta. A 17 de Julho, houve cerca de 54.600 novos casos, o valor mais alto desde Janeiro. No entanto, houve uma descida semanal de 21,5% de novas infecções, apesar do aumento de 27% dos internamentos e de 50% das mortes, de acordo com o The Guardian. Se a tendência de descida de casos se confirmar, os internamentos e mortes devem também baixar em breve.

Estes números estão a baralhar os especialistas, com muitos a perguntar-se se Inglaterra pode já ter alcançado a imunidade de grupo, depois de três confinamentos e quase 130 mil mortes.

O Instituto Nacional de Estatística britânico aponta que 92% dos adultos já tem anticorpos, ou por causa da vacina ou por terem estado infectados, mas é importante realçar que ter anticorpos não é o mesmo que ser totalmente imune. A quantidade de anticorpos criada quando já se esteve infectado varia também muito de pessoa para pessoa.

O limiar da imunidade de grupo é traiçoeiro, já que depende de como o vírus e as pessoas se comportam. Em teoria, 85% da transmissão tem de ser quebrada para se combater a variante Delta e ainda é cedo para saber se este valor está a ser alcançado.

Euro 2020 e bom tempo podem explicar a descida

Stephen Griffin, professor da Universidade de Leeds, considera os dados “muito, muito estranhos” e sugere ao Washington Post que podem ser uma consequência de um conjunto de factores, como o bom tempo, o fim do Euro 2020, as pessoas seguirem as regras da quarentena ou simplesmente evitarem fazer testes por quererem ir de férias.

O epidemiologista do Imperial College London, Neil Ferguson, cujos modelos têm ajudado a determinar as políticas do governo, acredita que a pandemia pode ser coisa do passado, mas é cauteloso. Ferguson revelou à BBC que os efeitos do Dia da Liberdade podem ainda não se estar a fazer sentir e que pode haver um novo aumento se o tempo piorar.

“Ainda não acabou o risco. Mas a equação mudou fundamentalmente. O efeito das vacinas tem sido enorme na redução do risco de internamentos e mortes e estou confiante de que no final de Setembro ou Outubro, a maior parte da pandemia vai estar nas nossas costas”, afirmou o epidemiologista.

Uma possível explicação de que a descida não se deve só a uma maior imunização é o formato da curva. A descida a pique que se verificou segue-se, normalmente, a um confinamento, devido ao corte repentino de contactos sociais. Já uma descida causada pela imunização costuma ser mais longa e só se verifica ao fim de várias semanas.

“Isto ainda pode acontecer, claro, se aquilo que estamos a ver for uma descida a curto-prazo, seguida de um novo aumento e descida“, explica o epidemiologista da Universidade de Edimburgo Rowland Kao, ao Guardian.

O fim do Euro 2020 também é uma teoria. Durante o torneio, houve um aumento de casos entre homens com idades entre 15 e 44 anos, mas a tendência reverteu-se depois da final.

Kao acredita que a ligação ao futebol é “inteiramente plausível”, visto que na Escócia também houve uma descida de casos nas semanas depois da eliminação do país do torneio.

A mini onda de calor que passou pelo Reino Unido está também sobre a mesa, já que as infecções respiratórias normalmente descem no Verão e aumentam no Inverno, assim como o fim das aulas.

“A massa crítica de imunidade criada pelas vacinas e pela doença combinada com o bom tempo beneficiou o Reino Unido. Mas não devemos ser complacentes; há muitas comunidades, especialmente em áreas desfavorecidas, onde a vacinação tem um caminho longo a percorrer”, afirma Iain Buchan, presidente da unidade de saúde pública da Universidade de Liverpool.

Boris Johnson também ainda não está a celebrar. Numa declaração na terça-feira, o primeiro-ministro reparou nos “números melhores”, mas reforça que é “muito, muito importante não nos deixarmos levar por conclusões prematuras“. “As pessoas têm de continuar cautelosas e essa continua a ser a abordagem do governo”, avisa.

O Ministro da Saúde, Sajid Javid, também disse que “ninguém sabe ao certo” a trajectória da pandemia, depois do ligeiro aumento que se registou ontem.

“Espero que as descidas que vimos sejam sustentadas. Mas já vimos que com a variante Delta, as coisas podem mudar. Por isso, acho importante continuar cauteloso e não demasiado optimista”, afirma.

O que esperar do futuro? De acordo com um artigo no The Guardian de Graham Medley, professor da London School of Hygiene and Tropical Medicine, não devemos saber se os casos já chegaram ao pico até daqui a algumas semanas e o impacto de dia 19 não vai ser claro no número de casos até à semana de 2 de Agosto.

AP, ZAP //

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