FMI quer portugueses a trabalhar mais anos e com menos direitos na reforma

Lusa

Subir Lall

Subir Lall

O chefe da missão do FMI em Portugal, Subir Lall, defendeu que a reforma do sistema de pensões deve fazer com que as pessoas trabalhem mais anos, acrescentando que, no limite, é preciso aumentar impostos para o pagar.

Em entrevista à Lusa, a propósito do relatório Da crise à convergência: traçar um rumo para Portugal, assinado por Lall em conjunto com outros dois economistas do Fundo Monetário Internacional (FMI), Dmitry Gershenson e Albert Jaeger, o chefe da missão do Fundo em Portugal afirma que “é importante ter uma discussão sobre o que pode ser feito” e que “é importante ter todas as opções em cima da mesa”.

“Em última instância, é uma questão orçamental. Há os que recebem e há os que pagam o sistema e é preciso procurar qual é a melhor forma de organizar a partilha deste peso”, afirmou Subir Lall, acrescentando que, “se algumas opções são excluídas completamente, isso quer dizer que os impostos vão continuar a aumentar para pagar o sistema”, o que disse não ser desejável.

Subir Lall explicou que, tendo em conta o perfil demográfico de Portugal, cuja população está a envelhecer e cuja esperança média de vida está a aumentar, é expectável que “as pessoas vão trabalhar mais anos”, pelo que “é preciso desenhar o sistema de uma maneira que incentive o trabalho” para que o sistema de pensões “se adapte à estrutura do emprego e da demografia”.

No relatório, os economistas do FMI escrevem que Portugal implementou uma série de medidas no sistema de pensões nos últimos anos, como a introdução do fator de sustentabilidade que indexa as pensões à esperança média de vida, o aumento da idade da reforma para os 66 anos, a suspensão da indexação das pensões ao crescimento e à inflação (exceto para as pensões mínimas) e a criação de uma taxa de solidariedade para as mais elevadas.

No entanto, consideram que o impacto na despesa que decorre destas mudanças “tem sido limitado” e que “as reformas introduzidas até agora vão gerar poupanças apenas no longo prazo devido à extensão das regras de proteção dos direitos adquiridos para os atuais pensionistas”, esperando-se que a despesa aumente.

Por isso, uma das sugestões deixadas por Subir Lall no relatório é que a reforma das pensões tenha como objetivo “limitar a indexação e reduzir o período de transição para no novo sistema”, considerando que “os mecanismos de indexação (baseados no crescimento económico e na inflação) que foram suspensos durante o programa de ajustamento devem ser revisitados (exceto para as pensões mínimas)”.

Isto porque, argumentam, apesar de o fraco crescimento e a baixa inflação conterem a dinâmica das pensões no curto prazo, “é preciso uma fórmula mais sustentável para prevenir um aumento pró-cíclico da despesa com pensões no futuro”.

Recompensa por anos adicionais

Outra recomendação é que Portugal “reduza os direitos adquiridos para os que ainda não se aposentaram” e que “aperte algumas das regras de elegibilidade para as pensões, particularmente para os que receberiam pensões da Caixa Geral de Aposentações“.

No relatório, é ainda recomendado que, além do ajustamento das pensões em função da esperança média de vida, “pode ser aplicado um fator de ajustamento económico aos bónus das pensões”, de maneira a “condicionar o pagamento destes bónus ao alcance de um certo nível de crescimento económico”, tal como foi feito na Hungria.

Finalmente, Lall, Gershenson e Jaeger escrevem que esta reforma das pensões “pode contribuir para uma maior participação no mercado de trabalho”.

Sublinhando que Portugal já introduziu bónus com o objetivo de adiar a aposentação, os economistas defendem que os próximos passos devem passar por “aumentar a recompensa pelos anos adicionais de descontos para os trabalhadores com baixos rendimentos”.

No que se refere às pensões mínimas, a recomendação é que estas “aumentem em proporção ao número de anos de contribuições, eliminando os aumentos fixos atuais (nos 20 e nos 30 anos de descontos), o que cria incentivos para a informalidade”.

Em entrevista à Lusa e, quando confrontado com o compromisso do Governo de não tocar nas pensões já em pagamento, Subir Lall disse que é preciso “esperar pelas propostas específicas para ver o que isso significa”, adiantando que é necessário garantir que a reforma das pensões “não é muito dolorosa para nenhum grupo” e que, ao mesmo tempo, garanta a sustentabilidade necessária.

No documento, os três economistas olham para o que Portugal alcançou durante o resgate financeiro e indicam o que consideram que o país deve fazer a seguir para ultrapassar os desafios que se colocam, sendo que este relatório não representa necessariamente a visão do Conselho de Administração do FMI.

A equipa liderada por Subir Lall está atualmente em Lisboa para realizar a quarta missão pós-programa que, desta vez, coincide com a análise da economia portuguesa ao abrigo do Artigo IV, segundo o qual a instituição avalia as economias dos seus membros periodicamente (regra geral anualmente).

Desempregados devem ser ouvidos sobre políticas laborais

O chefe da missão do FMI em Portugal defendeu na semana passada, em Lisboa, que os trabalhadores desempregados devem ser ouvidos nas negociações relativas às políticas do mercado de trabalho.

Subir Lall participou a 20 de junho numa conferência sobre a desigualdade salarial na Europa, nos Estados Unidos e na América Latina, organizada em Lisboa pela Universidade Nova, onde afirmou que “os desempregados também devem ser integrados” no diálogo social, sublinhando que “há muitos que não estão nos sindicatos“.

No final da conferência, o chefe da missão do FMI em Portugal disse aos jornalistas que, “em termos de mecânica, é algo que tem de ser discutido”, mas considerou que esta discussão deve ser feita a nível nacional.

“Na Europa, por exemplo, estão a considerar um conselho nacional de competitividade que represente toda a gente. Mas, claramente, isso tem de ser definido a nível nacional, porque o que funciona num país pode não funcionar noutro”, disse.

O economista do FMI entende que, “se há políticas que afetam toda a força de trabalho e toda a gente que a compõe, então [os desempregados] devem estar representados nas discussões porque em última instância essas políticas também os afetam”.

Afirmando que “ser inclusivo e transparente é sempre bom”, Subir Lall deu ainda um outro argumento para ouvir os desempregados quanto às políticas do mercado de trabalho: “É um governo democraticamente eleito apesar de tudo, representa toda a gente”.

Subir Lall afirmou que o mercado de trabalho é uma parte importante do ajustamento de uma economia, mas alertou para o risco de se procurar “resolver todos os problemas” através do mercado de trabalho.

Recordando que, durante o programa de resgate, o salário mínimo nacional de Portugal esteve congelado, Subir Lall disse que “subir o salário mínimo sem aumentar a produtividade traz problemas para o futuro”.

“Claro que é preciso impedir que a desigualdade aumente demasiado. Como é que se aumentam os salários? Aumentando a procura, não é aumentando o salário. Se estão preocupados com a desigualdade e com a pobreza, têm de se preocupar com os desempregados”, defendeu.

ZAP / Lusa

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31 COMENTÁRIOS

  1. Um dos muitos recentes e fieis seguidores das austeras medidas após ter deixado o Ministério das Finanças foi recebido de braços abertos no FMI para fazer uns estudos económicos. Em questões sócio-económicas vão opinar com um espelho à frente das ventas, sff. As sociedades não são para experiências com seres humanos. O que tem este senhor a dizer sobre o mais recente auxílio financeiro do FMI a Angola e sobre as causas do mesmo? Fuxit

  2. Este individuo não sabe o que diz nem diz o que sabe, mas está bem encaixado em Portugal pois temos muitas pessoas como esta os chamados pessoas cheias de ideias isto é os IDIOTAS.

  3. O país deste crome é pior que terceiro mundista… em vez de aplicar a pouca sabedoria que tem no país dele, vem armado em pavão aplicar nos outros.. pois eu desejo que o FMI desapareça da face da terra.

  4. P/ que todos os portugueses continuem a ter um sistema social +/- sustentável tem de se ACABAR c/ os tachos que os politicos matem e criam entre si e p/ si próprios. Enquanto não acabarem c/ estes parasitas/ Sanguessugas não haverá sistema social que aguente! De onde se tira e não se põe ou nem se tem dá em COLAPSO.
    Dá vontade de dizer volta SALAZAR estás perdoado – sim porque este senhor que chamam fascista foi quem criou o estado social em Portugal, os ditos “democráticos” estão a arruiná-lo com a vigarices que fazem…

    • E diz isso porque sabe ou ouviu falar? É que a segurança social apareceu depois do 25 de Abril. E sei que se está a referir às caixas de previdência que estavam longe de serem iguais e, ainda mais, de serem universais e não havia protecção no desemprego. Salazar inventou o Estado social da treta, isso é que ele inventou, o da esmolinha a quem se dobra.
      E sim, ele era fascista. Basta comparar a Carta di Lavoro de Mussolini com a lei portuguesa. Tente encontrar as diferenças.

  5. as pensões já são miseráveis, há um retrocesso nas condições de vida dos pensionistas quando se reformam, não são os idosos que devem pagar a crise num momento da vida em que estão mais fragilizados e precisam de cuidados. Para o FMI as pessoas não contam, só as políticas económicas, o neoliberalismo selvagem venceu!

    • E que tal dar-lhes é uma tarei e correr com eles do país?
      Com eles e com a chusma de chulos que nos governa, sim, porque apesar de tudo só as moscas mudaram, a porcaria é a mesma, nada como uma valente mudança para que tudo fique na mesma.
      É pena que sejamos um povo tão brando, mas a saída da comunidade europeia devia ser para votar e já.

  6. O que é preferivel? Obrigar as pessoas a arrastarem-se até aos 80’s… e deixar jovens desempregados e a receberem o respetivo subsidio de desemprego, ou reformar as pessoas mais cedo e renovarem o panorama laboral?!

  7. O problema é muito simples de se resolver, aplica-se a mesma lei que na Suiça: o valor a receber por mês durante a reforma não pode ultrapassar duas vezes o valor mínimo da reforma! Isso sim, é ser justo! Mas isso já não interessa aos políticos, sejam eles de que “cor” forem… Que tal fazer-se um referendo relativamente a isso?

    “By law, the maximum pension may not be more than twice the minimum pension.”
    https://www.ch.ch/en/retirement-benefits/

  8. Estes parasitas incompetentes e mafiosos do FMI (que não fazem nada, não pagam impostos, etc, etc e ainda ganham milhões), deviam era ir dar conselhos aos cães!…

  9. É burro todos os dias. Será que ao aumentar os anos de trabalho aos mais idosos não está a tirar trabalho aos mais jovens? E que tal cortar nas reformas dos políticos? Disso eles não se lembram. Cambada de imbecis.

  10. Acabem com o dinheiro em papel … apenas dinheiro eletrónico … e resolve-se quase toda a corrupção do mundo … o rasto fica sempre … e ver-se-á quem é quem … e quem é que tem 🙂

    • AHAHAHAHAHHAHA Isso é o que os grandes banqueiros querem!
      “Olha olha o dinheiro a ser feito do nada e sem o equivalente em ouro para o emitir!” Já o é agora, depois disso ainda pior!
      Isso não devemos permitir!

  11. 1º Acabar com essa corja de Abutres
    2º Colocar um limite de 1500 euros nas reformas e acabam-se os problemas de liquidez das pensões.
    Quem quiser mais que faça Seguros/PPR´s

    • Ó Sergio 1500€ é pouco pra mim pelo que descontei e pelo que ganho neste momento tenho de trazer pelo menos 2750€ senão vou continuar a trabalhar e não vou dar lugar a 1 mais novo.pra informação tenho 63 anos já desconto há 43 e estou a pensar reformar me aos 65. Mas se os cálculos não derem aquilo vou até aos 70 se for preciso e se mantiver as capacidades que tenho agora

  12. Quem é este tipo, de onde vem, que credenciais tem para dar conselhos, quanto ganha e quem lhe paga? Com estes dados poderíamos começar a compreender que interesses serve. Se começarmos a “puxar o fio à meada” provavelmente chegaremos à conclusão que bom mesmo é seguir o caminho do Reino Unido.

    Já agora, convido a todos os que comentaram este artigo a ir ao Facebook fazer ouvir as vossas vozes sobre a cambada de bem-pensantes que por lá pululam.

  13. E que tal Toda a corja do FMI começar a pagar impostos e /ou receberem o ordenado mínimo equivalente ao português. Organização execrável.

  14. O mal de tudo isto é dependermos dos outros, fala-se muito mas continua-se a estender a mão á caridade, depois aparecem estes doutores pouco inteligentes mas muito bem pagos a mandar-nos apertar o cinto.

  15. estou com 50 anos de descontos estou a espera que me digam já chega de trabalho faço maquinas para contrubuir para o desemprego

  16. Devias era ser fecundado por um paquiderme ó FDP. Qto a reformas? Aumentar a idade para trabalhar? Reducao das reformas? Sinceramente, porque não deixam simplesmente de existir reformas? Reforma aos 70 anos? Eu nao a quero, obrigado. Mas! tb nao desconto! Já fugi do meu pais mãe para nao voltar. Ide ter com os paquidermes! LADROES.

  17. Esta besta deve querer os portugueses como as pessoas do paìs dele a morrerem a fome, que nem caes vadios, gente pele e osso, miserável, ao contrario dele que esta que nem pote de banhas. Desaparece, vai morrer longe.

  18. Pelos seus traços fisionómicos, percebe-se que é um tipo do terceiro mundo. Deveria de opinar sobre questões do terceiro mundo. Mas também temos um aldrabão no poder com as mesmas origens… De qualquer forma deveríamos de ter estratégias europeias de desenvolvimento e não nos metermos com esse pessoal que está habituado a viver com arroz e uma barraca no meio da poluição industrial.

  19. Claro! E se possivel trabalhar até aos 90 anos que é para morrerem antes de receber reforma.
    Não há duvida que esta Europa, diria mesmo, este Mundo, caminha para um retrocesso civilizacional que nos conduzirá a uma guerra global.
    Além da falta de respeito evidenciada por este monhé do FMI, ao faltar a uma reunião que ele próprio solicitou, o que me parece haver é uma enorme vontadinha de continuarem a sugar-nos até ao osso..

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