Em decisão histórica, partidos árabes recomendam Gantz como primeiro-ministro de Israel

O Presidente de Israel, Reuven Rivlin, iniciou este domingo as suas consultas para a formação de um novo Governo. A Lista Conjunta, uma coligação que reúne os principais partidos árabes do país (Balad, Hadash, Ta’al e Lista Árabe Unida), fez história quando o seu líder, Ayman Odeh, recomendou Benny Gantz, o líder da aliança centrista Kahol Lavan (Azul e Branca), para primeiro-ministro.

“Estamos à procura de uma forma de impedir Benjamin Netanyahu [primeiro-ministro em funções e líder do Likud, de direita] de ser primeiro-ministro e isso é o que a maioria das pessoas quer”, disse Ayman Odeh a Reuven Rivlin, noticiou o Expresso.

O líder do Ta’al, Ahmad Tibi, esclareceu que Benny Gantz não é um candidato da sua preferência mas acrescentou: “Os nossos eleitores queriam este momento histórico depois de um líder que incitou sistematicamente contra nós como se fôssemos o inimigo”.

Ahmad Tibi sublinhou que a decisão também fora tomada por razões diplomáticas. “A nossa escolha é uma bofetada na cara de Donald Trump [Presidente dos Estados Unidos] e o seu acordo definitivo. Senhor Trump, pode guardar o seu acordo. Os palestinianos merecem um Estado próprio. Entende isso?”, perguntou, citado pelo Jerusalem Post.

Os partidos árabes não recomendavam um candidato para primeiro-ministro desde Yitzhak Rabin em 1992 e nunca fizeram parte de uma coligação. Ahmad Tibi disse ao Presidente israelita que a Lista Conjunta permaneceria na oposição.

“O tiro de Netanyahu saiu-lhe pela culatra”

Reuven Rivlin informou representantes do Likud e da aliança Azul e Branca que exigiria a formação de um Governo de unidade com as duas formações, sem, no entanto, indicar qual dos partidos seria o principal. Na quarta-feira à noite, o chefe de Estado deverá comunicar a quem dá o mandato para formar Governo, depois de os resultados das eleições da terça-feira passada se tornarem oficiais.

Ronen Zvulun / EPA

O primeiro-ministro de Israel Benjamin Netanyahu

A aliança Azul e Branca conquistou 33 lugares no Knesset (o Parlamento israelita), o Likud 31 e a Lista Conjunta 13. “Os resultados mostram que os partidos que esperavam sair fortalecidos das eleições saíram mais fracos. As eleições eram mais sobre a chefia do Governo por Netanyahu do que qualquer outra coisa”, defendeu Ezra Schwartz, mestrando de Ciência Política na Universidade Hebraica de Jerusalém.

“Os blocos políticos estão menos definidos pela divisão direita/esquerda e mais entre os que querem Netanyahu como primeiro-ministro e os que não o querem”, sublinhou o especialista ao Expresso.

“Uma grande parte da campanha decorreu usando as comunidades minoritárias de Israel como bodes expiatórios. Netanyahu e a ala direita alertaram para o perigo de uma alta participação árabe, enquanto a aliança Azul e Branca e [o ex-ministro da Defesa e atual líder do Yisrael Beiteinu] Avigdor Lieberman fizeram campanha por um Governo secular, rejeitando implicitamente os judeus ultraortodoxos. Tanto estes como os árabes acabaram por sair fortalecidos por estes ataques”, avaliou Ezra Schwartz.

“Isto é um sinal de que o tiro de Netanyahu lhe saiu pela culatra e que o voto árabe poderá derrubá-lo. Embora muitos israelitas considerem a Lista Conjunta muito extrema, a sua predisposição para integrar o processo sob Odeh trá-la à esfera de poder e de influência e, com sorte, significará uma cooperação mais forte para as relações árabe-judaicas em Israel”, prosseguiu.

“Única opção para evitar terceiras eleições”

Reuven Rivlin afirmou ainda aos deputados da aliança Azul e Branca que o povo está “enjoado” com a perspetiva de umas terceiras eleições. Nas eleições de abril, Benjamin Netanyahu e Benny Gantz ficaram empatados com 35 assentos parlamentares e, face à sua incapacidade para formar Governo, o primeiro precipitou novas eleições.

Itzike / Flickr

O Presidente de Israel, Reuven Rivlin

“Eu preferia que não tivéssemos ido a novas eleições. É um enorme desperdício de dinheiro e os resultados levam-nos de volta às eleições de abril mas com um problema maior, tanto política como economicamente”, assinalou ao Expresso Hananya Naftali, reservista das Forças de Defesa de Israel. “Um Governo de unidade é a única opção para evitar terceiras eleições e servir melhor o público”, sugeriu.

Quando os deputados da aliança centrista se mostraram favoráveis a um Governo de unidade mas disseram que têm descartado Benjamin Netanyahu devido às acusações criminais pendentes, o Presidente lembrou-os que ainda não houve condenação.

“O povo de Israel quer um Governo estável e um Governo estável não pode ser um Governo sem os dois maiores partidos”, frisou Reuven Rivlin.

“Netanyahu deverá ser indiciado nas próximas semanas por várias acusações de suborno. Nas últimas eleições, Netanyahu esperava fazer aprovar uma lei que lhe garantisse imunidade, apoiando-se num forte Governo de direita. Tendo em conta os resultados destas eleições, Netanyahu não conseguirá fazer aprovar essa lei”, avisou Erza Schwartz.

E acrescentou: “Isto significa que mesmo que Netanyahu forme um Governo com Gantz, poderá ser considerado culpado e forçado a abandonar o Executivo. Nas negociações para formar uma coligação, tentará avaliar-se se Netanyahu está disposto a fazer um acordo para rodar como primeiro-ministro com Gantz, em troca de algum tipo de clemência política”. Mas alertou: “Tudo pode acontecer nas negociações e Netanyahu já mostrou várias vezes que nunca deve ser descartado”.

Taísa Pagno TP, ZAP //

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3 COMENTÁRIOS

  1. Então o sujeito queria maioria absoluta para aprovar uma lei de imunidade para ele próprio! Grande lata! Às vezes, fico com a ideia de que os políticos se esquecem que o poder é efémero. Veja-se o caso do Bolsonaro a apoiar o Trump e, simultaneamente, hostilizando vários outros países (da Europa, nomeadamente). Como vai ser quando o Trump e os republicanos perderem as eleições para os democratas? É não ter sentido de Estado mas tão somente dele mesmo. E ele também não ficará no poleiro para sempre. Lembram aqui o nosso salazarinho que, talvez por ser tão endeusado pelo povo analfabeto, acreditava que era eterno e não contou com a traição da cadeira. O Franco, ao menos, deixou testamento político.

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