Setor da construção pede “intervenção imediata” do Governo na crise de materiais

A guerra na Ucrânia acentuou a crise dos preços de materiais, e as construtoras ficam cada vez mais preocupadas com os atrasos na execução de obras públicas.

A construção tem enfrentado uma crise de materiais desde o início da pandemia de covid-19, e a invasão russa da Ucrânia agravou “severamente” a situação.

A escalada dos preços das matérias primas está cada vez mais acentuada, e o setor precisa de uma “intervenção imediata” do Governo, incluindo uma maior flexibilidade no prolongamento dos prazos de execução das obras, de acordo com o Público.

Segundo alertam as empresas, o que vai acontecer é que os contratos já em curso serão afetados, bem como aqueles que ainda serão celebrados, principalmente no âmbito do Plano de Recuperação e Resiliência, que tem prazos definidos para a execução dos fundos recebidos.

O setor anda a insistir nos avisos há meses e, na semana passada, a Associação dos Industriais da Construção Civil e Obras Públicas (AICCOPN) enviou um documento ao Governo, no qual propõe medidas para fazer face à subida drástica dos preços dos materiais, numa altura em que a disrupção na construção é ainda mais evidente.

Segundo os dados do Instituto Nacional de estatística (INE), o índice de custos de construção de habitação nova registou o nível mais elevado desde que há registos em fevereiro — aumentaram 8,6% em relação ao mês homólogo de 2021.

Os preços dos materiais justificam este recorde, com um aumento de 10% no mês em análise. Mas os custos de mão de obra também tiveram alguma culpa.

O aumento de preços é particularmente notório nos materiais metálicos, que têm na Rússia e na Ucrânia dois dos principais exportadores, sobretudo para a Europa.

A guerra entre os dois países causou uma subida de 40% nos preços do aço, e de 20% nos do alumínio — dois dos materiais mais utilizados pela construção.

Este aumento de preços verificou-se em menos de duas semanas, de acordo com os dados disponibilizados pela London Metal Exchange.

Após o pico atingido no início de março, a cotação de ambos os materiais já corrigiu parte da escalada, mas ambos permanecem em níveis historicamente elevados. Desde o início deste ano, os preços do aço e do alumínio aumentaram 35% e 15%, respetivamente.

A subida drástica de preços agravou os desafios que o setor já sentia anteriormente devido à pandemia, como a disrupção de cadeias de fornecimento, mas também os problemas relacionados com o contexto político.

Os dados recolhidos pela AICCOPN dos dois primeiros meses deste ano mostram que o volume de concursos de empreitadas de obras públicas, promovidos pelo Estado, foi de 544 milhões de euros.

Quanto ao montante de contratos de empreitadas de obra públicas celebradas neste período de tempo, o total foi de apenas 260 milhões de euros — menos 49% do que no ano passado.

De acordo com Manuel Reis Campos, presidente da AICCOPN, a discrepância está associada a “questões de natureza operacional, por parte dos donos de obras públicas, em resultado da ausência de Orçamento do Estado para 2022 e do atual ciclo político, em que o novo executivo só agora está a assumir funções”.

O setor espera que esta situação normalize “rapidamente”, segundo Reis Campos, mas nem assim se pode dispensar a implementação de medidas de apoio, até porque este é “um ano decisivo para a execução do PRR“, em que a maioria dos investimentos previstos será definida e contratualizada.

Preços dos materiais vão continuar a subir

O setor da construção pede uma atuação rápida por parte do Governo, sendo que tudo aponta para que a subida de preços das matérias primas continue.

“A subida abrupta dos preços das matérias-primas, da energia e dos materiais de construção foi severamente agravada com a eclosão do conflito armado na Ucrânia. Este é um problema que afeta tanto os contratos em curso como aqueles que ainda irão ser celebrados e que têm de ser objeto de uma intervenção imediata e efetiva por parte do Governo”, sublinha Reis Campos.

A AICCOPN pede ao Governo que determine “a aceitação dos pedidos de prorrogação do prazo de execução das empreitadas sem aplicação de multas ou penalização para as empresas”.

Propõe ainda “uma compensação financeira” que permita às construtoras “fazer face aos custos acrescidos decorrentes” do cenário atual e a criação de mecanismos como um fundo público, que permita às entidades adjudicantes corrigir o preço, desde a altura em que o concurso é lançado, até ao momento em que a obra é adjudicada.

O próprio mercado confirma os receios de um agravamento do aumentos dos preços para o setor da construção.

Este mês, tanto a Moody’s como a Fitch reviram em alta as previsões para a evolução das cotações dos metais industriais, em resultado do aumento da procura no pós-pandemia e da disrupção na oferta, devido à guerra na Ucrânia.

No caso do alumínio e do níquel, por exemplo, ambas as agências de notação financeira antecipam agora que, daqui a um ano, as cotações destes materiais estarão cerca de 20% mais elevadas do que era apontado anteriormente.

“Parece claro que os preços vão continuar a aumentar no curto prazo. O lado da oferta foi fortemente penalizado na Europa e isso vai demorar a ser resolvido”, resume Kaye Ayub, analista da MEPS International, em declarações à Reuters.

  ZAP //

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