De onde vêm as vozes que ouvimos quando falamos internamente? Os cientistas não têm a certeza

Cientistas acreditam que os indivíduos incapazes de ouvir vozes internas também não conseguem ter representações mentais de imagens, uma ligação que não está ainda confirmada.

As vozes interiores que todos os indivíduos parecem ouvir nas suas cabeças, associadas aos seus pensamentos, são algo frequente no dia-a-dia, no entanto, são poucos os conhecimentos científicos que existem. Russel Hurlburt, um psicólogo da Universidade de Nevada, em Las Vegas, é um investigador de referência no tópico, depois de em 1973 ter  criado um método chamado Descriptive Experience Sampling (DES).

À luz deste, um participantes na pesquisa carregavam um beeper nas suas orelhas que, de forma aleatória, apitava ao longo do dia para que os indivíduos apontassem o que lhes havia passado pela cabeça imediatamente antes do aviso. De acordo com o investigador, apesar do método rebuscado, o estudo continuou a ser difícil, já que as respostas dadas pelos participantes não correspondiam tanto à realidade, mas mais às expectativas dos autores da pesquisa.

Perante esta condicionante, Hurlburt – e outros cientistas que ao longo do anos adotaram o método nos seus trabalhos – começaram a encontrar-se com os indivíduos e questioná-los cuidadosamente sobre as informações que tinham entregue. Desta forma, os participantes passaram a conceder dados mais realistas e úteis para conclusões científicas.

Como consequência das pesquisas feitas, pareceu claro que o discurso interior é algo complexo e possivelmente menos ubíquo do que a maioria pensava.

Recentemente, assistiu-se também ao surgimento de novas técnicas capazes de estudar o discurso anterior, como o fMRI. Foi precisamente através deste método que um estudo de 2019 da Frontiers in Psychology estudou as vozes anteriores. Em linha com outras pesquisas semelhantes, a equipa responsável descobriu que embora algumas conversas interiores envolvam frases completas e mesmo parágrafos inteiros (como ensaiar uma conversa que se pretende ter com o chefe), a maioria são mais fragmentárias. Ou seja, apenas um fragmento de um pensamento ou uma palavra.

Simultaneamente, é preciso também considerar que as conclusões podem variar de pessoa para pessoa – com algumas a afirmarem não ter qualquer tipo de voz interior, o que os cientistas dizem variar de acordo com a definição que cada indivíduo tem para o fenómeno.

Para além das vozes, também música e imagens habitam no cérebro humano. Apesar de, mais uma vez, alguns dizerem não ter perceção disso. As pessoas que não conseguem formar representações mentais parecem sofrer de afantasia, um termo cunhado em 2015 e que parece aplicar-se entre 2 a 5% da população. Os cientistas acreditam também existir uma forte ligação entre a ausência de vozes interiores e imagens, isto de acordo com um estudo de 2021.

Apesar de não existir uma correlação perfeita, a maioria das pessoas que diziam não conseguir visualizar imagens mentais também afirmavam não conseguir manter um discurso interno. Para já, não existe uma explicação clara. Ainda assim, os cientistas já conseguem dar algumas luzes sobre o perfil destas pessoas: têm a típica capacidade de memória de trabalho e memória a longo prazo, o seu QI tende a ser normal ou acima da média, e não parecem apresentar grandes diferenças em relação à maioria das pessoas.

  ZAP //

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