Na “Cidade do Amanhecer” é possível viver totalmente sem dinheiro

(dr) Auroville.org

O Matrimandir, ou "Templo da Mãe Divina", é um local de meditação e o centro nevrálgico de Auroville, na Índia.

O Matrimandir, ou “Templo da Mãe Divina”, é um local de meditação e o centro nevrálgico de Auroville, na Índia.

É preciso ter muito sentido de humor quando um governo declara que a maioria das notas que se tem na carteira não valem nada. Foi o que aconteceu na Índia quando, no fim do ano passado, o país retirou de circulação as notas de valor mais alto.

Num país com 1,2 biliões de habitantes, a corrida para trocar as notas de 500 rupias (pouco mais de 7 euros) e mil rupias (menos de 15 euros) ou depositar o valor em contas provocou grandes filas nos bancos – as notas que deixaram de ter valor correspondiam a 85% de todo o dinheiro em circulação no país.

Talvez o único lugar na Índia onde o desaparecimento das notas não produziu nenhum efeito tenha sido Auroville, também chamada de “A Cidade do Amanhecer”, localizada próximo de Pondicherry, no sul do país.

A cidade foi fundada a partir dos princípios da ioga integral e é uma comunidade internacional, onde vivem 50 mil pessoas de 50 países diferentes.

A Mãe e a ‘bola de golfe dourada’

Auroville foi fundada, em 1968, como um povoado internacional dedicado à busca de uma vida sustentável e harmoniosa. A fundadora é uma parisiense chamada Mirra Alfassa (1878-1973) que era conhecida como “a Mãe”.

Filha de mãe egípcia e pai turco, ela nasceu em França e estudou ocultismo na Argélia. Em 1914, conheceu na Índia o poeta, nacionalista e professor de ioga Sri Aurobindo que se tornou seu mentor e companheiro.

 

Mirra Alfassa sonhava com uma sociedade sem dinheiro, na qual o trabalho colectivo e a troca de trabalho por serviços tornaria as moedas e as notas irrelevantes.

A comunidade, que ocupa actualmente uma área de 20 quilómetros quadrados, plantou um milhão de árvores e transformou um terreno deserto e abandonado numa área verde.

Mas não se pode dizer que a Auroville de hoje é a sociedade ideal que Alfassa imaginou: a sua história inclui crimes, conflitos e constantes dúvidas sobre a sua transparência financeira.

Mesmo assim, o empreendimento floresce: os aurovilianos têm empresas de todo o tipo, desde tecnológicas até têxteis. O seu centro nevrálgico é o Matrimandir (“Templo da Mãe Divina”, em sânscrito), um local de meditação que se assemelha a uma gigantesca bola de golfe dourada.

A sonhar com café…

No Café dos Sonhadores, perto do centro de informações para visitantes, uma auroviliana recente conta a sua história à BBC.

“Os Sonhadores fazem o melhor café, mas é caro. Cada um tem uma conta onde é depositada a sua manutenção. Estou aqui há três meses e, no primeiro ano, cada pessoa tem que financiar a sua estada”, diz a mulher, que prefere ficar no anonimato.

Muitos residentes têm rendimentos próprios ou o apoio económico de parentes e amigos. A manutenção é uma quantia mensal normalmente suficiente para atender às necessidades básicas em Auroville, e é paga na unidade comercial ou no serviço comunitário onde eles trabalham.

“Na Suíça eu era pobre, mas aqui posso dar-me ao luxo de doar dinheiro”, refere esta auroviliana que aparenta ter menos de 70 anos.

Com uma bata de algodão e um colar que, explica, simboliza a amizade, ela irradia um grande entusiasmo com a sua nova vida. “Eu trabalhava com tecnologias da informação na Nestlé, na Suíça“, exclama.

O contraste entre a multinacional altamente tecnológica e os centros de saúde e lojas de roupas artesanais é absurdo.

“Eu tinha que criar o meu filho. Mas passei a procurar uma comunidade e, quando encontrei a página de Auroville na Internet, soube imediatamente que este era o lugar onde eu queria estar”, lembra, notando que “foi uma energia estranha”.

Em Auroville, não existe propriedade privada da terra, de casas ou comércio. Tudo é colectivo.

A página da comunidade na Internet afirma que “em Auroville, o trabalho não é uma forma de ganhar o sustento, mas sim uma forma de servir o divino“.

Contribuir para a utopia

“A minha missão é trazer o transporte eléctrico para Auroville”, explica a auroviliana suíça, assumindo que ficou “horrorizada ao ver tantas motocicletas”.

Por isso, ela financia o projecto com o dinheiro da sua reforma, enquanto atende os visitantes no centro de informações, estando decidida “a passar o resto dos dias na comunidade”, como diz. “Existe algo neste lugar que é maior do que nós”, refere.

Embora não seja devota dos ensinamentos da “Mãe” e seja mais realista do que peregrina, ela fala de algo parecido com o destino. “Quando se recebe um chamamento, as coisas fluem”, afiança.

No entanto, o sonho de Auroville de libertar-se do dinheiro “ainda não está a funcionar muito bem”, admite ela. “Mas não lidamos com dinheiro, o que é agradável.”

Quem não tem rendimentos recebe ajuda, mas é um valor que dá apenas para viver modestamente. O importante é fazer amigos na comunidade e encontrar uma maneira de contribuir com a sua energia”, conclui.

Em muitas partes do mundo, pessoas relativamente saudáveis e aposentadas contribuem com o seu tempo e conhecimento para o sustento das sociedades.

O que surpreendeu em Auroville é saber que é uma comunidade na qual efectivamente se paga para trabalhar. E, ao que parece, sente-se uma satisfação que o dinheiro não consegue comprar.

ZAP ZAP // Lusa

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1 COMENTÁRIO

  1. E era assim que deveria ser em todo o Mundo.
    O dinheiro hipnotiza as pessoas, estas dizem logo não serem capazes de viver sem dinheiro, nem sequer imaginam tal coisa. Pura ilusão!

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