Entrevistas inéditas de psiquiatra a líderes nazis publicadas em Portugal

OPA / Wikimedia

Os arquitectos da purga nazi: Hitler, Göring, Goebbels, e Hess. Faltam Himmler e Heydrich.

Os arquitectos da purga nazi: Hitler, Göring, Goebbels, e Hess. Faltam Himmler e Heydrich.

As entrevistas do psiquiatra norte-americano Leon Goldensohn aos nazis julgados em Nuremberga em 1946 foram publicadas em Portugal pela primeira vez e revelam não só o passado mas também o que “terá motivado” os crimes dos nacional-socialistas contra a humanidade.

Leon Goldensohn (1911-1960), formado em medicina e especializado em psiquiatria nasceu e estudou em Nova Iorque, alistou-se para combater na Europa e encontrava-se destacado no Hospital Geral de Nuremberga no final do conflito quando foi chamado para prestar serviço como psiquiatra da prisão onde se encontravam detidos os líderes nazis julgados durante o primeiro semestre de 1946.

“Hoje ao fim da tarde, Goering estava na cela a fumar o seu longo cachimbo de caçador e com ar bastante deprimido quando lá entrei com o sr. Triest”, escreve Goldensohn no dia 28 de maio de 1946 sobre um dos encontros com a segunda figura do regime nazi, comandante-em-chefe da Força Aérea, presidente do Reichstag (Parlamento).

Durante as entrevistas, Hermann Goering recorda o irmão Albert, com quem não tinha contacto; a I Guerra Mundial (1914-1918) e o Tratado de Versailles que justifica como causa do nacional-socialismo e demora-se nos elogios a Adolf Hitler justificando que o ódio contra os judeus fica a dever-se, em parte, à “má influência” do ministro da Propaganda, Joseph Goebbels que se suicidou no dia 01 de maio de 1945, em Berlim.

“Não acho que vou nem para o céu nem para o inferno, quando morrer. Não acredito na Bíblia, nem em muitas coisas em que as pessoas religiosas creem. No entanto, venero as mulheres e penso que não é nada desportivo matar crianças”, diz Goering ao psiquiatra quando se refere ao holocausto.

Além de afirmar que desconhecia “em concreto” o genocídio de milhões de judeus – apesar de ter autorizado pessoalmente a construção de campos de concentração para “prisioneiros comunistas russos” – Goering afirma também que a vasta coleção de arte, fruto de pilhagens, não foi um roubo nem os saques foram ilegais.

“Eu adoro a arte pela arte e, como já disse, a minha personalidade exigia que eu estivesse rodeado dos melhores espécimes do mundo da arte”, explica Herman Goering acrescentando que na década de 1930 o regime manteve-se muitas vezes aberto ao exterior, sobretudo à cultura norte-americana.

Nicola Perscheid / Wikimedia

Hermann Goering

Hermann Goering

Hitler não se interessava por literatura mas publicaram-se mais policiais, em especial ficção americana, do que em qualquer período anterior. Até a ficção americana não policial vendia bastante, por exemplo, o livro ‘E Tudo o Vento Levou’ e outros ‘bestsellers’ semelhantes” (pag 170), diz o marechal, condenado à morte mas que acabou por conseguir suicidar-se na cela da prisão de Nuremberga.

As entrevistas de Goldensohn aos protagonistas do nazismo julgados em Nuremberga, nomeadamente a frieza de Rudolf Hess, tenente coronel das SS e comandante do campo de Auschwitz na Polónia.

“Para incinerar duas mil pessoas precisávamos de cerca de 24 horas com os cinco fornos a trabalhar. Em geral, conseguíamos cremar entre 1.700 a 1.800 pessoas. Desta maneira a cremação estava sempre atrasada porque, como pode ver, era muito mais fácil exterminar com gás do que cremar, que levava muito mais tempo e dava mais trabalho”, explica Hess que foi enforcado em 1947.

Destacam-se também as entrevistas a Wilhelm Frick, ministro do Interior (condenado à morte); Walther Funk, ministro da Economia (libertado em 1957); Julius Streicher, editor do jornal antissemita Der Sturmer (condenado à morte); o ministro dos Negócios Estrangeiros Joachim von Ribbentrop (condenado à morte); o marechal de campo Wilhelm Keitel (condenado à morte); o austríaco Ernest Kaltenbrunner, do Departamento Central de Segurança (condenado à morte) e Hans Fritzche do Ministério da Propaganda (considerado inocente de crimes de guerra), entre outros líderes da Alemanha nazi.

O livro “Entrevistas de Nuremberga” (584 páginas), foi editado pela Tinta da China e inclui um enquadramento do historiador Robert Gellately sobre a criação e funcionamento do tribunal internacional que julgou os criminosos do nacional socialismo, em Nuremberga, no final da II Guerra Mundial.

/Lusa

PARTILHAR

1 COMENTÁRIO

  1. Há lapso da vossa parte neste quando referem:
    “Rudolf Hess, tenente coronel das SS e comandante do campo de Auschwitz na Polónia”
    Pois o comandante de Auschwitz chamava-se Rudolf Hoess, págs 369 do livro aqui citado

    Rudolf Hess foi o nº 2 do partido nazi, pág 191 do mesmo livro

    Portanto, duas pessoas distintas e nomes diferentes
    Cumprimentos
    CSilva

RESPONDER

"Evento raro". Nasceu uma baleia-branca no maior aquário do mundo (e o momento foi gravado)

Whisper, uma baleia-branca de 20 anos, deu à luz uma cria saudável em 17 de maio após uma gravidez de 15 meses, marcando a chegada do mais novo cetáceo do Georgia Aquarium, numa altura em …

Telemóveis são uma ferramenta poderosa contra a desigualdade de género em África

Ao dar às mulheres acesso a informação que, de outra forma, era quase impossível de obter, os telemóveis estão a salvar e a transformar vidas. De acordo com o site IFLScience, o estudo responsável por esta …

Desde março, morreram mais de 100 elefantes no Botsuana. Ninguém sabe porquê

As autoridades do Botsuana estão a investigar a morte de 110 elefantes na região do Delta do Okavango desde março, anunciou esta semana o Ministério do Meio Ambiente, Conservação de Recursos Naturais e Turismo daquele …

Um robô aprendeu a fazer uma omelete. E ficou melhor do que o esperado

Uma equipa de engenheiros da Universidade de Cambridge, no Reino Unido, treinou um robô a preparar uma omelete. Para os investigadores, avaliar se um robô cozinhou uma refeição com sucesso é uma fonte interessante de …

Covid-19 já matou mais no Reino Unido do que os bombardeamentos alemães da II Guerra

A pandemia de covid-19 já matou mais pessoas no Reino Unido do que os bombardeamentos alemães durante a II Guerra Mundial. O novo coronavírus oriundo da China já matou cerca de 50.000 pessoas em território …

Estudo mostra que os cães querem mesmo resgatar os seus donos do perigo

Um novo estudo mostra que os nossos amigos de quatro patas querem realmente salvar-nos em momentos de aflição, mas desde que saibam como o fazer. De acordo com o site Science Alert, os investigadores reuniram 60 cães …

Derek Chauvin foi detido, mas os precedentes mostram que o polícia pode sair impune

Derek Chauvin, o polícia responsável pela morte de George Floyd, foi detido e aguarda a sua primeira audiência. No entanto, há precedentes que sugerem que o agente pode sair impune. Derek Chauvin tem a sua primeira …

Cientistas encontram dois fragmentos do meteorito de Barcelona

Cientistas espanhóis encontraram dois pequenos fragmentos do chamado meteorito de Barcelona, que caiu, há mais de 300 anos, no dia de Natal. No dia 25 de dezembro de 1704, um meteorito rasgou os céus e caiu …

"Pressionaram-me para o denunciar". Higuita recorda amizade com Escobar

A relação de amizade entre René Higuita e Pablo Escobar levou a que o ex-futebolista fosse seguido pelas autoridades. A polícia chegou a pressioná-lo para denunciar Escobar. O antigo internacional colombiano René Higuita é provavelmente uma …

George Floyd. Portugal junta-se às manifestações mundiais contra o racismo

Cinco cidades portuguesas juntam-se hoje à campanha de solidariedade mundial contra o racismo, associando-se à luta pela dignidade humana na sequência da morte, a 25 de maio, do afro-americano George Floyd, sob custódia da polícia …