Cientistas queriam estudar a propagação das borboletas, mas criaram uma matriosca de parasitas

Erik Karits / Pixabay

Glanville fritillary

Objetivo dos cientistas era perceber, através da introdução da espécie de borboletas Glanville fritillary qual o seu poder de dispersão numa ilha finlandesa. No entanto, acabaram com um retrato alarmante para todos os investigadores que tentem, no futuro, a recuperação de espécies em perigo por meios artificiais.

Há cerca de 30 anos, os cientistas introduziram em Sottunga, uma pequena ilha do arquipélago de Aland, pertencente à Finlândia, um conjunto de lagartas cujo o processo de transformação em borboletas e consequente dispersão seria alvo de estudos. No entanto, o que não estavam à espera é que juntamente com as lagartas, mais concretamente no seu interior, fossem também acrescentados ao ecossistemas locais parasitas que irromperam pela paisagem, alguns dos quais antes mesmo de a borboleta atingir a sua forma.

Foi o caso da pequena vespa parasita Hyposoter horticola que, por sua vez, tem no interior outra vespa “hiperparasitoide”, ainda mais minúscula e rara, conhecida, no seu nome científico como Mesochorus cf. stigmaticus. Ela mata a vespa em em seu redor ao mesmo tempo que a outra mata a lagarta e emerge após dez dias do interior da carcaça da lagarta.

Como se este conjunto biológico não fosse suficiente, um quarto agente esteve envolvido na experiência, uma bactéria transportada pela primeira vespa parasita e transmitida para os seus descendentes através de um mecanismo até ao momento desconhecido pelos cientistas. A presenta desta bactéria (Wolbachia pipientis) aumenta a suscetibilidade de a primeira vespa parasita — chamemos-lhe vespa parasita mãe — de ser consumida pela segunda vespa — ou vespa parasita filha.

Desta forma, não deixa de ser surpreendente que, considerada a pequena dimensão da população e a sua vulnerabilidade à extinção, as quatro espécies continuem a sobreviver passadas três décadas. A experiência científica que tinha também como objetivo estudar a genética dos parasitas e o seu nível de sobrevivência tornou-se ainda mais relevante, ao nível dos resultados, se se considerar que ao longo do tempo de observação o número de indivíduos da espécie Glanville fritillary sofreu quedas significativas.

“A população de Glanville fritillary sofreu quedas abruptas ao longo dos últimos tempos, pelo que estávamos à espera que existisse pouca diversidade genética nos anos que se seguiram a essas quedas”, explicou Anne Duplouy, da Universidade de Helsínquia e responsável pela investigação. No entanto, estas borboletas parecem, de alguma forma recuperar dessas quedas populacionais e a diversidade genética é surpreendentemente alta, apesar de todos os “estrangulamentos“.

Os investigadores conseguem avançar com algumas justificações para estes resultados, a começar pelas técnicas de voo superiores dos parasitas em relação a esta espécie de borboletas. Paralelamente, as Glanville fritillary têm um poder de dispersão pobre e os indivíduos que a compõem e que vivem naturalmente em territórios insulares povoados não conseguem voar mais de sete quilómetros. No entanto, as vespas parasitas conseguiram expandir-se, talvez através dos ventos, para outros territórios.

Dado que a H. horticola foi introduzida acidentalmente na ilha Sottunga, a descoberta destas vespas parasitas em ilhas mais a norte levou os cientistas a acreditar que elas se conseguiram dispersar por meios próprios. Os indivíduos encontrados apresentavam genótipos semelhantes aos originais, pelo que se pode depreender que existe uma relação com as vespas parasitas introduzidas artificialmente numa primeira fase.

Segundo a investigadora responsável pelo estudo, os resultados apresentados e publicados na revista Molecular Ecology podem servir como aviso para os cientistas que avancem com tentativas de reintrodução ou restauro espécies raras, uma vez que ficou evidenciada a facilidade com que outros organismos, nomeadamente indesejados, podem ser lançados para os ecossistemas juntamente com as espécies em causa, ainda que de forma inadvertida.

“A reintrodução de espécies em perigo pode ter uma intenção boa, ser proveniente de um lugar bonito, mas temos muito a aprender sobre as espécie que estamos a reintroduzir e sobre os habitats onde as queremos reintroduzir antes de o fazermos”, explicou Duplouy ao The Guardian.

A bactéria em causa, a Wolbachia pipientis, pode ser encontrada em em insetos de todo o mundo, mas a sua introdução acidental em ecossistemas onde a sua existência ainda não tenha sido registada pode hipotecar qualquer tentativa de reestruturação de espécies que se está a tentar operar.

Apesar da capacidade de sobrevivência demonstrada pela Glanville fritillary e dos parasitas que lhe estão associados, muitas vezes contra as expectativas e a desafiar as quedas abruptas de população, os cientistas destacam a influência negativa que as alterações climáticas também podem ter neste processo, por exemplo, com longos períodos de seca como frequentemente acontecem em Sottunga.

Estes mesmos períodos de seca podem originar mais quebras populacionais e grandes perdas de diversidade genética das quais, por exemplo, as borboletas e as espécies que delas estão dependentes podem não conseguir recuperar.

A contagem de indivíduos da população Glanville na ilha Sottunga acontece anualmente em setembro, quando as lagartas estão mais visíveis nas “teias comunitárias”. No entanto, esta tarefa é sempre motivo de ansiedade para os investigadores envolvidos no presente estudo. “As borboletas permanecem lá mas as condições atualmente são muito complicadas devido às secas”, lamentou Duplouy. “Todos os anos ficamos muito preocupados que elas possam não estar lá, mas de momento ainda estão.”

  ARM/ZAP //

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