Estudo mostra como era ser lésbica durante a Alemanha Nazi

Bundesarchiv, B 145 Bild-F051673-0059 / CC-BY-SA / Wikimedia

Adolf Hitler e Eva Braun.

Adolf Hitler e Eva Braun.

Uma nova pesquisa realizada na Universidade de Stanford, nos EUA, revela que o regime nazi tinha uma “tolerância limitada” para com a homossexualidade feminina, provavelmente por considerar que as mulheres não tinham tanta importância social como os homens.

O investigador Samuel Clowes Huneke analisou ficheiros da polícia da década de 1940, envolvendo casos de homossexualidade, e chegou à conclusão de que havia “uma existência mais normal na experiência diária de algumas lésbicas no Terceiro Reich”, cita a Universidade de Stanford no seu site.

Os homossexuais homens eram perseguidos, durante o regime nazi, e cerca de 50 mil terão sido condenados nesse período. Destes, entre cinco mil a 15 mil foram enviados para campos de concentração e 60% deles terão morrido, segundo os dados disponíveis.

A Lei incluía a criminalização explícita de actos homossexuais entre homens, mas não tinha referência às mulheres e há, de resto, muito poucos documentos ou referências a lésbicas durante a ditadura de Hitler.

Apesar disso, Huneke encontrou quatro casos de oito mulheres investigadas pela polícia criminal da Alemanha nazi – a Kriminalpolizei ou Kripo -, por acusação de homossexualidade.

O investigador chegou a estes ficheiros pelos arquivos estatais de Berlim, com depoimentos assinados das acusadas e de testemunhas, e apurou que todas tinham sido denunciadas por vizinhos, colegas de trabalho ou familiares.

“Que estas oito mulheres tenham sido denunciadas à polícia criminal de Berlim, no início dos anos 1940, é impressionante só por si, dado o silêncio dos arquivos no que se refere à homossexualidade feminina”, escreve Huneke no artigo científico publicado no Journal of Contemporary History.

O investigador também encontrou anotações de que não haveria indícios suficientes para as condenar.

Ora, “para estudiosos habituados a ver no estado nazi uma selva de jurisdições sobrepostas, de iniciativa pessoal e de lei baseada apenas nos desejos do Führer, este é um retrato curioso do sistema de justiça nazi, marcado por uma inesperada preocupação pela estrita interpretação dos estatutos”, considera ainda Huneke.

O caso de Margot Holzmann, uma lésbica judia que vivia em Berlim, espantou especialmente o investigador. Esta mulher casou, em 1941, com um empregado chinês, passando a deter a nacionalidade chinesa e terá evitado, deste modo, a deportação para um campo de concentração.

Foi o marido que a denunciou quando teve conhecimento do seu caso lésbico, mas a polícia acabou por não fazer nada contra ela.

“É francamente bizarro que a polícia criminal insistisse, em vários documentos, sobre as protecções conferidas a uma lésbica judia alemã em virtude da sua cidadania chinesa”, assinala Huneke na investigação.

Perante estes dados, o investigador não duvida de que havia “um nível de tolerância” para com a homossexualidade feminina no regime.

“O género é, talvez, a razão porque as lésbicas não eram perseguidas da mesma forma” que os homossexuais masculinos, conclui Huneke, notando que a homossexualidade feminina era “menos ameaçadora” para a sociedade e para o ideal de reprodução da espécie.

E, no fundo, as mulheres teriam também menos importância social, uma vez que não tinham grande participação na vida política activa.

Huneke repara ainda que esta “tolerância” para com as lésbicas reflecte também “as negociações complexas entre repressão e tolerância de que os regimes autoritários dependem”.

SV, ZAP //

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1 COMENTÁRIO

  1. (…) “as mulheres teriam também menos importância social”… melhor não ter tanta importância social e não serem perseguidas e mortas do que ter um cargo de visibilidade que conduz à morte. Em todo o caso… mulheres feministas lésbicas (assim como feministas heterosexuais e homens feministas) não podem dizer que foram e são oprimidas e que o machismo é que mata. Só esta notícia esclarece que as mulheres são beneficiadas (uma vez mais) pelo sistema.

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