“Grada Kilomba é grande demais para Portugal”. Projeto artístico sobre racismo “boicotado” por jurado

18

Grada Kilomba / Instagram

Grada Kilomba

A artista Grada Kilomba.

A candidatura portuguesa à Bienal de Veneza está envolta em polémica. Tudo porque o projecto da artista Grada Kilomba sobre racismo e colonialismo português ficou em segundo lugar no concurso devido à nota de um dos jurados.

O curador Bruno Leitão vai recorrer do resultado final do concurso para a escolha do projecto da representação de Portugal na 59.ª Bienal de Arte de Veneza, em 2022.

Foi o próprio quem o confirmou à agência Lusa, alegando que há “incoerências e irregularidades graves nos critérios de avaliação, bem como violações explícitas dos ‘Deveres do Júri’, que são definidos por lei”.

“Houve muitos problemas com este concurso e é importante que não se repitam no futuro”, afirma Bruno Leitão que foi um dos curadores convidados pela Direcção-Geral das Artes (DGArtes) a apresentar uma candidatura ao concurso limitado para a escolha do projecto da representação de Portugal.

Bruno Leitão apresentou a concurso “A Ferida”, de Grada Kilomba, um projecto artístico sobre o racismo e o colonialismo português.

Além de Bruno Leitão, foram também convidados os curadores Filipa Oliveira, Paula Nascimento, Sara Antónia Matos e a dupla de João Mourão e Luís Silva, que venceu o concurso com “Vampires in Space”, de Pedro Neves Marques, que aborda as temáticas da identidade de género e sexualidade.

“Mérito artístico de Grada Kilomba não é satisfatório”

Depois de ter contestado os resultados provisórios, em audiência de interessados, sem que tivesse havido alteração do resultado final que atribuiu ao seu projecto o segundo lugar, Bruno Leitão irá agora apresentar recurso hierárquico à DGArtes e ao Ministério da Cultura.

O curador defende que “a lei não foi respeitada” neste concurso, colocando em causa, por exemplo, a disparidade entre os critérios de avaliação seguidos por cada um dos quatro elementos do júri constituído por Sofia Isidoro, da DGArtes, e pelos especialistas Ana Cristina Cachola, Giulia Lamoni e Nuno Crespo.

Sofia Isidoro, Ana Cristina Cachola e Giulia Lamoni atribuíram pontuações entre o 19 e o 20 ao projecto de Grada Kilomba, mas Nuno Crespo, que é director da Escola de Artes da Universidade Católica e crítico de arte, deu-lhe apenas um 10, conforme apurou o Expresso.

Nuno Crespo terá avaliado os outros três projectos com notas entre os 16 e os 20 valores.

“Quando vemos as pontuações finais dá ideia de unanimidade e proximidade de candidaturas, mas quando vemos as notas atribuídas por cada membro do júri, não foi nada assim. É muito perverso“, nota Bruno Leitão à Lusa, criticando o facto de o actual modelo de avaliação permitir que, “num júri de quatro pessoas, a opinião de um dos membros passe por cima completamente da opinião dos outros três“.

Na sua argumentação quanto ao projecto de Grada Kilomba, conforme cita o Expresso, Nuno Crespo nota que “a ideia do racismo como ferida aberta foi já objecto de inúmeras outras abordagens, de modo que a proposta apresentada não deixa perceber como uma exposição poderá rever, criticar ou prolongar essa ideia já tão discutida e mesmo exibida de múltiplas formas”.

Além disso, Nuno Crespo entende que o projecto “não possui alcance artístico que a representação tem obrigatoriamente de possuir” e que a candidatura não está comprometida “com a dinamização e a internacionalização da ‘cena’ artística e cultural portuguesas”.

O mesmo elemento do júri refere ainda que o “mérito artístico da artista Grada Kilomba e deste projecto expositivo específico, que deverá ser o elemento central de qualquer representação, não é satisfatório“.

“Grada Kilomba é grande demais para Portugal”

Além de artista, Grada Kilomba é escritora e professora universitária, leccionando cadeiras nas áreas de Estudos de Género e Pós-coloniais em várias universidades internacionais.

As suas obras de arte têm sido expostas em espaços em Portugal e no estrangeiro, incluindo em Nova Iorque, mas também no Museu de Arte, Arquitectura e Tecnologia (Maat), em Lisboa, no Maxim Gorki Theater, em Berlim e na Pinacoteca de São Paulo, no Brasil.

A polémica em torno da sua candidatura à Bienal de Veneza está a ter repercussão lá fora, nomeadamente no Brasil, onde a escritora e académica Djamila Ribeiro, que é amiga da artista portuguesa, constata que “Grada Kilomba é grande demais para Portugal” num artigo de opinião no jornal Folha de S. Paulo.

Djamila Ribeiro também nota que a “antinegritude como ferida aberta não é um tema esgotado, ao contrário do que diz o jurado que a vetou para a Bienal de Veneza”.

Uma decisão “escandalosa”

Bruno Leitão reforça essa ideia em declarações ao jornal The Art Newspaper, onde se refere ao caso como “chocante”, falando também de uma decisão “escandalosa” e “completamente fora de sintonia com a realidade e desdenhosa da arte”.

“Nos EUA, no Reino Unido, tem havido uma tentativa séria de perceber o legado colonial através da arte. Mas, em Portugal, o país que transportou mais pessoas de África para a América, durante o comércio transatlântico de escravos, não há muita discussão sobre isto”, lamenta ainda Bruno Leitão.

“Muito poucos artistas fizeram trabalhos sobre este assunto” que “raramente é discutido a nível nacional”, diz ainda, considerando que a questão vai além de Grada Kilomba, pois “estaríamos a prestar um péssimo serviço a qualquer artista afro-descendente se não apelássemos” da decisão.

Sobre o “mérito artístico”, Bruno Leitão nota que “Grada Kilomba pode ser uma das principais artistas portuguesas do momento“.

“Ela é certamente uma das mais aclamadas internacionalmente. O seu trabalho já foi exibido nas Bienais de São Paulo e Berlim e em grandes instituições do mundo todo e o seu trabalho é, neste momento, a imagem de assinatura do Palais de Tokyo [em Paris], nesta temporada”, aponta também.

 

Ver esta publicação no Instagram

 

Uma publicação partilhada por Grada Kilomba (@grada.kilomba)

Análise individual “não pode ser tida como estranha”

O recurso hierárquico apresentado por Bruno Leitão visa garantir que o Ministério da Cultura “veja que há razão para analisar isto com olhos de ver” e que “se produzam mudanças” nos critérios de avaliação do concurso, segundo nota o curador na Lusa.

“O concurso devia ter um desfecho diferente, mas muito mais do que isso era bom que as regras não fossem tão aleatórias“, afirma.

A DGArtes já reagiu à posição de Bruno Leitão, salientando que “uma vez que a pontuação permitida era de 0 a 20 valores”, “não se compreende em que medida a análise individual e não coincidente nas pontuações atribuídas por cada um dos membros da Comissão, pode ser tida como estranha e muito menos ilegal, uma vez que essa análise tem subjacente uma margem de livre apreciação“.

PUBLICIDADE

“A análise individual efectuada por cada um dos membros às candidaturas, com base nos critérios definidos, embora desfavorável não pode ser apelidada de depreciativa se reconhece valor a uma candidatura, embora não a valorização esperada”, afiança ainda a entidade.

Assim, a DGArtes entende que não há dados que indiciem a “violação dos princípios da igualdade, justiça e imparcialidade da actividade administrativa, violação que só seria concebível se reportada a candidaturas objectivamente iguais, ou sobre os quais tivesse recaído uma idêntica apreciação, incompatível com uma diversa valoração”.

A 59.ª Bienal de Arte de Veneza vai decorrer naquela cidade italiana entre 23 de Abril e 27 de Novembro de 2022, com curadoria de Cecilia Alemani, e estará subordinada ao tema “O Leite dos Sonhos”.

Os países participantes têm até 11 de Janeiro de 2022 para apresentar o projecto à organização.

  ZAP // Lusa

18 Comments

  1. “Grada Kilomba é grande demais para Portugal”
    Sem comentar o resto, quando alguém usa “argumentos” deste nível, já está apresentado e não precisa de dizer mais nada…

  2. Para adicionar ao dialogo, e se olhar para os 2 lados.

    Seria interessante alguém fazer igualmente um estudo sobre o lado negro da cultura africana, em Angola, Guiné, Africa do sul, o tribalismo, a violência, o machismo, a violação constante dos direitos da mulheres e das crianças, a pedofilia rompante, a corrupção de alto a baixo, e a inaptidão em gerir o progresso no continente de maior riqueza natural.do planeta.

    E não caro ZAP, isso não seria racista..

    • O seu comentário aplica-se a Portugal, a violência, o machismo, o racismo, a pedofilia, a corrupção, etc, está a ver-se ao espelho?

  3. Para adicionar ao dialogo, e se olhar para os 2 lados.

    Seria interessante alguém fazer igualmente um estudo sobre o lado negro da cultura africana, em Angola, Guiné, Africa do sul, o tribalismo, a violência, o machismo, a violação constante dos direitos da mulheres e das crianças, a pedofilia rompante, a corrupção de alto a baixo, e a inaptidão em gerir o progresso no continente de maior riqueza natural.do planeta.

    • Apoio completamente esse estudo. Espero é que não queiram fazer acreditar que o colonialismo surge para resolver o lado negro da cultura afrticana. Acho que os africanos devem fazer esse estudo, e os portugueses se querem dar o exemplo, pois façam os seus estudos também. Sobre tudo o que refere, violência, racismo, pedofilia corrupção, etc., fico a aguardar pelos resultados de ambos os lados. Sobre a inaptidão em gerir o seu progresso, não sei o que “tem a ver com isso” a não ser qye hajam catástrofes ecológicas, que não é o caso. Em vez de estar tão preocupado com os africanos e os seus disparates quer considerar nesse estudo porque é que Portugal não sai da cepa torta? Será pertinente afirmar que o dinheiro colonialista ter acabado faz parte da resposta?

  4. Mas porque razão temos nós de fazer ou apoiar um discurso auto-destrutivo? Que raio, o território português, a seu tempo, não foi também ele ocupado por d8versis povos? Não foram os portugueses, também eles escravizados pelos africanoos? Foram, mas saber dar a conhecer isdoàs pessoas não convém! As razias norte-africanas em Portugal chegaram a provocar o despovoamento de metade de determindas populações, lembro-me de imediato do caso da Ericeira, isto num reino o de já existia um “,aparelho estatal bem montado”. Muitos lisboetas vivem jma vida inteira sem conhecer para que serviam os fortes na Barra de Lisboa, não eram para suster um exército inimigo. A ganância esclavagista africaba atingiu lugares tão remotos como a Islândia – estudem lá a ver se é mentira! Há muita ignorância nestas questões e, quando alguém insiste em esclarecer, vão mudando o discurso. Agora, Portugal é acusado de ter transportado “milhões pelo Atlântico”. Lamento, dar más notícias, mas os maiotes escravocratas da História, os árabes e africanos já deslocaram muito mais entre a Euroásia e Africa, mas rm números tais que não se podem comparar! Eu glorifico a Historia do meu país e dis nossos heróis, não faço fretes, nem tenho de fazer só porque há por aí imbecis que entendem o contrário. Uma musica destas não representa Portugal, insulta-o.

  5. … o que mais me irrita são as constantes notas “19” e “20” como se estas obras se tratassem do expoente máximo da arte, é que podem parar de criar, ninguém vai conseguir fazer melhor.
    Quando o politicamente correcto se sobrepõe à capacidade crítica só me pergunto o que vão para ali fazer.
    Quanto ao resto, se pediram a opinião do moço, aturem-no! As notas deste parecem-me bem mais consideradas que as dos outros (não que eu concorde com elas).

    • Pois não, Grada Kilomba movimenta-se no mundo da Arte com A grande, nos grandes museus de Arte contemporânea, da Academia e da Literatura, como é que você podia conhecer?

  6. Seria bom não esquecer, que grande parte dos escravos foi logo à partida alvo de comércio por parte dos grandes chefes tribais. Isto claro não invalida tudo o que de mau aconteceu a jusante.

  7. Só fico sem saber uma coisa. Afinal quem foi o/a escolhido/a. Podemos ver as obras em causa? O resto dos comentários ainda respondi a um mas é escusado. Existe um racismo latente em muitos dos comentários e é facil de explicar. O Português não gosta de ser criticado. É cultural. E não gosta de reflexão. Admitir que o processo colonial é um processo de invasão, esclavagismo, roubalheira, é duro porque é o alicerce da nossa história. E custa. Mas é giro, falar dos holandeses, espanhois, ingleses, e tantos outros que fizeram o mesmo… aí somos dos primeiros. Não vejo teoricamente qual é o problema neste tema. Á data dos acontecimentos a mentalidade das pessoas eram outra. O problema é que discutir a mentalidade das pessoas da altura acaba por implicar a discussão da mentalidade das pessoas de hoje.

  8. Quarenta e cinco anos depois da chamada descolonização, e quando os portugueses de origem africana se vão facilmente integrando numa sociedade que os não rejeita, insistir nas maldades da colonização e do racismo, mesmo sob a desculpa de que é arte, parece-me pelo menos insensato. Talvez Grada Kilomba pudesse aplicar os seus dotes artísticos e a sua raiva anti-racista em países como os Estados Unidos. Mas em Portugal é fazer muito mais mal do que bem. Mas talvez seja essa a intenção da artista…

Deixe o seu comentário

Your email address will not be published.