“Incitador-chefe”. No primeiro dia de julgamento, procuradores mostram vídeo inédito do ataque ao Capitólio

Ken Cedeno / Pool / EPA

No arranque do julgamento do ex-Presidente dos Estados Unidos pelo Senado, os membros do Partido Democrata, que defende a condenação de Trump, exibiram um vídeo inédito da invasão do Capitólio, a 6 de janeiro.

O vídeo arrepiante, apresentado por procuradores durante o julgamento de Donald Trump, mostrou a entrada violenta de uma multidão no Capitólio, a partir vidros e portas e gritando ameaças ao vice-presidente e à presidente da Câmara dos Representantes.

As imagens mostram também agentes da polícia a pedirem ajuda pelos rádios.

As imagens divulgadas pelos procuradores do Congresso, que estão a dirigir o julgamento de Trump, revelam o quão perto os amotinados estiveram dos líderes dos Estados Unidos, enchendo os corredores enquanto cantavam “enforquem Mike Pence”.

Entre os primeiros a entrar no Capitólio estavam homens uniformizados com roupa de combate e membros de grupos extremistas.

O vice-presidente Pence, que estava a presidir a sessão no Congresso para certificar a vitória eleitoral de Joe Biden sobre Trump, o que lhe valeu a censura deste, é mostrado a ser conduzido apressadamente para um local seguro com a sua família, a escassa distância dos invasores.

A presidente da Câmara dos Representantes, Nancy Pelosi, foi retirada do complexo, enquanto os seus colaboradores se escondiam atrás das portas.

Os agentes policiais, submersos pela multidão, gritavam de forma frenética “Perdemos a linha! Perdemos a linha” e aconselhavam-se a procurar segurança.

As imagens mostram um agente a ser esmagado pela multidão e os procuradores adiantaram que outro sofreu um ataque cardíaco. Um terceiro morreu mais tarde.

Se bem que muitos dos jurados do Senado já se decidiram em relação à absolvição ou condenação de Trump, a exibição das imagens, com a multidão a ocupar a câmara do Congresso onde decorre o julgamento, criou alguma comoção. Os gritos da gravação áudio encheram a sala.

“Eles fizeram isto porque Donald Trump os enviou com esta missão“, afirmou o procurador Stacey Plaskett, um democrata eleito para a Câmara dos Representantes pelas Ilhas Virgens.

A apresentação destas imagens fortes abriu o primeiro dia de argumentos no julgamento, com os procuradores a defenderem que Trump não era um qualquer “espetador inocente”, mas sim o “incitador-chefe” do mortífero ataque ao Congresso, alguém que passou meses a espalhar mentiras sobre as eleições e a construir uma multidão de apoiantes da sua intenção de impedir a vitória de Biden.

Os democratas da Câmara dos Representantes mostraram muitas provas oriundas do próprio Trump – centenas de mensagens da rede social Twitter e comentários -, que culminaram no seu apelo, de 6 de janeiro, para a multidão ir para o Capitólio e “lutar como nunca” para inverter a sua derrota.

Depois, Trump não fez o que quer que fosse para interromper a violência e assistiu com “alegria” ao ataque da multidão ao edifício, adiantaram. Cinco pessoas morreram.

“Para nós, isto parece caos e loucura, mas houve método na loucura deste dia”, afirmou o representante Jamie Raskin, democrata leito pelo Estado do Maryland, que acusou Trump de ser o instigador dos atacantes. “E enquanto a sua multidão atacava e ocupava o Senado e atacava a Câmara e os agentes da polícia, ele via isto na televisão como se fosse um reality show“.

O Senado norte-americano aprovou, esta terça-feira, com os votos dos senadores democratas e de alguns republicanos, a continuação do processo judicial de destituição do ex-Presidente.

Apesar disto, a condenação de Trump não parece provável, uma vez que seria necessária uma maioria de dois terços – 67 senadores. Para isso, 17 republicanos teriam de associar-se aos democratas. Na votação de terça-feira, só seis se dispuseram a fazê-lo.

Trump é o primeiro Presidente dos Estados Unidos a ser sujeito duas vezes a um processo de destituição no mesmo mandato e o único a ser julgado politicamente depois de já ter abandonado o cargo.

O primeiro impeachment foi aprovado pela Câmara dos Representantes, em dezembro de 2019, por abuso de poder e obstrução do Congresso, ao ter pressionado a Ucrânia a lançar uma investigação contra Joe Biden, agora Presidente, e o seu filho Hunter. O Senado acabou por absolver Trump em fevereiro do ano passado.

  ZAP // Lusa

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14 COMENTÁRIOS

  1. Tem toda a razão. Ele não fez nenhum discurso a incentivar a marcha ao Capitólio. Infelizmente há milhões de pessoas que também não ouviram. Aliás, neste momento, o que se discute é se a terra é realmente plana.

    • O partidarismo cega a racionalidade!
      Afinal há direito e liberdade para apoiar e incentivar manifestações para protestar contra fraudes nas eleições ou não? ! E lutar pelos direitos dos cidadãos sim ou não!?
      Do Trump ninguém ouviu apelos para se ultrapassar os limites legais e os grupos implicados nos desacatos que resultaram em vítimas mortais nunca foram contratados, pagos ou comandados pelo Trump.
      Agiram, isso sim, por sua conta e risco, movidos pela elevada insatisfação com um processo eleitoral q lhes levantava muitas dúvidas, e pelas constantes obstruções e golpes orquestrados e movidos pelas figuras da oposição como a da Pelosi, tanto ou mais provocativa e incitadora quanto a do Trump!

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