Mega-erupção vulcânica na Islândia foi tão brutal que “destruiu” os deuses nórdicos

Há um poema medieval islandês que conta como os deuses nórdicos Thor, Loki e Odin, foram destruídos para dar origem ao renascimento do mundo. Uma equipa de investigadores descobriu que este relato pode não ser uma mera fábula poética, mas antes a descrição da maior erupção vulcânica ocorrida na Islândia.

O poema “Völuspá”, ou “A profecia do vidente”, faz parte da tradição islandesa, mas até agora sempre tinha sido encarado como uma mera lenda sobre o renascimento do mundo, com base na ideia da destruição de deuses nórdicos como Thor, Loki e Odin, tornados famosos na saga de filmes baseada nas personagens da Marvel Comics.

Mas uma equipa internacional de investigadores apurou que o poema pode referir-se a eventos reais, relatando as consequências trágicas da mega-erupção do vulcão Eldgjá, fenómeno que terá contribuído para destruir a fé dos islandeses nos seus deuses, levando-os a virarem-se para o Cristianismo.

Analisando “registos do núcleo de gelo da Gronelândia que preservam a precipitação vulcânica do Eldgjá” e os “anéis de árvores”, estes cientistas conseguiram datar com precisão a que terá sido a maior erupção vulcânica da Islândia, nos dois últimos milénios, conforme explica em comunicado a Universidade de Cambridge, no Reino Unido, que participou no estudo.

A erupção do Eldgjá terá começado na Primavera de 939 e terá continuado até ao Outono de 940. O poema “Völuspá” terá sido escrito cerca de 20 anos depois e será o único relato directo conhecido da mega-erupção vulcânica que afundou a Islândia em 20 quilómetros cúbicos de lava, referem os investigadores no artigo científico publicado na segunda-feira no jornal Climatic Change.

Determinando uma “data concreta para a erupção”, é possível encontrar “muitos registos em crónicas medievais que se encaixam como consequências prováveis do vulcão Eldgjá”, desde “avistamentos de uma neblina atmosférica extraordinária na Europa”, a “Invernos severos” e “Verões frios e colheitas pobres“, até à “escassez de alimentos”, como afirma o vulcanologista Clive Oppenheimer, do Departamento de Geografia da Universidade de Cambridge, e um dos autores do estudo.

Salientando “o estilo de quase testemunha ocular em que a erupção é retratada no Völuspá”, Oppenheimer constata que “a interpretação do poema como uma profecia do fim dos deuses pagãos e da sua substituição pelo único, Deus singular, sugere que as memórias desta terrível erupção vulcânica foram intencionalmente provocadas para estimular a Cristianização da Islândia“, acrescenta.

Efeitos devastadores

A mega-erupção ocorreu algumas décadas depois de a Islândia ter sido colonizada por Vikings e Celtas e terá tido efeitos “devastadores para a jovem colónia”, como sublinha o historiador de literatura medieval Andy Orchard, da Universidade de Oxford, no Reino Unido. “Muito provavelmente, a terra foi abandonada e a fome foi severa“, refere.

O poema islandês fala do “sangue vital de homens condenados” e nota como “o Sol começa a escurecer, a terra afunda-se no mar; as estrelas brilhantes espalham-se pelo céu” e “o vapor jorra com o que alimenta a vida, a chama voa alto contra o próprio céu”.

Um relato poético, mas muito semelhante ao que os investigadores acreditam que pode ter acontecido. A erupção terá causado “uma neblina de poeira sulfurosa” que se espalhou pela Europa, com o Sol a assumir uma tonalidade “vermelho-sangue” e amortecida, como se relata em documentos medievais da época, de países como Irlanda, Itália e Alemanha, que também detalham a fome e a seca que terão resultado do fenómeno.

“Sofrimento humano generalizado”

O evento que ocorreu no Século X é conhecido como “uma inundação de lava”, ou seja, “um tipo raro de erupção vulcânica prolongada em que enormes fluxos de lava engolem a paisagem”, sendo acompanhados por “uma névoa de gases sulfurosos”, explicam os autores do estudo.

Um fenómeno semelhante verificou-se na Islândia entre Agosto de 2014 e Fevereiro de 2015, com a erupção do Bárðarbunga que emitiu grandes volumes de dióxido sulfúrico que chegaram a afectar “a qualidade do ar a 1400 quilómetros de distância, na Irlanda”, explica a Universidade de Cambrige.

Mas os efeitos do Eldgjá foram muito mais trágicos, despoletando consequências que vão do norte da Europa ao norte da China, como atesta o investigador Tim Newfield, da Universidade de Georgetown, nos EUA. Este cientista, que também esteve envolvido no estudo, fala de um “sofrimento humano generalizado“, salientando que “as pessoas viveram longos e duros Invernos, e secas severas na Primavera-Verão”.

Havia “infestações por gafanhotos e mortalidade de animais”, acrescenta Newfield. “A fome não se instalou em todo o lado, mas no início dos anos de 940, lemos sobre a escassez e grande mortalidade em partes da Alemanha, Iraque e China“, revela.

“Em 940, o arrefecimento do Verão foi mais pronunciado na Europa Central, na Escandinávia, nas Montanhas Canadianas, no Alasca e na Ásia Central, com as temperaturas médias do Verão abaixo de 2º“, destaca ainda o professor Markus Stoffel, da Universidade de Genebra, na Suíça, que também participou no estudo.

Susana Valente SV, ZAP //

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