Durante anos, o Google e a Wikipédia identificaram um homem inocente como um assassino em série

freefotouk / Flickr

Pode parecer um caso de ficção, mas aconteceu na vida real. Um homem com o mesmo nome de um assassino em série viu uma foto sua ser amplamente partilhada na internet ao longo dos anos. O erro fez com o norte-americano, que até então era um cidadão anónimo, passasse a viver com um sentimento de medo.

O erro já foi corrigido, mas a imagem de Nathaniel White foi divulgada durante anos na Wikipédia e no Google.

O Nathaniel White que matou seis mulheres em Nova Iorque no início dos anos 90 não é o mesmo Nathaniel White que era encontrado em imagens do Google. Este também não é o homem que durante dois anos apareceu para figurar a imagem do assassino em série na página da Wikipedia, onde ao lado estavam inscritas descrições das suas vítimas, que incluem um adolescente de 14 anos e várias mulheres.

O homem que aparecia nestas imagens não é um assassino em série e também nunca esteve em Nova Iorque. Ainda assim, a sua fotografia disseminou-se na internet ao longo dos anos, sempre associada ao Nathaniel White que efetivamente matou várias pessoas. Este lapso fez com que o cidadão, que mora na Flórida, vivesse com um constante medo de vingança.

De que forma é que as imagens foram confundidas?

Tudo começou quando um programa do canal Discovery , chamado “Evil Lives Here”, que foi para o ar em 13 de agosto de 2018, mostrou a imagem errada de White como parte de um programa sobre o serial killer norte-americano.

A fotografia apareceu nos ecrãs por apenas um breve momento da transmissão, mas foi o suficiente para ir parar à Wikipedia e ser disseminada pelo Google. E assim foi durante dois anos.

Confrontado com a insegurança e o medo de viver com o rótulo de assassino, White avançou com um processo contra o canal Discovery, alegando invasão de privacidade, difamação por calúnia, inflição intencional de sofrimento emocional e inflição negligente de sofrimento emocional. A ação judicial também mencionou o Google, o Facebook, o Twitter, e a Wikipedia, entre outros motores de busca e empresas de tecnologia.

O caso chegou até à barra dos tribunais, mas o juiz decidiu que, de acordo com a Secção 230 do Communications Decency Act, estas empresas não eram responsáveis ​​pelos danos morais causados a White. Porém, o processo contra o canal Discovery ainda continua de pé.

Um dos advogados de White, Charles Barfield, sustenta, em declarações ao VICE, que esta situação foi “traumática, emocionalmente e psicologicamente” para o seu cliente. “A imagem dele está em todo o lado. A pandemia de covid-19 salvou a sua vida, pois o uso de máscara ajudou a que White passasse despercebido”. O representante de White recorda ainda um momento em que o seu cliente foi abordado por um vizinho que viu o documentário do canal Discovery e pensou que este fosse o assassino em série.

As leis abertas da Flórida são parcialmente responsáveis ​​pela facilidade com que os dois homens foram confundidos, pois as fotos são facilmente acessíveis ao público – sendo esta a principal razão pela qual o “Homem da Flórida” aparece nas notícias online com tanta frequência.

A verdade é que este homem também é cadastrado: cumpriu pena na prisão estadual por roubo e agressão grave, e foi nesta altura que a sua fotografia foi tirada. Porém, White foi libertado há sete anos. Já o verdadeiro assassino em série está a cumprir 150 anos de prisão perpétua num estabelecimento de Nova Iorque.

A disseminação de imagens na Wikipédia e no Google

O editor da Wikipedia que adicionou a fotografia errada de White, cujo nome de utilizador é Vwanweb, retirou-a de um site chamado crimefeed.com, de acordo com Andreas Kolbe, editor da Wikipedia e ex-co-editor da Wikipedia Signpost.

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Sites como este extraem bancos de dados da polícia e publicam imagens e nomes de pessoas sem o seu consentimento. Essas imagens acompanham as pessoas pelo resto das suas vidas, independentemente do crime que cometeram ou se, posteriormente, foram declarados inocentes ou culpados.

“Acredito que, como muitos outros editores, o Vwanweb simplesmente seguiu as práticas da comunidade que se observaram aqui”, referiu Kolbe ao VICE. Mas, para Kolbe, a situação também é uma oportunidade de mostrar de que forma os editores da Wikipedia operam.

Kolbe admitiu que gostaria de ver a Wikimedia Foundation, o grupo sem fins lucrativos que possui e opera a Wikipedia, designar uma equipa  paga para verificar as fotos de origem policial que aparecem no site. “Estas são fotos de pessoas reais”, alerta, acrescentando que um erro desta dimensão pode “causar sofrimento real” na vida das vítimas.

Ainda assim, a fotografia errada já foi retirada da Wikipedia.

Relativamente ao Google, o caso teve outras repercussões. As informações no painel de conhecimento – uma caixa que aparece em alguns resultados de pesquisa e contém informações rápidas sobre um tópico – às vezes também apresentam falhas.

O painel de conhecimento de Nathaniel White faz uma ligação à página da Wikipedia, onde a imagem errada era exposta e, durante anos, mostrou a foto do homem errado como a primeira imagem que os utilizadores viam ao pesquisar pelo nome. Os advogados de White revelaram ao VICE que tentaram entrar em contacto com a Google para remover as imagens, mas a empresa não tomou qualquer medida.

No entanto, depois do VICE entrar em contacto com a Google para obter mais detalhes do caso, a empresa removeu as imagens de White.

No entanto, os advogados de White continuam frustrados com a decisão, pois frisam que estas empresas continuam protegidas pela Secção 230.“Quando o Congresso implementou a 230, nenhuma destas empresas de tecnologia existia”, refere a equipa de advogados, que considera que seria importante fazer uma atualização da lei.

  ZAP //

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