Estrelas-do-mar capazes de mudar de cor não têm olhos, mas conseguem “ver”

(dr) Lauren Sumner-Rooney

Ophiocoma wendtii

Uma nova investigação indica que a estrela-do-mar Ophiocoma wendtii é capaz de ver estímulos visuais e que a sua mudança de cor característica pode desempenhar um papel importante nesse fenómeno.

Uma equipa de cientistas demonstrou, pela primeira vez, que a estrela-do-mar Ophiocoma wendtii usa a visão para se guiar através dos recifes de coral, graças a um truque de mudança de cor.

Esta espécie captou atenção científica há cerca de 30 anos, graças à sua drástica mudança de cor entre o dia e a noite e pela sua forte aversão à luz. Recentemente, num artigo científico publicado na Current Biology, os cientistas mostraram que a O. Wendtii é coberta por milhares de células sensíveis à luz, ainda que os comportamentos exatos que controlam este mecanismo permaneçam um mistério.

Lauren Sumner-Rooney, cientista do Museu de História Natural da Universidade de Oxford, no Reino Unido, conduziu centenas de experiências comportamentais para testar a “visão” destas estrelas-do-mar, juntamente com membros da equipa do Museum für Naturkunde, na Alemanha, da Universidade de Lund, na Suécia, e do Instituto de Tecnologia da Geórgia.

As experiências deram “não apenas a primeira evidência de que qualquer estrela quebradiça é capaz de ‘ver'”, como também o “segundo exemplo conhecido de visão em qualquer animal sem olhos”.

Os animais conseguiram procurar áreas de contraste, que os cientistas acreditam que podem imitar estruturas capazes de oferecer abrigo contra predadores. No entanto, uma descoberta inesperada levantou novas questões sobre o funcionamento deste sistema visual.

“Ficamos surpreendidos quando descobrimos que as respostas que vimos durante o dia desapareceram em animais testados à noite. No entanto, as células sensíveis à luz pareciam estar ativas”, resumiu Sumner-Rooney, citada pelo Sci-News.

Para tentar descobrir a causa desta mudança de comportamento, a equipa eliminou fatores como a perda de motivação e a baixa densidade de luz, mas não descartou a mudança de cor característica de O. wendtii, que varia entre um vermelho escuro durante o dia e bege à noite.

A equipe de Sumner-Rooney já havia demonstrado que outra espécie de estrela-do-mar – Ophiocoma pumila – também estava coberta com sensores de luz, mas não apresentava qualquer mudança de coloração. Curiosamente, esta espécie mais pálida também falhou no exame oftalmológico.

Combinando um conjunto de técnicas, os cientistas reconstruiram modelos digitais de células sensíveis à luz individuais nas duas espécies. A equipa mostrou que, durante o dia, o pigmento restringia a luz que chegava aos sensores num ângulo mais estreito que corresponde à resolução visual hipotética.

Sem esse pigmento – em O. pumila e, durante a noite, em O. wendtii – a luz poderia alcançar os sensores de um ângulo muito mais amplo, tornando desta forma a visão impossível.

“É uma descoberta muito emocionante. Foi sugerido há 30 anos que a mudança de cor poderia ser a chave para a sensibilidade à luz, por isso estamos muito felizes”, disse Sumner-Rooney. De acordo com o matutino, os cientistas também identificaram possíveis semelhanças com um ouriço-do-mar, parentes distantes destas estrelas.

ZAP //

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