Efeitos do stress passam de avós para netos pelos espermatozoides

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O stress vivido por uma determinada geração pode passar para os filhos e para os descendentes destes através dos espermatozoides. É o que constata um novo estudo centrado numa nova forma de hereditariedade.

A chamada transmissão epigenética dá-se não só através do ADN mas também por outros elementos, que carregam informação genética, conhecidos por ARN não-codificados.

Um novo estudo centrado nesta forma de hereditariedade explica porque é que os descendentes de ratos machos stressados continuam a ser afectados por um stress que, na realidade, nunca experimentaram.

Esta transmissão dá-se não apenas de pais para filhos, mas de avós para netos e a culpa é dos espermatozoides.

A conclusão destes investigadores norte-americanos da Universidade da Pensilvânia vem exposta na revista científica PNAS, da Academia Nacional de Ciências dos Estados Unidos.

Estes cientistas, liderados pela investigadora Tracy Bale, encontraram nos espermatozoides de ratos sujeitos a stress crónico a presença de ARN não-codificado, que torna os seus descendentes menos sensíveis ao stress.

Acrescente-se que esses elementos genéticos foram encontrados meses depois de os ratos terem experimentado os tais eventos de stress.

“Se nascer num ambiente de algum modo stressante, será talvez melhor para o seu cérebro e para a utilização de energia não responder muito a cada perturbação”, explica Tracy Bale, citada pelo jornal Le Figaro.

Outro estudo feito na Universidade de Zurique, na Suíça, demonstra também o papel do ARN não-codificado na transmissão do stress nos mamíferos.

Neste caso, os investigadores injectaram ARN não-codificado em espermatozoides de ratos e induziram fecundações em laboratório que conferiram aos ratos daí nascidos sintomas de depressão e de menor reacção ao stress.

Também a descendência destes ratos fertilizados in vitro demonstrou as mesmas características.

Estes dados vêm relevar o peso que os espermatozoides carregam mesmo antes de ocorrer a concepção de um bebé. Pelo que estes estudos indicam, estes podem guardar uma espécie de memória adquirida de experiências de vida e dos próprios mecanismos do metabolismo e passá-la aos seus descendentes.

É um misterioso mundo novo que começa apenas agora a ser desvendado, conforme nota a investigadora Isabelle Mansuy, da Universidade de Zurique, também em declarações ao jornal francês.

“As modificações dos espermatozoides num rato traumatizado parecem no entanto, reversíveis se o animal for colocado num meio enriquecido que o estimula mentalmente”, acrescenta a investigadora.

Isabelle Mansuy sublinha ainda que esta menor reacção ao stress, passada pelos espermatozoides, pode até “ser uma vantagem”.

“No nosso modelo de stress pós-natal, os ratos nascidos de machos stressados apresentam problemas de memória a longo termo, mas também uma maior flexibilidade de adaptação face a novas condições de aprendizagem”, constata a investigadora.

ZAP

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