Daesh está a tentar criar um novo Estado islâmico nas Filipinas

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Há dois anos que a bandeira negra do Daesh deixou de esvoaçar no topo de um edifício da cidade de Marawi, em Mindanau, no sul das Filipinas, e o Presidente, Rodrigo Duterte, declarou tê-lo derrotado. Apesar do fim do califado no Iraque e na Síria, os jihadistas prosperam na província muçulmana do país maioritariamente católico.

Segundo noticiou o Público no domingo, o recrutamento do Daesh entre os mais pobres avança a passos largos e jihadistas da Malásia, Indonésia e Singapura continuam a chegar. A morte do líder da organização, Abu Bakr al-Baghdadi, já deu azo a uma tentativa falhada de atentado por três jihadistas, abatidos pelos militares no sul do país.

“A cidade de Marawi tornou-se um terreno fértil para o recrutamento extremista”, disse ao Asia Times Rommel Banlaoi, analista do Instituto Filipino para a Paz, Violência e Terrorismo, em Manila.

“A minha preocupação é que o sul das Filipinas continua a atrair combatentes estrangeiros da Malásia, Indonésia e Singapura, simplesmente por o Daesh ter sofrido reveses no Iraque e na Síria”, acrescentou Zachary Abuza, professor no National War College, em Washington, Estados Unidos (EUA), ao Philippines Star.

De acordo com Zachary Abuza, Abu Bakr al-Baghdadi ordenou aos militantes islâmicos do Sudeste Asiático que viajassem para as Filipinas e não para o Iraque ou Síria, uma vez que Mindanau é a única província na região onde o Daesh controla território e podem ganhar experiência militar.

Experiência militar que teve como marco a conquista de Marawi – cidade com 360 mil habitantes – e que continua nas selvas filipinas. O Daesh tinha acabado de perder Mossul, no Iraque, quando vários grupos jihadistas, entre os quais o Abu Sayyaf, se uniram numa coligação e juraram fidelidade ao califado.

Em 2017, avançaram contra Marawi e, em poucas horas, conquistaram o quartel militar, libertaram jihadistas da prisão e reduziram a escombros uma catedral católica, uma mesquita xiita e uma universidade gerida por protestantes. Posicionaram-se em pontos estratégicos, como a ponte de Banggolo, controlando as entradas e saídas da cidade, e aguardaram pela chegada dos militares. Ao mesmo tempo, milhares de pessoas fugiam.

O Presidente Rodrigo Duterte ordenou aos militares que reconquistassem a cidade e eliminassem os jihadistas. Com sucessivos bombardeamentos aéreos, a cidade conhecida pelo seu comércio transformou-se em ruínas. Os militares conseguiram reconquistar a cidade, mas não acabar com o Daesh, apenas enfraquecê-lo.

Mast Irham / EPA

O Presidente das Filipinas, Rodrigo Roa Duterte

Os jihadistas, entre os quais o seu líder, o emir Isnilon Hapilon, combateram os soldados filipinos, levando os civis que não fugiram a serem apanhados no fogo cruzado. Cinco meses de combates (de maio a outubro de 2017) resultaram na vitória dos militares e na morte de mais de 1100 jihadistas, entre os quais o seu líder, com os restantes a procurarem refúgio na selva. O estado de emergência, decretado por Rodrigo Duterte logo que Marawi foi tomada, ainda vigora.

Marawi destruída

A destruição de Marawi foi tal que os críticos de Rodrigo Duterte o acusam de bombardeamentos desproporcionais, com os danos calculados na ordem dos 1,2 mil milhões de dólares (1075 milhões de euros).

As promessas do Governo de realojar definitivamente quem se viu privado das suas casas tardam e um terço da população vive ainda hoje em tendas, no meio da lama. O Executivo garante já ter distribuído em 15 mil agregados familiares 1400 dólares em dinheiro por família, segundo o gestor do fundo de reabilitação, Felix Castro, em declarações à Al-Jazira.

“Dois anos e os deslocados ainda lamentam o ritmo da reabilitação, bem como o falhanço do Governo em envolvê-los no planeamento”, disse em comunicado Leni Robredo, vice-presidente filipina e líder da oposição, citada pela Al-Jazira.

Para Drieza Abato Lininding, líder comunitário em Mindanau, o Governo já falhou vários prazos prometidos e, garantiu, nem uma família foi autorizada a regressar às suas casas, algumas das quais demolidas sem a sua autorização. “Não há nada para comemorar, apenas dor, e o sofrimento continua. Não nos sentimos libertados”, disse ao canal árabe.

O descontentamento anti-Governo e a miséria têm sido explorados pelos jihadistas. O recrutamento aumentou exponencialmente nas redes sociais e os recrutadores, que se movimentam pela densa selva, andam de aldeia em aldeia e no campo de refugiados a oferecer dinheiro e armas a quem se lhes juntar, indicou o Asia Times.

“Quanto mais esta situação se mantiver e as pessoas não forem autorizadas a regressar, maior a probabilidade de acreditarem nas narrativas [do Daesh], por mais falsas que sejam”, garantiu à Al-Jazira Salma Pir Rasul, professor de Direito e diretor dos Estudos de Lei Islâmica da Universidade das Filipinas.

O académico não duvida que as promessas financeiras são bastante aliciantes para uma geração de jovens que não vê futuro numa região marcada pela pobreza e por décadas de conflitos. Além disso, o bónus de alistamento ronda os 20 mil a 50 mil pesos (entre 360 e 900 euros), a que se junta uma mesada para a família dos membros do Daesh. Alguns ouviram a promessa de que esta se manteria mesmo se morressem em combate.

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Abu Bakr al-Baghdadi, ex-líder do grupo terrorista Estado Islâmico

Uma realidade de recrutamento que, dizem os críticos, o Governo de Rodrigo Duterte se recusa a admitir, mantendo o discurso de que o Daesh foi derrotado e desvalorizando os quatro atentados desde julho do ano passado. As operações militares, encabeçadas pelas forças especiais, sucedem-se e os jihadistas organizam atentados suicidas e ataques de guerrilha esporádicos numa região onde a presença da polícia é escassa.

Uma segunda cidade

A organização está a crescer entre a população e poderá em breve tentar conquistar uma segunda cidade, indicou o Asia Times. Os sinais são semelhantes aos que se viram no ano anterior à conquista de Marawi, apesar dos problemas de liderança após a morte Hapilon – substituído por Hatib Sawadjaane, líder do Abu Sayyaf – e de o Daesh no país ser mais uma coligação de grupos que uma estrutura de comando centralizada.

A ameaça jihadista é conhecida e admitida pelas chefias militares, ainda que a desvalorizem, e teme-se uma campanha global de retaliação do Daesh pela morte do seu líder, Abu Bakr al-Baghdadi.

“Estamos em alerta. Ordenei a unidades [militares] que pusessem em prática medidas proativas para monitorizarem estes grupos inspirados no Daesh e para antecipar o pior cenário possível. Mas não há razões para alarme”, disse o tenente-general Cirilito Sobejana, chefe do Comando Ocidental de Mindanau.

Três jihadistas que pertenciam ao Abu Sayyaf, entre os quais dois egípcios, tentaram explodir-se na terça-feira passada num posto militar na ilha de Jolo, na província de Sulu, e foram abatidos pelos militares, revelou o comando das Forças Armadas filipinas.

Esta foi a quinta tentativa de atentado suicida no sul das Filipinas em 16 meses, o que mostra a força do Daesh – e do seu recrutamento e propaganda -, tendo em conta que este método terrorista é relativamente recente no país.

A morte de Abu Bakr al-Baghdadi pode também ter um outro efeito para além da retaliação. A incerteza causada pela eleição de um novo líder pode levar os jihadistas filipinos a reposicionarem-se na rede internacional, dando novos passos para estabelecerem o seu próprio território no Sudeste Asiático, disse Rommel Banlaoi.

“Os grupos pró-Daesh nas Filipinas vão certamente reexaminar os seus papéis na era pós-Baghdadi”, afirmou o analista, desta vez à Al-Jazira. O Daesh no Médio Oriente deixou de se preocupar com a conquista de território e populações para, a partir de 2017, assumir um modelo de insurgência descentralizado e global, à semelhança da Al-Qaeda, indicou a Foreign Affairs.

Peewee Bacuno / EPA

Filipinas elevam alerta de terrorismo para todo o país após ataque mortal

A queda de Marawi foi um duro golpe para os jihadistas, mas os cinco meses de intensa batalha – o mais duro confronto no país desde a II Guerra Mundial – foram também uma clara demonstração de força, que servem como instrumento de propaganda.

Mas, perdida a cidade, os jihadistas voltaram para a selva. Agora fazem emboscadas e atentados suicidas em ilhas do sul– Basilan e Sulu. E, por vezes, plantam engenhos explosivos à beira da estrada, sem saberem quem por ali vai passar.

Terreno fértil para o jihadismo

As Filipinas sempre foram um terreno fértil para o jihadismo, referiu o Público. A população muçulmana de Mindanau queria ser independente das Filipinas e o Estado central sempre lhe negou essa possibilidade, com uma franja da população a pegar em armas e o conflito a arrastar-se numa permanente guerrilha.

Em 2014, no entanto, a Frente de Libertação Islâmica Moro (MILF) e o Governo assinaram um acordo de paz e hoje lutam lado a lado contra o Daesh – oito milicianos foram mortos no início de outubro num ataque a um campo militar por um grupo do Daesh. Porém, o desejo de independência evoluiu para ódio religioso e os jihadistas prosperaram.

Tal como os militantes islâmicos do Daesh no Iraque e na Síria, os das Filipinas também têm uma vasta experiência de combate e formação religiosa. Uns viram na guerra do Afeganistão um campo de batalha que lhes podia dar treino e combateram ao lado dos mujahedines contra os russos e, depois, ao lado dos taliban contra a Aliança do Norte, mais tarde aliada dos Estados Unidos na invasão do país, em 2001.

Outros estudaram em madraças na Arábia Saudita e no Iémen. Regressados às Filipinas, formaram vários grupos jihadistas para combater as forças do Governo e, pelo meio, disputavam a hegemonia entre si e com o movimento de libertação nacional muçulmano.

O aparecimento do Daesh, em 2014, mudou tudo: deu-lhes uma bandeira e causa comuns, unindo-os numa coligação com o único objetivo de proclamarem uma wilayah, um Estado onde a leitura extremada da lei islâmica impere.

E vieram combatentes da Chechénia, da Somália e do Iémen para engrossar as suas fileiras, relatou o New York Times. A liderança do Daesh nunca priorizou as Filipinas (ou o Sudeste Asiático) como teatro de operações, mas, ao mesmo tempo, foi a sua maior esperança fora do Médio Oriente, concluiu a Foreign Affairs.

ZAP //

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