Apesar de serem prioritários, nem todos os indígenas estão a ser vacinados. Bolsonaro passa a defender vacinas

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Enfermeira indígena é vacinada

Por esquecimento ou ceticismo, o processo de vacinação na comunidade indígena não está a correr de forma tão fluída como se esperava, mesmo com o grupo a ser considerado prioritário. Com 8,9 milhões de casos, e uma altura em que já morreram 219 mil de pessoas no Brasil, Bolsonaro muda o seu discurso anti-vacinas.

Apesar de os povos indígenas terem sido incluídos no grupo prioritário da primeira fase do plano nacional de vacinação, a maioria deles é exceção.

“Não há surpresa quanto à prioridade da vacinação para os indígenas. Em campanhas de vacinação anteriores, de prevenção de outras doenças, os indígenas foram também grupos prioritários. Isso ocorre porque são um grupo que possui uma imunidade mais baixa e são socialmente vulneráveis”, explica ao Expresso Priscilla Schwarzenholz, da organização Survival International Brasil.

Porém, “a prioridade foi dada apenas aos indígenas que vivem em aldeias, excluindo os que vivem nas cidades”, como os moradores do Parque das Tribos.

Entre os beneficiários estão milhares de membros da tribo Warao, oriunda da zona do delta do rio Orinoco, na Venezuela, que vive refugiada no Brasil desde o colapso económico do país, em 2018.

A exclusão de parte significativa da população indígena é incompreensível à luz dos números da pandemia, que comprovam a vulnerabilidade das tribos. “Os dados de infeção e óbitos de indígenas pela covid-19 mostram que ambas as taxas superam a média nacional”, diz a ativista brasileira.

“Os indígenas da região amazónica são cinco vezes mais atingidos pela covid-19 do que o resto do Brasil”, particulariza Priscilla Schwarzenholz.

“Esses povos são os mais vulneráveis do planeta. O contacto com o vírus pode significar o extermínio de todo um grupo.”

Para controlar estas maleitas, as vacinas têm sido fundamentais, como agora acontece em relação à covid-19. Mas como em qualquer sociedade desenvolvida, também entre os indígenas há resistência à toma da vacina, pois são vulneráveis à propagação de mentiras e boatos.

Na reserva guarani Te’yikue, no estado de Mato Grosso do Sul, acredita-se que a doença surge de feitiços e “espíritos maus” e que quem for vacinado virará vampiro. Mensagens de WhatsApp dizem que os índios são um grupo prioritário para funcionarem como cobaias e que a vacina provoca cancro e altera o ADN das pessoas.

Na sexta-feira passada, a APIB lançou a campanha “Vacina, Parente!” para exigir ao Governo federal a imunização de toda a população indígena e combater a desinformação. “Parente” é a expressão usada nas tribos para denominar indígenas de todas as etnias e diferenciá-los dos não-índios.

Jair Bolsonaro é um dos principais porta-vozes da atitude anti-vacinas no Brasil. O Presidente já disse não ter intenção de ser vacinado e alertou para efeitos colaterais em termos dignos de um filme de ficção. “Se você virar um jacaré, é problema seu”.

A forma como o Presidente desincentiva à toma da vacina é apenas a última das manifestações negligentes de Bolsonaro em relação aos povos indígenas. “Desde que Bolsonaro ganhou as eleições, o número de invasões e ataques a comunidades indígenas aumentou drasticamente”, refere Priscilla Schwarzenholz.

“O Governo Bolsonaro também está a incentivar a disseminação da covid-19 em territórios indígenas, deixando de os proteger contra invasores e bloqueando planos de proteção para o combate do vírus nas aldeias”, acrescenta.

Este histórico do Presidente brasileiro levou dois “caciques” (chefes índios) a denunciar Bolsonaro, sexta-feira passada, diante do Tribunal Penal Internacional (TPI) por crimes contra a Humanidade.

Raoni Metuktire e Almir Suruí responsabilizam Bolsonaro pelo avanço do desmatamento e das queimadas na região da Amazónia.

A queixa pretende também que o TPI reconheça o crime de ecocídio – destruição do meio ambiente a um nível tal que comprometa a vida humana – em face das consequências ambientais da política de Bolsonaro.

Bolsonaro muda discurso

O Presidente do Brasil mudou o tom do seu discurso sobre a pandemia, que colocava em causa a eficácia das vacinas contra a covid-19, e passou a defender que a vacinação em massa fará com que a “economia não deixe de funcionar”.

“Já somos o sexto país que mais vacinou no mundo. Brevemente estaremos nos primeiros lugares, para dar mais conforto à população, segurança a todos e de modo a que a nossa economia não deixe de funcionar”, disse Bolsonaro num evento virtual promovido pelo banco Credit Suisse.

O chefe de Estado brasileiro, que é um dos líderes mais céticos do mundo em relação à covid-19, contradisse afirmações suas anteriores ao alegar que sempre defendeu a compra de “qualquer vacina, uma vez aprovada pela Anvisa” [Agência Nacional de Vigilância Sanitária].

Em novembro passado, Bolsonaro afirmou publicamente que não compraria doses da CoronaVac, vacina desenvolvida pelo laboratório chinês Sinovac, alegando que a “vacina chinesa” não tinha comprovação científica de eficácia aprovada pela Anvisa e, mesmo se tivesse, não interessava ao Governo brasileiro.

Ainda assim, esta mudança de discurso não convence.

Vários líderes religiosos do Brasil entraram terça-feira com um pedido de destituição contra o Presidente, Jair Bolsonaro, por alegada negligência no combate à covid-19, num documento assinado por 380 pessoas, entre as quais bispos e pastores.

O pedido foi entregue esta terça-feira à Câmara dos Deputados do Brasil, cabendo-lhe analisar esta e as restantes 61 outras solicitações já apresentadas.

Entre os signatários do documento estão bispos, padres católicos, anglicanos, luteranos, metodistas e também pastores. O pedido tem apoio do Conselho Nacional de Igrejas Cristãs do Brasil, da Comissão Brasileira Justiça e Paz da Confederação Nacional de Bispos do Brasil (CNBB) e da Aliança de Batistas do Brasil.

“A motivação principal deste pedido está relacionada com a ausência total de iniciativas da parte do Governo para diminuir e conter os impactos da pandemia de covid-19. O sufoco de Manaus é o sufoco do país inteiro, que neste momento tem população abandonada porque temos um Governo que nega o direito à vida”, defendeu por sua vez a pastora e representante do Conselho Nacional de Igrejas Cristãs, Romi Márcia Bencke.

  Ana Moura, ZAP // Lusa

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2 COMENTÁRIOS

  1. Tanta demagogia, de Portugal tem médicos , enfermeiros e auxiliares da linha da frente por vacinar e agora vão vacinar os deputados e os funcionários do restaurante da Assembleia que nunca fechou. Aqueles que se preocupam tanto com Bolsonaro e Trump não têm nada a dizer ao costa por sermos os campeões mundiais do covid. Vergonha na cara, né!

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