Foi o homem mais rico da história e nunca ouviu falar dele

The Yorck Project / Wikimedia

Retrato de Jakob Fugger, (1459-1525) por Albrecht Dürer (1471–1528)

Se estivesse vivo hoje, Jakob Fugger (1459-1525) seria, calcula-se, mais rico que Bill Gates, Warren Buffet, Carlos Slim e Mark Zuckerberg juntos.

Segundo o ex-editor do Wall Street Journal e biógrafo Greg Steinmetz, o banqueiro alemão Jakob Fugger, apelidado de “O Rico”, chegou a acumular, ao longo da vida, uma fortuna equivalente ao que hoje seriam 340 mil milhões de euros. O homem mais rico do mundo neste momento, Bill Gates, tem uma fortuna de “apenas” 76 mil milhões de euros.

Steinmetz considera que Fugger foi o homem mais rico da história, e foi esse o título que deu ao livro que escreveu sobre o banqueiro em 2015.

Embora muitas pessoas levantem objecções à comparação da riqueza em diferentes períodos históricos, de uma coisa Steinmetz está seguro. “Jakob Fugger foi sem dúvida o mais poderoso banqueiro de todos os tempos“, disse o biógrafo à BBC.

“No Renascimento, a época em que Fugger viveu, o mundo era controlado por duas figuras: o imperador romano e o papa. E Fugger financiou ambos“, diz o biógrafo. Segundo defende Steinmetz, nenhum banqueiro em toda a história teve tanta influência sobre o poder político como Fugger.

“Fugger decidiu que o rei de Espanha, Carlos I, deveria ser imperador de Roma, e conseguiu que viesse a ser eleito papa, com o nome de Carlos V”, conta Steinmetz. “Carlos V colonizou o Novo Mundo. A história não seria a mesma se não tivesse chegado ao poder.”

Desconhecido

Como se explica então que tão poucos tenham ouvido falar de Jakob Fugger? E que, em vez disso, saibamos tanto sobre alguns dos seus contemporâneos, como os Médici, os irmãos César e Lucrécia Bórgia ou Nicolau Maquiavel, e nada sobre Fugger?

Uma das razões, de acordo com Steinmetz, é que Fugger era alemão e não se tornou conhecido no mundo anglófono. E foi exactamente isso que motivou o autor a escrever sobre o banqueiro. “Fui director da sucursal do Wall Street Journal em Berlim e ouvi uma referência a Fugger, mas não consegui encontrar um único texto em inglês sobre isso”.

Mas talvez o principal motivo pelo qual poucos fora do seu país de origem conheçam a história deste homem é que ele não era um personagem ‘colorido’, como os famosos  da sua época acima referidos.

Fugger não tentou tornar-se papa, nem ocupar cargos políticos, não patrocinou nenhum artista renascentista, não construiu palácios nem templos.

A sua obra mais famosa é o Fuggerei, um projeto de habitação social que criou na cidade de Augsburg, no sul da Alemanha, e que continua conhecida porque quem ali vive paga uma renda simbólica de 1 euro por ano. “Os banqueiros estão habituados a trabalhar nos bastidores”, disse Steinmetz, explicando a baixa notoriedade de Fugger.

ronile / Flickr

O Fuggerei, o projeto de habitação social que Fugger criou na cidade de Augsburg continua 500 anos depois e é um lar de aposentados

Legado

Isso não significa que Jakob Fugger não tenha deixado a sua marca. Na verdade, a sua influência pode ser sentida até hoje, embora quase ninguém saiba disso. A seguir, cinco heranças importantes deste ilustre desconhecido – que foi o primeiro comerciante a ser nomeado Conde, e acerca de quem nunca tinha ouvido falar:

1. Criou a primeira multinacional

Na sua época, a actividade económica era reduzida. Os ricos viviam das suas terras e do trabalho dos camponeses, que recebiam procteção em troca.

Fugger negociou com os mineiros direitos em troca de empréstimos, conseguindo assim monopolizar o comércio de cobre e prata. Além disso, comercializou especiarias, tornando-se um dos precursores do capitalismo.

2. Criou o primeiro serviço de notícias

Fugger sabia que a informação é valiosa e, portanto, queria aceder a ela antes dos seus concorrentes. Para isso, pagava a mensageiros para trazer informações sobre a actividade comercial e política de diferentes cidades.

Os seus sucessores mantiveram a tradição e criaram o Fugger Newsletters, que alguns consideram um dos primeiros jornais da história.

3. Criou formas de financiar dinheiro que duraram até hoje

Os Médici, por exemplo, já tinham bancos no renascimento, mas a Igreja Católica não permitia o pagamento de juros, por considerá-lo ganância. Fugger convenceu o papa Leão X, cliente seu, a suspender a proibição, e começou a oferecer uma taxa de juros de 5% ao ano aos seus clientes – que depositavam dinheiro no seu banco de Augsburg.

4. Financiou exploradores

Fugger tinha 33 anos quando Colombo descobriu a América. Interessado ​​no potencial económico dessas expedições, financiou a primeira viagem para a Índia. Foi também um dos financiadores da viagem de circum-navegação de Fernão de Magalhães – na altura, a mais longa viagem marítima alguma vez realizada.

5. Acabou por estimular a Reforma Protestante

Um dos negócios que Fugger manteve com o Vaticano foi a venda de indulgências. O banqueiro alemão propôs uma forma de financiar a catedral de São Pedro, com a qual metade dos rendimentos era destinada a esse fim e a outra metade ficava para Fugger.

Este ano faz 500 anos que Martinho Lutero protestou contra este negócio da Igreja, dando origem à Reforma Protestante – um “legado” inesperado de Jakob Fugger que perdurou até aos nossos dias.

// BBC

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9 COMENTÁRIOS

  1. ““No Renascimento, a época em que Fugger viveu, o mundo era controlado por duas figuras: o imperador romano e o papa. E Fugger financiou ambos“

    No Renascimento, um Imperador Romano?

    • Caro Pedro,
      Obrigado pelo seu reparo. Tem toda a razão, o último imperador romano morreu lá para o ano 500 dc. Mas é a citação que a BBC faz do que o biógrafo disse.

    • O Império Bizantino foi a continuação do Império Romano durante a Antiguidade Tardia e Idade Média. Sua capital foi Constantinopla (moderna Istambul), originalmente conhecida como Bizâncio. Inicialmente parte oriental do Império Romano[1] (frequentemente chamada de Império Romano do Oriente no contexto), sobreviveu à fragmentação e ao colapso do Império Romano do Ocidente no século V e continuou a prosperar, existindo por mais de mil anos até sua queda diante da expansão dos turcos otomanos em 1453. Foi conhecido simplesmente como Império Romano (em grego: Βασιλεία Ῥωμαίων; transl.: Basileia Rhōmaiōn; em latim: Imperium Romanum)[2] ou România (em grego: Ῥωμανία; transl.: Rhōmanía)[3][4][5][6][7][8][9][10] por seus habitantes e vizinhos.

      Como a distinção entre o Império Romano e o Império Bizantino é em grande parte uma convenção moderna, não é possível atribuir uma data de separação. Vários eventos do século IV ao século VI marcaram o período de transição durante o qual as metades oriental e ocidental do Império Romano se dividiram.[11] Em 285, o imperador Diocleciano (r. 284–305) dividiu a administração imperial em duas metades. Entre 324 e 330, Constantino (r. 306–337) transferiu a capital principal de Roma para Bizâncio, conhecida mais tarde como Constantinopla (“Cidade de Constantino”) e Nova Roma.[nt 1] Sob Teodósio I (r. 379–395), o cristianismo tornou-se a religião oficial do império e, com sua morte, o Estado romano dividiu-se definitivamente em duas metades, cada qual controlada por um de seus filhos.[13] E finalmente, sob o reinado de Heráclio (r. 610–641), a administração e as forças armadas do império foram reestruturadas e o grego foi adotado em lugar do latim.[14][15][16] Em suma, Bizâncio se distingue da Roma Antiga na medida em que foi orientado para a cultura grega em vez da latina e caracterizou-se pelo cristianismo ortodoxo em lugar do politeísmo romano.[3][7][8][9][10]

      As fronteiras do império mudaram muito ao longo de sua existência, que passou por vários ciclos de declínio e recuperação. Durante o reinado de Justiniano (r. 527–565), alcançou sua maior extensão após reconquistar muito dos territórios mediterrâneos antes pertencentes à porção ocidental do Império Romano, incluindo o norte da África, península Itálica e parte da Península Ibérica. Durante o reinado de Maurício (r. 582–602), as fronteiras orientais foram expandidas e o norte estabilizado. Contudo, seu assassinato causou um conflito de duas décadas com o Império Sassânida que exauriu os recursos do império e contribuiu para suas grandes perdas territoriais durante as invasões muçulmanas do século VII. Durante a dinastia macedônica (século X–XI), o império expandiu-se novamente e viveu um renascimento de dois séculos, que chegou ao fim com a perda de grande parte da Ásia Menor para os turcos seljúcidas após a derrota na batalha de Manziquerta (1071).

      No século XII, durante a Restauração Comnena, o império recuperou parte do território perdido e restabeleceu sua dominância. No entanto, após a morte de Andrônico I Comneno (r. 1183–1185) e o fim da dinastia comnena no final do século XII, o império entrou em declínio novamente. Recebeu um golpe fatal em 1204, no contexto da Quarta Cruzada, quando foi dissolvido e dividido em reinos latinos e gregos concorrentes. Apesar de Constantinopla ter sido reconquistada e o império restabelecido em 1261, sob os imperadores paleólogos, o império teve que enfrentar diversos estados vizinhos rivais por mais 200 anos para sobreviver. Paradoxalmente, este período foi o mais produtivo culturalmente de sua história.[1] Sucessivas guerras civis no século XIV minaram ainda mais a força do já enfraquecido império e mais territórios foram perdidos nas guerras bizantino-otomanas, que culminaram na Queda de Constantinopla e na conquista dos territórios remanescentes pelo Império Otomano no século XV.

  2. Um outro efeito secundário é a criação da Guarda Suíça do Vaticano. Foi criada por Fugger para proteger o que era um activo finaceiro para ele, o Papa, numa altura em que este estava sob ameaça militar (não sei se do próprio Carlos V, que, ao contrário da notícia nunca foi Papa, mas, já agora, foi pai de Filipe II). A origem suíça tem a ver com o local em que Frugger vivia na altura, que era na Suíça, onde fez o recrutamento (um cantão alemão em especial, de que não sei o nome, onde ainda hoje continua a ser feito o recrutamento). O uniforme foi desenhado por Miguel Angelo e não mudou desde então.

  3. Este interesse pelos Fugger não pode significar que ele não era conhecido e não foi estudado antes deste livro. A sua figura e obra é conhecida suficientemente desde o último quartel do século XIX e tem um lugar à parte em obras com Técnica e Civilização de Lewis Mumford, em estudos sobre a origem do capitalismo e na génese do Mundo Moderno. Há figuras históricas desta época que foram percursoras do capitalismo, como por exemplo o Infante D. Henrique que tinha o monopólio do sabão, Os Fugger relacionaram perfeitamente o negócio da exploração mineira com os comércio internacional dos metais, como o cobre.

  4. O Sacro-Império Romano-Germânico chamou a si o legado simbólico do Império Romano do Ocidente, com Carlos Magno.
    Aliás, Roma não fazia parte desse território e o Papa geria os estados Pontifícios.

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