Cientistas conseguem identificar as vozes que os esquizofrénicos ouvem

Uma nova descoberta científica sobre o cérebro revela que as vozes na cabeça de pacientes esquizofrénicos podem derivar de vozes do mundo real. A descoberta pode dar esperança de que os pacientes aprendam a ignorar as vozes.

Uma nova pesquisa junta dois tópicos de estudos anteriores sobre a esquizofrenia, avança a LiveScience. Em vários estudos anteriores analisados por uma equipa de cientistas liderada pelo psicólogo biológico Kenneth Hugdahl, da Universidade de Bergen, na Noruega, descobriu-se que quando os pacientes alucinam com vozes, os neurónios em regiões cerebrais associadas ao processamento de som disparam, apesar de não haver ondas sonoras que façam disparar esse “gatilho”. Isso pode ser um indicador de cérebro sobrecarregado.

Por outro lado, outros estudos mostram que, quando os pacientes ouvem vozes reais, o cérebro falha na resposta, em contraste com cérebros saudáveis.

Mas como pode esse paradoxo acontecer, com cérebros a não responder a excesso de estímulo e a criar vizes à falta dele?

Os resultados da análise da compilação de vários estudos ajudam a compreender por que os pacientes com esquizofrenia sofrem num “mundo alucinante” e agora Hughdal quer usar esse conhecimento para ajudar os pacientes a reverter essa tendência. “O que aconteceria se fosse possível treinar os pacientes para desviar a atenção das vozes interiores para as exteriores?”, questiona Hughdal.

Para compreender como funcionaria este “treino” é necessário recuar ao início. A esquizofrenia é uma desordem incrivelmente complexa, marcada por delírios, alucinações e ruturas no processo de pensamento. Além disso, existem 35 sintomas associados à doença que se apresentam de forma diferente em cada paciente.

Hughdal e os colegas decidiram trabalhar na compreensão de apenas um desses sintomas: as alucinações, a mais universal marca da doença, com entre 70 a 80% dos pacientes que sofre da doença a ter alucinações.

Num estudo de 2009, os cientistas pediram a pacientes que sofriam de alucinações que escutassem sons através de auscultadores enquanto faziam uma ressonância magnética, que mediria o nível de oxigénio no sangue a fluir para as diferentes regiões cerebrais, já que mais oxigénio sugere mais atividade numa determinada região cerebral.

Nos auscultadores ouviam-se duas sílabas em simultâneo, uma no ouvido esquerdo – “ta” -, e outra no direito – “pa”. Os pacientes não foram avisados de que os sons seriam diferentes, apenas que teriam de reportar aquilo que ouviam.

Pacientes saudáveis reportavam a sílaba do lado direito – “pa” -, porque o cérebro está apto a uma transmissão rápida de sinais da orelha direta para o lobo temporal esquerdo, onde os sons de fala são processados.

Na ausência de sons exteriores, o lobo temporal esquerdo de pacientes com esquizofrenia mostrou sinais de hiperatividade, o que prova as vozes que ouviam nas suas cabeças. Hughdahl esperava que, na experiência, adicionar sons exteriores apenas aumentasse a atividade no lobo temporal esquerdo dado que mais estímulos geralmente significa mais atividade, mas não foi isso o que aconteceu.

“Para minha grande surpresa, descobrimos que os pacientes não relataram ouvir os sons da orelha direita quando alucinavam. Nem sequer existia a ativação do lobo temporal esquerdo. “Parece que quando as alucinações acontecem, acabam por interferir com o sistema percetivo, o sistema que percebe os estímulos externos”, explicou Hughdal.

É possível que a hiperatividade e a quietude simultânea do cérebro sejam fruto do trabalho de dois neurotransmissores, aponta Hughdal. Um deles, o GABA, é o maior inibidor do cérebro: acalma e amortece a ativação. Um excesso de GABA pode estar na origem da falta de resposta cerebral a vozes do mundo real.

O segundo, glutamato, pode ser a causa das alucinações em primeiro lugar. O glutamato é um químico que faz o cérebro “zumbir”. Um extra deste químico no lugar errado pode sobrecarregar o cérebro e desencadear vozes falsas.

A equipa de cientistas procura agora um tratamento que consiste em treinar o doente para “ignorar” as vozes falsas. Para isso desenvolveram uma aplicação para iPhone que funciona tal como a experiência original (o paciente pode ouvir uma sílaba em cada ouvido). Durante 10 a 15 minutos, duas vezes ao dia, o paciente pratica então ignorar os sons que vêm do lado direito e tenta reportar os do lado esquerdo.

ZAP //

PARTILHAR

1 COMENTÁRIO

  1. Para os homens da “ciência espírita” (ou racionalismo cristão) essas vozes são de espíritos do astral inferior (espíritos maus). Para eles, nas suas sessões espíritas, onde perpassam as correntes espirituais positivas (sessões de limpeza psíquica) esses doentes muitas vezes encontram solução desses seus problemas (neurológicos) espirituais. Se calhar as duas concepções convergem, a exposta neste texto (concepção da ciência médica) e a concepção da “ciência espírita”. Ou seja a mente humana é mesmo fraca, qualquer de nós pode a qualquer momento começar a desconversar, a ouvir vozes e a dizer disparates, precisando de ajuda dos psiquiatras ou dos nossos amigos espiritistas.

RESPONDER

Hélder Amaral: "O meu partido de sempre está a morrer"

Em declarações ao semanário Expresso, o antigo deputado do CDS-PP, Hélder Amaral, diz-se desiludido com o seu partido. O ex-deputado centrista Hélder Amaral, que foi também presidente da distrital de Viseu, não está feliz com o …

EDP antecipa pagamento a mais de mil fornecedores em Portugal e Espanha

A EDP vai antecipar o pagamento a mais de mil fornecedores, uma iniciativa que, à semelhança do que já aconteceu no último ano, irá manter-se para todos os pagamentos a fornecedores ao longo do primeiro …

Há centenas de pessoas em busca de tesouros que não existem na Índia (e a culpa é de um boato)

Moradores de pelo menos três vilas no distrito de Rajgarh, no estado indiano de Madhya Pradesh (MP), passaram a última semana à procura de um tesouro antigo que provavemente não existe. Centenas de aldeões estão a …

João Ferreira diz que Marcelo deixou jovens em situação de "vulnerabilidade" (e elogia lay-off a 100%)

João Ferreira criticou este sábado o atual Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa por deixar os jovens em situação de "vulnerabilidade". O candidato presidencial João Ferreira afirmou, este sábado, que o Presidente da República, Marcelo …

Marisa Matias critica que apenas 1% do orçamentado seja gasto com cuidadores informais

Marisa Matias, candidata presidencial apoiada pelo Bloco de Esquerda, criticou este sábado que apenas tenha sido executado 1% da verba prevista no Orçamento do Estado para 2020 para os projetos-piloto dos cuidadores informais. Os atrasos e …

Ana Gomes considera "elucidativo" que Sócrates a ataque e elogie Marcelo

Ana Gomes, candidata às eleições presidenciais, considerou “elucidativo” que o antigo primeiro-ministro José Sócrates a tenha atacado e elogiado Marcelo Rebelo de Sousa. Questionada pelos jornalistas sobre o artigo de José Sócrates divulgado na sexta-feira, em …

Só pela profissão, professores "não são grupo de risco"

Graça Freitas reconheceu a importância dos professores "para o funcionamento do país", mas rejeitou considerá-los um grupo de risco esta sexta-feira. Os professores não são considerados um grupo de risco que deva ser integrado entre as …

João Leão infetado com covid-19

João Leão, ministro das Finanças, testou positivo à covid-19. O governante encontra-se assintomático e em confinamento domiciliário. O ministro de Estado e das Finanças, João Leão, testou positivo à covid-19. A informação foi adiantada este sábado …

Ricardo Salgado quer anular multa de 75 mil euros

A defesa de Ricardo Salgado recorreu ao Supremo Tribunal de Justiça para tentar anular uma decisão do Tribunal da Relação de Lisboa que confirmou uma multa de 75 mil do Banco de Portugal por causa …

Portugueses começam a votar nas Presidenciais este domingo. Há 246 mil inscritos

Os portugueses começam a votar já neste domingo, uma semana antes das eleições Presidenciais de 24 de janeiro, no chamado voto antecipado em mobilidade para que se inscreveram mais de 246 mil eleitores. As europeias e …