FMI admite que errou na avaliação da crise em Portugal

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A diretora-geral do FMI, Christine Lagarde

A diretora-geral do FMI, Christine Lagarde

O organismo de avaliação independente do FMI considera que o Fundo “não anteviu a magnitude dos riscos” que Portugal, Grécia e Irlanda enfrentaram durante a crise, concluindo que o programa português e o grego “incorporaram projeções de crescimento demasiado otimistas”.

No documento divulgado esta quinta-feira, o Independent Evaluation Office (IEO) do Fundo Monetário Internacional (FMI), um organismo interno da instituição liderada por Christine Lagarde, olha para o trabalho do Fundo nos programas de resgate em Portugal, na Grécia e na Irlanda durante a crise financeira internacional e faz uma avaliação quanto a cinco aspetos centrais: a fiscalização, a tomada de decisão, o trabalho com os parceiros europeus, o desenho e a implementação dos programas e o cumprimento das normas e transparência.

“A fiscalização do FMI anterior à crise identificou essencialmente os problemas certos, mas não anteviu a magnitude dos riscos que mais tarde se tornariam fundamentais”, lê-se no relatório ontem publicado.

Sublinhando que a fiscalização da arquitetura da regulação financeira da zona euro “foi no geral de elevada qualidade”, o IEO afirma que os técnicos do FMI “não viram o crescimento dos riscos do sistema bancário em alguns países” e “partilharam a perspetiva amplamente difundida de que ‘a Europa é diferente'”.

De acordo com o IEO, esta perspetiva encorajou a visão de que “os grandes desequilíbrios das contas nacionais não eram grande motivo de preocupação e que não podiam acontecer bloqueios repentinos na zona euro”.

No que se refere à tomada de decisão, o IEO considerou que o Conselho de Administração do FMI aprovou um financiamento excepcional para a Grécia “sem procurar antecipadamente uma reestruturação da dívida”, ainda que a dívida soberana grega fosse considerada insustentável “com elevada probabilidade”.

Já quanto à parceria com as instituições europeias envolvidas nos resgates destes três países (a Comissão Europeia e o Banco Central Europeu), a equipa liderada por Shinji Takagi afirma que “o FMI, tendo considerado que a possibilidade de emprestar a um membro da zona euro era improvável, nunca articulou tão bem como devia o desenho do programa com um país do euro, incluindo as condicionalidades quanto às políticas sob controlo das instituições regionais”.

Assim, este organismo independente entende que a troika (FMI, Comissão Europeia e BCE) foi “um mecanismo eficiente para conduzir as discussões dos programas com as autoridades nacionais”, mas considera que “O FMI perdeu a sua agilidade característica como gestor de crise”.

“E porque a Comissão Europeia negociou em nome do Eurogrupo, os mecanismos da troika subjugaram potencialmente os julgamentos técnicos do FMI a pressões políticas desde muito cedo”, alerta ainda o documento.

“Um cão a perseguir a própria cauda”

Relativamente ao desenho e à implementação dos programas, esta avaliação independente conclui que “os programas na Grécia e em Portugal incorporaram projeções de crescimento demasiado optimistas” e considera que “projeções mais realistas teriam tornado claro o impacto provável da consolidação orçamental nas dinâmicas do crescimento e da dívida”.

Se isto tivesse acontecido, defende o IEO, as autoridades ter-se-iam preparado em conformidade ou persuadido os parceiros europeus a considerarem um financiamento adicional, “preservando a credibilidade do FMI como uma instituição independente e tecnocrata”.

O IEO conclui que “as lições das crises passadas não foram sempre aplicadas” e diz que um exemplo disso foi “quando o FMI subestimou a resposta provavelmente negativa dos credores privados a programas de alto risco”.

O relatório afirma que o ajustamento colocou um “foco extraordinário” no esforço orçamental. Contudo, conforme cita o jornal i, a dimensão do ajustamento “pode ter sido excessiva nestes países”, onde o impacto orçamental das medidas não foi bem calculado e não se deixou atuar livremente medidas conhecidas como estabilizadores automáticos – medidas contra-cíclicas como o reforço do subsídio de desemprego quando há mais desempregados.

O documento questiona mesmo a opção por um ajustamento orçamental tão pró-cíclico, com demasiadas medidas recessivas que agravaram a situação da economia.

Além disso, os economistas não encontram justificação para que, tanto para a Grécia como para Portugal, as metas para o défice nominal tenham sido revistas ao longo do programa, em função da evolução do PIB, que contraiu mais do que o esperado.

Ao indexar o défice ao PIB, refere o relatório, há uma espécie pescadinha de rabo na boca: como o PIB diminui, o défice em função do PIB aumenta, e são necessárias mais medidas de consolidação, “exacerbando a contração”. “Esta abordagem é auto-destrutiva, tal como é caso de um cão a perseguir a própria cauda“, refere o relatório.

Em contrapartida, no caso da Irlanda, não houve revisões das metas do défice e permitiu-se que os estabilizadores funcionsassem em pleno, “contribuindo para a correcção orçamental e uma recuperação mais cedo”.

A própria composição do ajustamento orçamental, baseado sobretudo em aumentos de impostos e não em cortes de despesa, é alvo de críticas. “Nesta perspectiva, a implementação dos programas foi, em alguns casos, prejudicial ao crescimento e, como corolário, inimiga da sustentabilidade da dívida”.

Minimizar intervenção política

No último ponto – o cumprimento das regras e a transparência – o IEO considera que a forma como a instituição liderada por Christine Lagarde geriu a crise nos países do euro “levantou problemas”, que “ajudaram a criar a perceção de que o FMI tratou a Europa de maneira diferente”.

Na argumentação, a equipa do IEO refere que “foi desafiante” realizar esta avaliação, uma vez que “alguns documentos sobre assuntos sensíveis foram preparados fora dos canais regulares e estabelecidos”, tendo sido detetada uma “falta de clareza”.

O IEO lista cinco recomendações ao FMI para que corrija ou melhore o seu desempenho, sendo a primeira que o Conselho de Administração desenvolva “procedimentos para minimizar a margem para a intervenção política na análise técnica do FMI”.

Além disso, o IEO considera que o Fundo deve “reforçar os processos existentes para garantir que as políticas acordadas são seguidas e que não são alteradas sem uma deliberação cautelosa” e que deve “clarificar as orientações para os programas a aplicar a membros de uniões monetárias”.

Por último, é também recomendado que o FMI estabeleça “uma política de cooperação com os mecanismos de financiamento regionais” e que “reafirme o seu compromisso com o cumprimento das regras e transparência e com o papel de avaliador independente que promova boa governança”.

ZAP / Lusa

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8 COMENTÁRIOS

  1. Não há duvida que errou. Basta ver que os bancos estavam falidos mas ninguém foi buscar os milhões de prémios e activos que os administradores receberam. O estado estava falido mas ninguém cortou os 700 Milhoes de suplementos e salários chorudos de milhares de funcionários e organismos parasitas. A seg social falida continua a pagar as pensões vitalícias e chorudas. Os contratos PPPs com custos para o estado e lucro para as concessionárias também se mantiveram. Errou a valer e vai continuar a errar cada vez mais.

    • Nem mais… Enquanto andarem a tapar o sol com a peneira e a atirar areia para os olhos dos cidadãos, nunca vão acertar nos cálculos.

  2. A Sra Lagarde e, já agora, as mentecaptas empresas de rating e decerto Até Schauble. O simples facto de se dizer que Portugal é assim ou assado em convencida pública afecta financeiramente um país. E depois veio a correr vida telefónica para dizer que era melhor não se aplicarem sanções. Francamente! !!

  3. Está comprovado que estes organismos internacionais estão todos a ser geridos por gente incompetente e pior do que isso cada qual puxa para seu lado o problema é que a nível caseiro estamos piores ainda porque se assim não fosse não teríamos que recorrer a eles para nos sustentarmos.

  4. Já há tempos a esta parte que a imagem que tenho desta instituição é cada vez pior.
    Se formos investigar os interesses e as ligações desta gente facilmente percebemos que é uma autêntica máfia.
    Aquele que era um organismo que servia para ajudar Países em dificuldades, obtendo naturalmente a sua remuneração nos empréstimos internacionais aos Estados, é hoje, um fomentador de instabilidade económica nos países, juntamente com os ordinários e mafiosas agencias de rating que, conjugados e a seu bel prazer, sugam os Países que, antecipadamente, decidem ” afundar”.
    Cambada de abutres agiotas.

  5. Vocês do FMI não têm vergonha na cara? Andaram a dar conselhos e obrigar o Passos a fazer figura de marionete, até o classificaram de bom aluno, agora ultimamente têm dito que o governo cometeu alguns erros… Então como é?
    Se ele fazia o que vocês mandavam e se cometeu erros, foram vocês os culpados. Decidam-se trastes a assumir as culpas, pq cá no burgo são capazes de se comerem uns aos outros atirando culpas, que afinal são vossas, pq vocês é que mandavam… gente incompetente!!!

    Olhem lá se o Passos tivesse aceitado a última tranche no valor de 6 mil milhões de euros, que fazia assim os 78 mil milhoes inicialmente pedidos? Ele recusou os 6 mil milhões, era mais esse + os juros que o Tuga tinha que pagar. Assim ficou só pelos 72 mil milhões e já não é nada pouco.

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