Escolas encerradas empurram milhões de crianças para o trabalho infantil

UNICEF

Milhões de crianças correm o risco de serem forçadas a fazer trabalho infantil, como resultado da pandemia do novo coronavírus. Isto poderá levar ao primeiro aumento no trabalho infantil, depois de 20 anos de progresso.

De acordo com um relatório publicado em junho pela Organização Internacional do Trabalho (OIT) e pela UNICEF, o trabalho infantil diminuiu 94 milhões desde 2000, mas esta redução está agora em risco.

As crianças que já sofriam de trabalho infantil estarão a trabalhar mais horas e sob piores condições, revela o relatório. Além disso, um maior número de crianças pode ser vítima de trabalho infantil, o que causa danos significativos à sua saúde e segurança.

“Como a pandemia afeta a renda familiar, sem apoios, muitos podem recorrer ao trabalho infantil”, explicou Guy Ryder, diretor geral da OIT, citado pela UNICEF. “A proteção social é vital em tempos de crise, visto que oferece assistência aos mais vulneráveis”, acrescentou.

De acordo com o documento, a covid-19 poderá resultar num aumento da pobreza e, consequentemente, do trabalho infantil, visto que as famílias usam todos os meios possíveis para sobreviver. Alguns estudos mostram que o aumento de um ponto percentual na pobreza leva a um aumento de pelo menos 0,7% no trabalho infantil de certos países.

“Em tempos de crise, o trabalho infantil torna-se uma forma de muitas famílias lidarem com a situação”, disse a diretora executiva da UNICEF, Henrietta Fore. “À medida que a pobreza aumenta, as escolas fecham e a disponibilidade de serviços sociais diminui, o que faz com que mais crianças sejam empurradas para o mercado de trabalho.”

Segundo a diretora geral daquela organização, o encerramento das escolas enviou 1.6 mil milhões de estudantes para casa, dos quais 463 milhões não tiveram a opção de “aprender remotamente”.

UNICEF

As evidências de que o trabalho infantil está a aumentar são cada vez mais. O encerramento temporário de escolas afeta atualmente mais de mil milhões de alunos em mais de 130 países. E, mesmo quando as aulas recomeçarem, alguns pais poderão deixar de ter condições para mandar os filhos para a escola.

“Sabemos que fechar as escolas por períodos de tempo prolongados pode ter consequências devastadoras para as crianças“, acrescentou Fore. “Ficam mais expostas a violência física e emocional. A sua saúde mental é afetada. Ficam mais vulneráveis ao trabalho infantil e abuso sexual, e é menos provável que saiam daquele ciclo de pobreza”, disse.

Enquanto os países desenvolvidos debatem sobre a eficácia da educação online, centenas de milhões de crianças nos países em desenvolvimento não têm acesso a computadores, Internet, ou mesmo à educação. Nestes países, o encerramento das escolas faz com que as crianças vão para a rua porque as famílias estão desesperadas por dinheiro e esta é forma mais fácil de o obter.

 

Casos na Índia e na Indonésia

De acordo com o New York Times, todas as manhãs em frente aos apartamentos de habitação pública Devaraj Urs, nos arredores de Tumakuru, na Índia, um monte de crianças entre os 6 e os 14 anos de idade aparece na rua.

Mas, ao contrário do que se possa pensar, estas crianças não saem de casa com a mochila às costas para ir às aulas. Em vez disso, cada uma carrega um saco plástico sujo para vasculhar caixotes de lixo à procura de plástico reciclável.

As escolas indianas fecharam em março devido à pandemia do novo coronavírus, e muitas crianças, como é o caso de Rahul, viram-se obrigadas a ir trabalhar.

“Odeio isto”, disse Rahul, um menino de 11 anos, considerado “brilhante” pela sua professora.

A família de Rahul pertence a uma das castas mais baixas. Para o seu pai, Kempraju, que sempre foi apanhador de lixo, este tipo de trabalho “não é respeitável”, mas quer manter o filho longe de problemas e precisa de uma ajuda extra.

Muitas destas crianças não têm possibilidades de comprar sapatos e fazem as suas rondas descalças (e, por vezes, a sangrar). Além disso, não usam qualquer tipo de proteção, como máscaras ou luvas, e ganham apenas alguns cêntimos por hora. Mais tarde naquele dia, Rahul encontrou um par de chinelos numa pilha de lixo e calçou-os.

“Isto é uma vergonha”, desabafou a professora de Rahul, N. Sundara Murthy. “Crianças que não estavam a apanhar lixo, passaram a ter de o fazer. As escolas precisam de reabrir”, acrescentou.

“Rahul é um bom aluno”, disse Murthy. “O seu poder de absorção é muito bom. O seu vocabulário é muito bom. Ele tem um QI elevado. Rahul diz que quer ser médico e é capaz de o ser, se tiver as condições adequadas.”

As Nações Unidas estimam que, pelo menos, 24 milhões de crianças irão abandonar os estudos e que uma parte poderá começar a trabalhar de imediato. Há crianças de 10 anos a extrair areia no Quénia e outras estão a cortar ervas daninhas em plantações de cacau na África Ocidental.

Na capital da Indonésia, Surlina, de 14 anos, pinta-se de prateado para fazer de “estátua viva” e passa o dia num posto de gasolina, com a mão estendida para pedir dinheiro, juntamente com os seus irmãos de 8 e 11 anos. A mãe destas crianças é empregada doméstica e o pai vendia pequenas esculturas antes da pandemia lhe roubar o emprego. No final do dia, Surlina dá o que ganhou à mãe.

“Não tenho escolha”, disse Surlina. “Isto é minha vida. A minha família é pobre. O que é que posso fazer?”

De volta à Índia, Shahnawaz e Mumtaz, de 10 e 12 anos, respetivamente, são mais dois irmãos que se veem forçados a trabalhar.

Eu não consigo dormir à noite. O meu corpo fica dormente”, disse Shahnawaz. Mumtaz, o seu irmão mais velho, acrescentou: “Temo que, mesmo que a escola reabra, vou ter de continuar a fazer isto, por causa da dívida da minha família.”

“Precisamos dos seus salários”, justificou Mohammad Mustakim Ansari, pai de Mumtaz e Shahnawaz. “Sem eles, não seria capaz de preparar duas refeições.”

Autoridades do governo daquele país dizem que o coronavírus lhes dá pouca escolha. O número de novas infeções chega, por vezes, às cem mil por dia e as autoridades dizem que as crianças têm dificuldade em manter o distanciamento social.

“Eles podem acabar por se tornar vetores de vírus“, disse Rajesh Naithani, um conselheiro do Ministério da Educação.

O trabalho infantil é apenas uma peça na crise global que se aproxima. A fome severa persegue crianças desde o Afeganistão ao Sudão do Sul. Os casamentos forçados de meninas aumentam em África e na Ásia, assim como o tráfico de crianças. Dados do Uganda mostraram que as gravidezes adolescentes dispararam durante o encerramento de escolas e trabalhadores humanitários no Quénia disseram que muitas famílias submetem as suas adolescentes a trabalho sexual para alimentar a família.

O relatório da OIT e da UNICEF propõe uma série de medidas para conter o aumento do trabalho infantil, incluindo proteção social mais abrangente, acesso facilitado ao crédito para famílias pobres, promoção de trabalho decente para adultos, medidas para trazer as crianças de volta à escola, incluindo a eliminação de taxas escolares, e mais recursos para inspeções de trabalho e aplicação da lei.

Novas estimativas globais sobre o trabalho infantil serão divulgadas em 2021.

Sofia Teixeira Santos STS, ZAP //

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2 COMENTÁRIOS

  1. Uma forma de aprender a dureza da vida, por cá serve para terem a liberdade e o tempo de gastarem aquilo que fará falta em casa para os sustentar e manter a harmonia familiar.

  2. Faz muita falta, no chamado mundo ocidental, que as criança sejam educadas para trabalhar, porque a maiorias acha que cai tudo do céu e depois, quando chegam a adultos, é o que se vê…
    Infelizmente, estas crianças da notícia estão na posição oposta!…

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